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‘A China conhece mais o Brasil do que o Brasil conhece a China’, diz Winston Ling, em entrevista ao Boletim

Empresário, ativista liberal e um dos fundadores do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), Winston Ling defende que mais brasileiros conheçam a China e que existem aprendizados a serem tomados

- Publicado no dia
Foto: Werther Santana/Estadão

O empresário brasileiro Winston Ling, radicado na China e influente nas rodas liberais, defendeu, nos últimos dias, que as lideranças brasileiras devem sim visitar a China. Ling é um dos fundadores do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), entidade que organiza anualmente o Fórum da Liberdade, principal evento de viés liberal do país.

Se engana quem acha, contudo, que Ling está distante de nomes ligados ao novo governo – cujo partido do presidente, o PSL, é a agremiação com mais integrantes na comitiva rumo à China criticada pelo filósofo Olavo de Carvalho.

O empreendedor, na realidade, esteve próximo a Jair Bolsonaro ao longo da campanha e foi um dos seletos convidados a estarem na posse do novo presidente, inclusive na recepção ocorrida no Palácio Itamaraty, em Brasília. Foi Ling, aliás, quem apresentou o economista Paulo Guedes, hoje ministro da economia, ou então pré-candidato pelo PSL.

Em entrevista exclusiva ao Boletim da Liberdade, o empresário se aprofundou na relação do Brasil com a China e externalizou seu ponto de vista.


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Sobre esse assunto, falou sobre a falta de conhecimento de muitos brasileiros sobre a evolução do país asiático e também sobre o que o Brasil deveria e não deveria aprender com os chineses. Ling também comentou sobre como a China enxerga o Brasil no cenário geopolítico e econômico mundial.

“Esse preconceito contra a China prejudica o aprendizado que o Brasil precisa fazer para poder tirar mais e melhores vantagens do seu relacionamento com ela”, afirmou Ling. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Boletim da Liberdade: Nos últimos dias, houve muita histeria por partes de setores conservadores em relação a visita dos parlamentares brasileiros à China. Isso é sintoma de um preconceito contra o país?

Winston Ling: A China é o lugar mais longe do Brasil. O “fim do mundo”, diriam alguns. Para muitos brasileiros, a China é um mistério. Visitar a China é algo impensável devido à distância. Porta à porta, desde Porto Alegre, eu levo cerca de 36 horas de viagem incluindo transporte entre casa e aeroporto, espera no aeroporto e entre as conexões.

Ao mesmo tempo, existe uma falta de conhecimento da história da China antiga e recente. Muita gente não conhece o que aconteceu antes e depois da abertura iniciada em 1978. Confundem e misturam os períodos, fazendo uma verdadeira salada de frutas.

Depois, as pessoas ficam intrigadas e confusas pois não entendem como um país comunista cresceu tanto se o comunismo é tão ruim. Chegam a falar em trabalho escravo e outros argumentos.

Elas estão pegando varias fotografias de períodos distintos e misturando tudo, pois não conhecem o “filme”, ou seja, o início, meio e fim da história.

Eu recomendo muito assistir ao vídeo do meu amigo Robert Garmong, um objetivista americano radicado na China. Ele casou na China e tem um filho chinês.

Robert diz neste vídeo que não existe comunismo hoje na China. O regime tecnicamente é um fascismo. As pessoas se confundem porque é governado por um partido que se chama comunista.

Também recomendo a leitura do livro do Prêmio Nobel em Economia, Ronald Coase: How China Became Capitalist.

Para ilustrar a origem do histerismo com relação à China eu faço uma analogia com uma mãe muito preocupada em proteger seus filhos contra os males e os perigos da vida fora de casa.

O histerismo ocorre não especificamente com relação aos males e perigos do mundo fora da casa, mas devido a falta de confiança na capacidade da criança em se defender contra estes males e perigos.

Existe um medo na direita brasileira de que brasileiros do bem sejam atraídos e enganados pela “sereia” que é a China.

Existe um medo na direita brasileira de que brasileiros do bem sejam atraídos e enganados pela “sereia” que é a China. Vem daí o preconceito e o histerismo

Vem daí o preconceito e o histerismo. A solução para isso é educação: se informar, visitar, conhecer em primeira mão. Não se deve “comer da mão dos outros”, especialmente se estes “outros” também “comeram da mão de outros”.

A solução também não é simplesmente impedir o contato. Se a nossa cultura e as nossas ideias são as melhores, as mais racionais, as mais fortes, e as moralmente mais elevadas, não deveríamos ter medo em entrar em contato com alienígenas.

Agora, que a direita, especialmente a conservadora, mas também alguns liberais, não confia na resiliência de seus membros em cair na tentação de grandes negócios envolvendo o Estado, para proveito próprio, isso tem fundamento.

Nas minhas andanças pelo CCBB [n.e.: Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília] durante o período de transição, pude constatar para meu desapontamento a quantidade de apoiadores de Bolsonaro fazendo networking para negócios particulares.

Estes são tipos particularmente vulneráveis ao que chamei de “canto da sereia”. Estes são o que dão motivação ao histerismo resultante.

Helio Beltrão, Yaron Brook, Kim Kataguiri, Winston Ling e Roberto Rachewsky posam para foto na edição 2018 do Fórum da Liberdade (Foto: Reprodução/Facebook)

Boletim da Liberdade: Nas redes sociais, o senhor disse que os nossos líderes deveriam visitar a China para trazer ideias para desenvolver o Brasil. Em quais áreas a China poderia ser uma referência para o Brasil e o que poderíamos aprender com os chineses?

Winston Ling: A partir da abertura de 1978, nunca na história da humanidade tanta gente foi resgatada da pobreza absoluta em tempo tão rápido como na China. A pobreza absoluta foi praticamente erradicada, diferentemente do que mentem alguns artigos que tem sido publicados no Brasil.

Isso ocorreu por causa das seguintes medidas que vigoraram nas décadas de 1980 e 1990:

A. implementação da economia de mercado e do capitalismo “laissez faire”

B. implementação do direito de propriedade

C. inexistência de leis, justiça e direitos trabalhistas

D. descentralização do governo

E. fechamento ou privatização em massa de empresas estatais

F. promoção do investimento e do empreendedorismo

G. abertura comercial e investimentos estrangeiros

H. mínima regulamentação

Nas décadas de 2000 e 2010, algumas das medidas acima foram abrandadas, e o governo começou a interferir mais e mais. Em termos políticos, está havendo na prática um fechamento do regime. Tudo isso resultou numa redução do crescimento do país.

Além disso, a China introduziu “checks and balances” adicionais no governo. Por exemplo, um nativo de uma cidade não pode ser prefeito desta cidade. O prefeito tem que ser de fora. Um nativo de uma província não pode ser governador daquela província. O governador tem que ser de fora.

O governo mais recentemente instituiu penalidades extremamente severas aos funcionários públicos corruptos. São exemplos que o Brasil poderia copiar.

Por outro lado, existem coisas ruins que o Brasil não deveria copiar, como, por exemplo, a censura à livre expressão, a estatização de alguns setores da economia, e esse sistema de reconhecimento facial.

O presidente Jair Bolsonaro posa em foto ao lado de Winston Ling no dia da posse presidencial. Ling foi um dos convidados do presidente na cerimônia (Foto: Reprodução/Twitter)

Boletim da Liberdade: O fato de a China ser um país comunista gera muita desconfianças entre parte da nova direita do Brasil, de viés mais conservador e que chegou agora ao poder. Até que ponto o viés ideológico do governo chinês deveria ser um problema para o Brasil? Apenas o viés ideológico deveria ser levado em consideração nas relações bilaterais?

Winston Ling: A desconfiança existe e eu tentei explicar a origem na resposta à primeira pergunta [n.e.: sobre o preconceito com a China]. O Brasil precisa aprender mais sobre a China. A China conhece mais o Brasil do que o Brasil conhece a China.

Esse preconceito contra a China prejudica o aprendizado que o Brasil precisa fazer para poder tirar mais e melhores vantagens do seu relacionamento com ela.

Precisamos que mais brasileiros visitem e conheçam a China, sem histerias. Isso é para o bem do Brasil. O governo da China pode ter viés ideológico, porém ele também é mais pragmático do que ideológico. Esta é outra coisa que o Brasil deveria aprender com a China.

Esse preconceito contra a China prejudica o aprendizado que o Brasil precisa fazer para poder tirar mais e melhores vantagens do seu relacionamento com ela.

Boletim da Liberdade: Qual é a sua opinião sobre o sistema de verificação facial que os deputados, supostamente, pretendem conhecer na China? Há riscos? Esses riscos se devem, especialmente, por se tratar da China?

Winston Ling: Minha opinião sobre o sistema de reconhecimento facial, independente da origem da tecnologia, está expressada em uma publicação que fiz em meu Facebook:

PIOR QUE O DESARMAMENTO

Estes sistemas de reconhecimento de face são um perigo em países sem proteção da privacidade, e sem limites claros e garantidos aos poderes do Estado.

A falta de privacidade é certeza de violação dos direitos e das liberdades individuais.

Os governos tenderão à tentação de implementar um sistema destes com o argumento da segurança, muito semelhante aos argumentos a favor do desarmamento.

Cabe aos cidadãos repelir esta solução fácil para a segurança pois o custo em termos de Liberdade é enorme.

Eu tenho confiança de que com o tempo surgirão soluções para o problema da privacidade, bem como para o problema do estabelecimento de limites ao Estado.

Mas antes disto é necessário ficar atento!

O alerta de Olavo de Carvalho é pertinente e extremamente importante!

Rua de Xangai, a maior cidade da China. Ao todo, sua população é estimada em mais de 23 milhões de pessoas. (Foto: Divulgação)

Boletim da Liberdade: O governo Jair Bolsonaro tem pelo menos dois núcleos bem definidos: um de viés mais liberal, liderado pelo ministro da economia Paulo Guedes, e outro de viés mais conservador e nacionalista, influenciado pelo professor Olavo de Carvalho. É possível prever que a abordagem em relação à China tende a ser diferente entre esses grupos?

Winston Ling: É como se numa família tivéssemos uma mãe mais liberal e um pais mais conservador, ou vice-versa. Pode haver diferenças de abordagem, mas eu espero que haja um diálogo entre as diversas tendências e que o pragmatismo vença, para o bem do Brasil.

Boletim da Liberdade: Como a China enxerga o Brasil no cenário geopolítico e econômico internacional?

Winston Ling: Eu acho que a China enxerga o Brasil como o seu grande parceiro econômico e fornecedor principal de alimentos.

A China tem uma certa rivalidade com os EUA e não gostaria de depender dos EUA para alimentar o seu povo. O Brasil entra nesta equação como um parceiro estratégico.

Neste contexto, a China gostaria de ver o Brasil independente dos EUA, e ajudará o Brasil nesse sentido. O Brasil deveria tirar vantagem disto, mas sem cair na “canção de sereia” da China.

Ou seja: o Brasil deveria saber o que precisa e quer da China, e também saber o que não quer, e precisa evitar. Se isso ficar claro, especialmente para o público doméstico, muito da histeria contra a China desaparecerá.

O Brasil deveria saber o que precisa e quer da China, e também saber o que não quer, e precisa evitar. Se isso ficar claro, especialmente para o público doméstico, muito da histeria contra a China desaparecerá.

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