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O fim da sátira

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Por Yuri Quadros*

Eu ainda me lembro do meu primeiro contato com a política, e todo seu âmbito de honestidade: foi um quadro de sátira do Casseta & Planeta Urgente, com sátiras ao então presidente Lula e ex-presidente FHC, com participações especiais de outros políticos. Era uma sátira óbvia, mesmo com atores fazendo boas interpretações, ninguém acreditava que ali estavam de fato os presidentes e políticos fazendo absurdos cômicos. Talvez seja daí que veio minha primeira noção de ceticismo aos políticos. Hoje parece que a sátira foi assassinada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

No dia 15 de maio, a PGR denunciou o pré-candidato à Presidência, Romeu Zema ao Superior Tribunal de Justiça — o que em si já está errado visto que não é mais governador e deveria ser julgado na primeira instância — pelo crime de calúnia contra nosso ilustríssimo ministro Gilmar Mendes, aquele homem honesto que falamos na última coluna. O órgão também pediu a condenação do ex-governador ao pagamento de indenização equivalente a 100 salários mínimos por danos morais. Zema se pronunciou no X dizendo que “Os intocáveis não aceitam críticas. Os intocáveis não aceitam o humor. Os intocáveis não querem prestar contas de seus atos. Os intocáveis se julgam acima dos demais brasileiros. Não vou recuar um milímetro. Segue o jogo”.

Quando decidi chamar essa coluna de Contrapeso, ela tem base num preceito liberal muito claro, para todo poder que alguém acumula, é necessário que haja um contrapeso para balancear e impedir que surja a tirania. E tais contrapesos são diversos, pode ser o equilíbrio entre os três poderes, ou a mídia e o jornalismo investigativo, mas é também a instituição da comédia, da sátira, da possibilidade de ridicularizar os poderosos a mostrar suas dissonâncias com a realidade e moralidade. Ao fazer uma denúncia como esta, Gonet não apenas ataca o ex-governador, mas dá uma facada no coração da nossa república que sobrevive com aparelhos. 

Isso tudo pode parecer um exagero para alguns, mas basta ver com tudo que temos passado desde o inquérito do fim do mundo que não é. A vida pública sempre veio acompanhada da sátira. Aristófanes ridicularizava Cléon, general ateniense, no auge da Guerra do Peloponeso, os ingleses caricaturar seus reis durante séculos, e a nossa própria imprensa imperial sob D. Pedro II, produziu charges mais ácidas do que qualquer quadro do casseta ou vídeo de fantoches — e ainda conta-se que o Imperador divertia-se com suas caricaturas. A República, que teoricamente nasceu para ser mais livre que o Império, hoje criminaliza o que monarcas do século XIX toleravam e achavam graça. Toda sociedade livre compreendeu que o poder público, por definição, deveria suportar a zombaria pública. Um tribunal constitucional minimamente saudável arquivaria essa denúncia em dois parágrafos.

A criança que hoje assiste ao mesmo tipo de quadro que me divertia aos seis anos não aprenderá o que aprendi. No lugar do ceticismo diante do poder, aprenderá a cautela diante dele — que é, em essência, a educação política dos regimes autoritários. É essa a formação de imaginário que nossas instituições estão oferecendo ao país, em silêncio e por via judicial. Quando morre a sátira, sobra apenas a fala oficial e a esperada obediência sem questionamento. Uma república que vive apenas disso, já deixou, em espírito, de ser república.

*Yuri Quadros é diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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