O Brasil embarcou de vez no surrealismo fantástico da América Latina. Explicar o país para um estrangeiro virou exercício de cartografia do impossível: os bandidos da Odebrecht andam livres sem pagar nem as multas, enquanto Alcides Hahn, um senhor de 71 anos de Blumenau, leva 14 anos de cadeia por ter feito um Pix de R$ 500 para fretar um ônibus — sem sequer ter viajado a Brasília. Há, porém, um único personagem capaz de concentrar em si todos os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Não é o Alcolumbre. Não é o Hugo Motta. Não é nem o Lula. Quem melhor consegue encapsular o pântano moral em que nos encontramos é Gilmar Mendes.
O homem está em todos. Desafio o leitor a listar os problemas no Brasil e eu facilmente consigo te dizer que a culpa deles, de alguma forma, é do Gilmar Mendes.
E não é por acaso. Gilmar reúne qualidades raramente encontradas numa única pessoa em Brasília.
Primeiro, se muita gente em Brasília não tem vergonha alguma, Mendes levou o cinismo a um novo nível. Se perguntam sobre os patrocínios milionários que empresas fazem ao seu instituto de direito, o homem diz que é normal, que isso não afeta o seu julgamento, e segue a vida como se tivesse acabado de responder qual é a cor do céu.
Segundo, se muitos atores políticos odeiam viver na capital federal, Mendes parece ter seu segundo lugar preferido no mundo na obra de JK — o primeiro, claro, sendo Portugal.
Por fim, diferente de vários dos seus pares — alô, ministro Toffoli — Mendes é notoriamente inteligente, com larga produção acadêmica e respeito dos seus pares.
Foi justamente esta produção acadêmica que separou Gilmar de todos os outros. Em Brasília, qualquer um pode dizer que merece ter mais poder. Poucos sabem dar um nome bonito para o seu autointeresse.
Quando ainda era Advogado-Geral da União, Gilmar Mendes redigiu as leis que deram ao STF os poderes que a Corte exerce hoje. A ADPF, a ADC, os procedimentos da ADI — instrumentos que permitem ao Supremo revisar qualquer ato do poder público e, na prática, legislar pela via judicial. Uma vez dentro do Supremo, por obra e graça de FHC — não esqueçamos deste legado — Gilmar mais uma vez não se fez de rogado e sempre interpretou os dispositivos que ele mesmo criou para lhe dar ainda mais poder.
Para muitos, Alexandre de Moraes é o que há de pior no Brasil. Eu vos digo: vocês olham para o filho sem olhar para o pai do arbítrio.
Bandido solto? O nosso herói de Mato Grosso é um dos grandes responsáveis pela doutrina “lugar de bandido é na rua”que reina no Direito brasileiro. Patrimonialismo? Por Deus! Mendes literalmente se apossou da CBF e agora o seu filho é um dos manda-chuvas; por coincidência, a influência do Ronaldinho dos Negócios do Gilmar cresceu após o ministro ter em mãos um processo a respeito das eleições na entidade. Corrupção? Eu realmente preciso dizer algo? Diria que até perigoso para um homem livre falar algo sobre este assunto.
Que diga o senador Alessandro Vieira. Ou o Marcel van Hattem. E as várias dezenas de congressistas que hoje vivem ameaçados por seus votos e falas feitos dentro do Congresso. Como você deve suspeitar, a interpretação contrária ao texto expresso da Constituição, uma interpretação sui generis contrária ao texto expresso, que basicamente terminar declarar nula a imunidade parlamentar para falas e votos também teve participação do nosso herói.
De fato, a liberdade para falar é perigosa apenas se você não for um dos ilustres convidados do GilmarPalooza, o evento que Mendes anualmente organiza para discutir e debater o quê mesmo? Não se tem notícia de uma contribuição relevante vinda de um ambiente tão cheio de estrelas. Sobre o que se tem notícia, por amor à minha liberdade, prefiro não comentar
Mendes se tornou a personificação de tudo aquilo que tem de errado no Brasil: censura, perseguição a opositores, a naturalidade com o que o Judiciário se imiscui até na política partidária, a relação promíscua entre o público e o privado, uma ideologia do atraso promovido por um culto de uma legião temerosa de cair no dissabor de quem promovem.
Por ter sido indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para o STF, Mendes sempre contou com a simpatia da Globo e da Editora Abril — e a antipatia imediata da esquerda. Na ocasião da sua indicação, o professor de Direito da USP Dalmo Dallari publicou na Folha que “Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional.” É curioso que a ascensão do Bolsonarismo tenha feito o que parecia impossível ocorrer. Hoje, a esquerda abraçou Gilmar, e Gilmar abraçou a esquerda. O homem que cavou todas as faltas do mundo contra o Lula virou o atacante do PT na Corte. Uma mudança parecida com a de um grande amigo seu, o Reinaldo Azevedo. Mas chamar isso de hipocrisia é dar crédito demais. Hipocrisia pressupõe princípios traídos. Gilmar nunca teve princípios para trair — apenas interesses para proteger.
Gilmar Mendes naturalizou um estado de espírito do homem público que não precisa dar explicações ao público. Manda repórteres enfiarem perguntas na bunda , faz seminários com patrocínio de empresas enroladas e confessadamente corruptas, e ainda ironiza os seus opositores. Há, no entanto, perguntas que sobrevivem à arrogância. Um auditor fiscal da Receita Federal olhou para as contas da sua esposa Guiomar Mendes — e Alexandre de Moraes o incluiu no Inquérito das Fake News e o afastou do cargo. O que ele encontrou?
A verdade é que nenhum país sério pode ter alguém como Gilmar Mendes na sua Suprema Corte. Ele não é um problema do Brasil — ele é a explicação do Brasil. A cartografia do impossível tem um mapa, o nosso atlas do caos atende por Gilmar Mendes.


