Por Lorenzo Bender*
Há 250 anos, treze colônias se mobilizaram por uma conquista inédita: declararam que o governo existe para servir ao indivíduo, e não o contrário. A Declaração de Independência americana, assinada em julho de 1776, afirmou que todos têm direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade, e que governos derivam seus poderes do consentimento dos governados.
A revolta contra Inglaterra nasceu da cobrança desmedida de impostos. A Lei do Selo e as taxas sobre o chá foram a gota d’água para colonos que se recusavam a pagar tributos sem representação: “No taxation without representation”. Os americanos entenderam, há dois séculos e meio, o que muitos brasileiros ainda relutam em admitir: que quem controla o seu bolso, controla a sua vida.
O contraste com a história do Brasil incomoda. Nossa independência foi negociada entre coroas, entre pai e filho. Nossa república foi proclamada por militares, num quartel, sem que o povo tivesse sido consultado ou sequer avisado. Lá, a Constituição nasceu para limitar o poder. Aqui, Constituições sucessivas nasceram e morreram tentando organizar o país e ampliar o alcance do Estado.
No basquete americano, é muito comum o slogan “numbers don’t lie”. Bom, vamos aos números. O brasileiro trabalha quase cinco meses por ano apenas para pagar impostos e recebe em troca serviços públicos que envergonham qualquer contribuinte. Arrecadamos como um país de primeiro mundo e recebemos serviços de terceiro.
Não quero e não devo idealizar os Estados Unidos. Eles têm os seus problemas e as suas contradições há 250 anos. Mas reconhecer a força da ideia lá implementada, de que a liberdade vem antes do governo, é o primeiro passo para mudanças no nosso país. Quarto presidente dos Estados Unidos, James Madison escreveu que, se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Como não somos, o grande desafio é obrigar o governo a controlar a si mesmo.
O Brasil de 2026 ainda espera do Estado o que só a iniciativa, o trabalho e a responsabilidade individual podem entregar. O aniversário da revolução americana, celebrado neste mês de julho, não é feriado nosso. Duzentos e cinquenta anos depois, a pergunta de a quem pertence o indivíduo continua sem resposta. A si mesmo ou ao governo? Enquanto não a respondermos, seguiremos espectadores da liberdade alheia.
*Lorenzo Bender é assessor de investimentos e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)


