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A UNE que ainda pode nos representar: a visão de um jovem sobre o Movimento Estudantil

Congresso da UNE

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Por Bruno Sperancetta* 

Imagine o seguinte cenário: milhares de votantes em uma assembleia. Vozes dos mais diversos lugares do país, dos mais diversos ideais. Todos debatendo o futuro de sua representação, as pautas que guiarão toda uma entidade e quem serão seus porta-vozes.

É assim que os congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE) são apresentados para estudantes, doadores e autoridades. Mas quem vive na pele sabe que não é bem assim. Há ainda uma terceira concepção, presente principalmente na direita brasileira, de que esses espaços são absolutamente inúteis. 

Nesse breve texto buscarei mostrar uma visão diferente do que a maioria de nós temos sobre todo esse cenário. Minha defesa aqui passará longe de uma crença tola no funcionamento das entidades de representação estudantil, pois acredito que o foco deve ser nos problemas e suas soluções, e não em seus sintomas.

Antes de tudo, há de se reconhecer que a UNE é uma entidade verdadeiramente histórica, e suas reivindicações, quando legítimas, bem como suas conquistas, devem ser reconhecidas e celebradas. Conhecer e admitir essa história não nos obsta a admitir o sequestro do movimento estudantil atualmente. 

A União Nacional dos Estudantes tem potencial de retomar seu papel na representação do jovem no cenário educacional e político do nosso país e pode, principalmente, estar à frente de batalhas importantes pela mudança na educação brasileira.

Contudo, para que esse potencial seja atingido, precisamos fazer alguns exercícios. O primeiro, entender qual o problema central das nossas entidades gerais de representação.

Imaginemos uma fábrica, a qual possui uma linha de produção quase perfeita. Onde os mesmos funcionários, todos com o mesmo modo de trabalhar, as mesmas roupas, traços de personalidade possuem os mesmos objetivos. 

Uma máquina programada para entregar um produto final, certo e definido, sem espaço para defeitos. Conhecer os processos internos da UNE e demais organizações é o mesmo que se deparar com essa fábrica. Esse aparato das entidades funciona para a formação de militância e lideranças para os grupos que as controlam. A máquina é tão massiva que qualquer erro ou transgressão é punido de forma exemplar. 

Porém, diferente do que boa parte daqueles que se colocam como oposição pensa, a entidade em si é apenas um veículo. Basicamente serve para legitimar e servir de porta-voz de partidos políticos e movimentos sociais que colhem os frutos da tal fábrica.

O que realmente importa são os processos que as forças internas colocaram em prática com dois claros objetivos: não perder o poder e continuar formando uma militância engajada. Para garantir isso, o controle não se dá apenas nas diretorias ou nos discursos. Ele começa bem antes, nos processos eleitorais de base, onde se define quem chega aos congressos e, com isso, quem vota no final. É exatamente aí que a máquina opera de forma brutal, no auge de sua eficiência e, definitivamente, com menos transparência.

A vivência dentro do Movimento Estudantil nos mostra o motivo das seguidas desistências de grupos racionais de oposição. Todos que tentam disputar esses espaços de forma legítima, honesta e bem-intencionada se deparam com fraudes, processos viciados e decisões parciais. 

Um breve exemplo que resume bem esse cenário é o que ocorreu nos preparativos para o 60º CONUNE (2025), com a publicação de dezenas de editais eleitorais com datas de inscrição de chapa impossíveis, anteriores à publicização dos mesmos. Outro caso recorrente nas eleições do congresso foi a composição de chapas com alunos que nem sabem do que se trata o processo eleitoral. Recursos e impugnações são julgados, obviamente, pelas próprias forças que comandam a UNE. A situação é frustrante, e leva à desistência em série de qualquer tentativa de oposição séria. 

Desistir é o caminho que parece lógico. Ninguém quer ser a água que baterá na pedra até furar. Porém a desistência significa conceder a representação estudantil para a corrupção, aceitar o cenário de doutrinação e cruzar os braços para a situação da educação brasileira. Com isso, apresento o segundo exercício desse texto: mudar nossa postura perante a UNE. 

A União Nacional dos Estudantes, e suas semelhantes, estão acomodadas. Esse comodismo apenas as mantém e protege. Nossas entidades são tratadas como essenciais pelos seus atuais ocupantes (PCdoB, PT, PSOL, MST), ao mesmo tempo reconhecidas pelo campo tradicional da política e, por fim, ignoradas pelos seus opositores. Hoje em dia é muito fácil presidir a UNE, afinal, quase ninguém está disposto a enfrentá-la de maneira sóbria.

A última experiência opositora fora do campo tradicional do ME ocorreu em 2017, quando a Juventude Tucana, ligada ao PSDB, conquistou algumas cadeiras na comissão organizadora do Congresso da entidade e, no fim das contas, alcançando 148 votos entre os delegados (aproximadamente 3% do total). Anteriormente, o mais recente registro foi no 46º CONUNE, com uma tentativa da juventude do PFL, a Ação da Juventude Liberal, que também não chegou a empossar diretores. 

Desde então, apenas em 2020 vimos surgir uma nova investida, com a UJL (atual Juventude Livre). O movimento ainda está se consolidando, mas, dentre as demais tentativas, é o único que apresenta uma proposta a nível nacional e de longo prazo, e sem dependência de vontades políticas ou partidárias. Mas a direita brasileira, bem como o movimento liberal parecem adotar a mesma postura de sempre: sentar e cruzar os braços. E como falei, fazer isso é ceder a representação dos nossos estudantes e jovens para os grupos e partidos de sempre. 

Precisamos de uma estratégia que se inicia no reconhecimento dessas entidades como legítimas. Trazer a UNE para o debate público é o primeiro passo para iniciar uma cultura de fiscalização, exposição e responsabilização daqueles que utilizam da representação estudantil para fins próprios apenas. 

Também se faz necessário construir uma estrutura de mobilização estudantil de base. A situação no ME não vence apenas por ter viciado o sistema, mas também pela sua capacidade de manter um ecossistema de captação e manutenção do jovem nas forças que dominam a UNE. Esses processos dependem de apresentar para os estudantes uma perspectiva de desenvolvimento, de capacitação (política e técnica), e de pertencimento real. 

A estrutura deles é sustentável, todos enxergam uma possibilidade de se tornarem grandes líderes em seus movimentos e, mais que isso, enxergam oportunidades futuras, fora da trincheira do ME. Quem quer bater de frente, de forma organizada e séria, com esse cenário todo não precisa fazer diferente, o necessário continua sendo investimentos reais. Infraestrutura, apoio e recursos, pois só assim será possível fazer frente à atratividade das juventudes socialistas e comunistas.

Reclamar do sofá de casa sobre doutrinação nas escolas não basta. Atacar virtualmente os “estudantes” em greve nas universidades não é o suficiente. E continuar no caminho de não reconhecer, não investir e não se dedicar definitivamente não mudará nada.

Bom, depois de entender a lógica interna das entidades e mudar a postura perante as mesmas, nos resta apenas uma escolha. Devemos pensar se nossa escolha continuará sendo olhar a situação atual da UNE, abrir o Instagram e reclamar, ou se buscaremos resgatar a verdadeira representação estudantil, com foco na liberdade do estudante, para trabalhar, empreender, debater e estudar.

*Bruno Sperancetta é presidente do movimento estudantil JL (Juventude Livre), estudante de Direito na PUCPR, voluntário SFLB e Líder Livres. Bruno é fellow do Instituto Amplifica.

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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