Por Roberto Ely*
Imagine emprestar dinheiro a uma empresa e, anos depois, aceitar receber apenas R$ 0,30 para cada R$ 1 investido. Foi isso que parte dos credores do Grupo Pão de Açúcar aceitou em sua recuperação extrajudicial: deságio de 70% sobre o capital. Um prejuízo dessa magnitude não deveria ser tratado como simples fatalidade do mercado.
O caso não é isolado, e isso deveria preocupar. Ele se soma às dificuldades de empresas como Braskem e Raízen e ao recorde de recuperações judiciais registrado no fim de 2025. Cada empresa tem seus erros e circunstâncias particulares, sim. Contudo, mesmo com esses problemas específicos, um custo de capital menor daria mais alternativas para corrigir o rumo antes que a pressão financeira se tornasse fatal. Portanto, o problema maior é que o capital no Brasil ficou caro demais.
O Estado tem parte da responsabilidade. Quando o governo perde credibilidade fiscal, o risco de financiar a própria dívida sobe. Para continuar captando recursos, o Tesouro oferece juros cada vez maiores. Se até o investimento mais seguro do país paga taxas elevadas, que escolha resta às empresas, com risco maior, senão oferecer rendimentos ainda mais altos? Praticamente nenhuma.
O Brasil vive essa realidade. O governo gastou mais de R$ 1 trilhão com juros em 2025, número que deveria pesar mais no debate público. Enquanto isso, 50% da dívida pública já está em títulos de curtíssimo prazo no Tesouro Selic, contra 41% há três anos, sinal de que o investidor prefere ficar com o seu dinheiro mais acessível. Nos títulos mais longos, os investidores exigem taxas comparáveis às da recessão de 2016, um cenário que deveria ter ficado no passado.
A irresponsabilidade fiscal não é problema exclusivo do governo. Ela contamina o crédito privado, dificulta o refinanciamento das empresas, reduz investimentos e empurra companhias para reestruturações. Cada calote reforça a percepção de risco e eleva ainda mais os juros exigidos pelos investidores, em um círculo vicioso.
O crescimento do crédito privado nos últimos anos foi uma conquista, ampliando alternativas de financiamento. Mas essa conquista é frágil, pois depende de confiança, que não se decreta. Recuperações judiciais sempre existirão, e isso é normal. O que deveria funcionar como alarme é quando perdas expressivas deixam de ser exceção.
A confiança no crédito leva anos para ser construída e pode ser abalada em poucos meses. Existem empresas competentes que prosperam mesmo em ambientes hostis, adaptando-se e superando as dificuldades impostas. Mas isso não é motivo de alívio. Quanto mais Brasília adiar o ajuste fiscal, mais empresas bem geridas gastarão energia e recursos só para compensar um custo de capital inflado por fatores fora de seu controle, e aquelas com menor margem de erro pagarão um preço desproporcional por decisões que, em outro ambiente, seriam sustentáveis ou reversíveis.
*Roberto Ely é consultor de investimentos e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).


