Em defesa dos isentões - Priscila Chammas - Boletim da Liberdade
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Em defesa dos isentões

10.06.2019 07:51

“Isentão” foi um termo disseminado originalmente por Rodrigo da Silva (Spotniks), em 2016, para designar o sujeito que se dizia publicamente isento, mas tinha evidente comprometimento com um lado. Era o “não sou petista, mas”, seguido de alguma defesa de Lula/ Dilma/ a quadrilha do PT.

Três anos depois, o “isentão” já foi completamente subvertido pelos extremistas, passando a ter um significado diferente: é o jeito pejorativo de se referir a uma pessoa que mostra algum nível de ponderação antes de opinar sobre um fato, especialmente quando o fato inclui um ídolo do anti-isentão. Se você não defende apaixonadamente um lado, independente do que ele faça, seja bem vindo ao time dos isentões.

Pois bem, já que o isentão original perdeu o sentido, vou sair em defesa dos neo-isentões.

São os isentões que eu procuro quando tenho dúvida e preciso formar opinião sobre algum tema. Ora, se eu já sei que opinião vou encontrar nos textos/ vídeos do lado A e do lado B, só vou procurá-los se precisar de ajuda para elaborar uma narrativa para defender A ou B. Eles não formam, mas apenas reforçam opiniões. Não são as pessoas que eu já sei que posição vão assumir, independente do que aconteça, que vão me ajudar a analisar criticamente um tema.

Três anos depois, o “isentão” já foi completamente subvertido pelos extremistas, passando a ter um significado diferente: é o jeito pejorativo de se referir a uma pessoa que mostra algum nível de ponderação antes de opinar sobre um fato, especialmente quando o fato inclui um ídolo do anti-isentão. Se você não defende apaixonadamente um lado, independente do que ele faça, seja bem vindo ao time dos isentões.

São os isentões que, apesar de não serem muito populares em época nenhuma, sobrevivem ao passar dos anos. Quem só faz torcida atrás do teclado está condenado a cair no descrédito assim que a maré mudar – e virar um Brasil 247 da vida, que nem os esquerdistas usam mais como fonte.

Os isentões são capazes de suportar centenas de comentários ad hominem, xingamentos e ataques despropositados. Mas se tem algo que fere de morte essa nova concepção de isentão é receber alguma crítica com fundamento. Mesmo que ela venha no meio de mil elogios, o isentão vai estudar, pesquisar e quebrar a cabeça, até conseguir responder àquilo à altura. Não conseguindo, pode até fazer algo considerado crime inafiançável para os anti-isentões: mudar de opinião.

O isentão sabe que seria mais fácil assumir um lado e defendê-lo diante de um público já convertido. Isso dá cliques, dá likes, dá compartilhamentos e faz com que qualquer crítica se perca em meio às defesas apaixonadas de seus seguidores. Mas ele não busca o caminho mais fácil, busca o que lhe parece mais correto. O isentão não quer torcida. Quer credibilidade. Não quer aplausos. Quer dar sua colaboração para tornar o mundo mais inteligente. Em sua lógica, convencer alguém a mudar de opinião vale mais do que mil curtidas de já convertidos.

Não se trata exatamente de imparcialidade. Todo mundo tem suas preferências, e o isentão também tem. Mas não é todo mundo que consegue se distanciar o suficiente para enxergar as incongruências mesmo do seu lado da trincheira. Só o isentão consegue. Num mundo onde decisões importantes são tomadas no afã da emoção, o isentão é aquele ser estranho, que prefere a razão. O isentão é o indivíduo que recusa o pensamento em bloco. É o que leva mais a sério aquele lance de ser a menor minoria.

O isentão vive no mundo real, onde há pessoas de opiniões diversas. Ele não exclui ou tapa os ouvidos para os argumentos contrários. Não foge para a sua bolha ao primeiro sinal do contraditório. Ao contrário, ele os escuta/lê, joga fora o que não presta, reflete sobre os outros e os utiliza para aperfeiçoar seus próprios argumentos. E isso o faz ficar cada vez melhor.

São pessoas que pensam por si próprias, ponderam, opinam com embasamento e não com torcida. Os isentões de agora incluem o próprio Rodrigo, criador do termo. Aliás, incluem tanta gente boa que virou elogio ser chamado de isentão. Diferente do isentão original, o Brasil precisa de mais neo-isentões.