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A entropia que drena a inovação brasileira

Inovação

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Por Jeferson Scheibler*

Andar pelos corredores de uma universidade pública brasileira hoje revela um contraste gritante. De um lado, laboratórios com potencial para liderar revoluções tecnológicas; do outro, murais saturados de panfletos com promessas políticas de meio século atrás. Esse ambiente, onde a disputa ideológica muitas vezes sufoca a inovação, drena a energia de talentos promissores. O abismo entre o que poderíamos criar e o que somos forçados a debater é um dos maiores gargalos da nossa geração.

Os números confirmam essa percepção. O Brasil registrou na última década uma queda consistente na produção de patentes por pesquisador em comparação com outras economias emergentes. Enquanto a Coreia do Sul deposita cerca de 16 pedidos de patente por bilhão de dólares de PIB, o Brasil deposita menos de 4, segundo a OMPI. O problema não é a falta de capacidade técnica, mas a ausência de um modelo que direcione esse potencial para a criação de valor.

Vivendo o dia a dia do empreendedorismo e da precisão técnica, enxergo a universidade como a infraestrutura de ponta de uma nação. Temos excelência: a USP está entre as 200 melhores do mundo no ranking QS 2024, e a Unicamp lidera em inovação na América Latina. A falha não está na infraestrutura, mas na cultura institucional que penaliza quem pensa diferente e, frequentemente, confunde militância com pensamento crítico.

Essa captura política funciona como um dreno de recursos. Ela consome orçamento, tempo de professores e energia de estudantes para reproduzir disputas que não entregam soluções práticas para a sociedade que financia o sistema. O mercado, em contraste, avalia ideias pelos resultados concretos e pela eficiência que produzem. A universidade deveria preparar os alunos para essa realidade, e não apenas para o alinhamento político.

O sintoma mais grave desse cenário é a evasão de talentos. O país perde continuamente pesquisadores para a América do Norte, Europa e Ásia. Dados do CNPq indicam que o número de brasileiros com doutorado atuando no exterior cresceu mais de 40% na última década. Eles não estão fugindo da ciência, mas buscando ambientes onde a liberdade intelectual e a inovação não sejam tratadas como ameaças.

Inovar exige desafiar o padrão estabelecido, algo cada vez mais difícil dentro das federais de hoje. O medo de divergir paralisa a criatividade. Para que o Brasil pare de desperdiçar seus melhores cérebros, precisamos ir além das reclamações e reestruturar o modelo atual de forma prática.

Isso exige três movimentos concretos. Primeiro, vincular o financiamento público de pesquisa a métricas de resultado, como patentes, startups e empregabilidade, um modelo já validado em países como Finlândia e Israel. Segundo, criar nas universidades núcleos de inovação com autonomia administrativa, blindados de disputas políticas e conectados diretamente ao ecossistema nacional de venture capital. Terceiro, e mais estrutural, reformar as avaliações docentes. A produção tecnológica e o impacto econômico devem pesar tanto quanto a publicação bibliográfica. Um professor que transforma sua pesquisa em uma startup e emprega dezenas de pessoas entrega um retorno social inquestionável para o país, por mais que velhos dogmas acadêmicos ainda insistam em demonizar o empreendedorismo como um ‘pecado capitalista’.

Ocupar esses espaços institucionais não se trata de ativismo político de oposição, mas de restaurar a prestação de contas ao contribuinte. Lideranças focadas em inovação precisam integrar conselhos universitários e comissões de avaliação para mudar essa cultura por dentro. Reclamar à distância já não resolve o problema. O Brasil não precisa de mais manifestos; precisa de profissionais dispostos a colocar a mão na massa e transformar essas instituições na prática.

*Jeferson Scheibler é acadêmico de engenharia de software, embaixador da ICSC e Local Lead do NASA Space Apps.

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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