Por Yuri Quadros*
Nesta quinta, o ministro Gilmar Mendes, dando continuidade à sua cruzada contra o ex-governador Romeu Zema, decidiu atacá-lo da forma mais baixa possível: ficou sentido com a realidade e a podridão de seus atos no STF sendo expostos, e respondeu dizendo que não entende o dialeto em que Zema se comunica.
O nosso sapo cururu da República, com tal fala tosca, mostra duas coisas: está velho e com problema de audição tão severo que não consegue mais entender o português; e está tão distante do povo de quem seu poder emana que, numa vivência egocêntrica, esquece que está de fato ofendendo quase 10% da população brasileira — gente que vem do interior de Minas, que trabalha, produz e paga os impostos que financiam o estilo de vida do ministro.
Mas essa postura, vinda de um dos nossos honrados e ilibados ministros do Supremo, é a mais esperada e correta — pois quem somos nós, mero povo, meros plebeus, diante de tamanha erudição dos togados? Cabe a eles, homens tão honrados, nos educar sobre ética e sobre a norma culta. Como pode Zema, um explorador do interior, atrever-se a desafiar pessoas de tamanha formação?
Afinal, estamos falando do ministro cujo ex-sócio no Instituto Brasiliense de Direito Público o acusou formalmente de desfalque e sonegação fiscal; do mesmo ministro que revogou repetidamente prisões de investigados na Lava Jato com vínculos sociais e familiares conhecidos, incluindo um empresário de quem é padrinho de casamento. Mas é um homem tão honrado que certamente não nos cabe questionar.
Já nos é óbvio: Gilmar Mendes se vê como um deus. Sim, como um deus — já que nem como rei ou imperador parece mais suficiente, pois não consigo imaginar Dom Pedro II agindo de tal forma. Cada dia que passa nesta republiqueta é mais claro o escárnio: nossos políticos do estamento — porque dizer que aqueles do STF não são políticos é chamar-nos de imbecis — se veem sentados num trono sustentado nos lombos daqueles que falam “uma língua do Timor-Leste”. Mas são homens tão honrados que certamente sabem o que é melhor para nós.
Lembro-me do quão divertido era, junto aos meus irmãos, escutar o sotaque e as histórias de minha mãe e minha avó de sua terra natal, Minas Gerais. Cresci na Bahia, mas em casa sempre se falou “trem” para qualquer coisa — herança linguística de uma família que é mistura de Bahia com Minas. Minha mãe e minha avó, com os anos, foram perdendo o sotaque; mas bastava cruzar a divisa para Minas e ele voltava inteiro, como se a terra chamasse de volta o que é seu. A brincadeira era certa a cada viagem. Vinte anos depois, adotei Minas como o meu estado — terra de minha avó, terra da liberdade, terra de Tiradentes e dos primeiros sonhos liberais deste país. Como é bela a diversidade cultural e linguística deste estado e de todo o Brasil. Rogo ao senhor ministro, tão honrado e ilibado, que tire umas férias permanentes para viajar pelo interior, ver a beleza do povo e de seu sotaque, e enfim aprender um pouco sobre o povo cuja Constituição ele jurou defender.
*Yuri Quadros é diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.


