3 situações em que o SUS me traumatizou – Colunas – Boletim da Liberdade

3 situações em que o SUS me traumatizou

25.09.2021 10:17

Fale a verdade.

Você também associa posicionamento político à classe social. O arquétipo do liberal é carregado de falácias, levando a crer que a maioria de nós ostenta uma vida minimamente confortável. No meu caso, a orientação política foi forjada após uma série de acontecimentos tragicômicos que envolvem tudo menos conforto. Trago hoje três situações em que o SUS colaborou para que uma nova liberal surgisse.

1 – Quase fiquei sem caminhar aos 5 anos

O apelo emocional começou cedo neste texto. Aos cinco anos, minha mãe notou que eu tinha dificuldade em estender uma das pernas, motivando uma visita ao ortopedista do plano de saúde.

Descobrimos que eu havia nascido com um defeitinho de fábrica: uma perna mais curta que a outra, resultado do crescimento anormal do menisco (algo que acomete adultos a partir dos 25 anos).



Em resumo, poderia ficar sem caminhar se não houvesse uma intervenção cirúrgica rápida. Devido a empecilhos contratuais, o plano não cobria a cirurgia e fomos parar no maravilhoso SUS. Aí começou a saga que até hoje me faz sentir ânsias de vômito.

Foram tantas as manhãs frequentando ambientes lotados de pessoas doentes, urrando de dor, e sem o devido atendimento que até hoje tenho crises de ansiedade ao frequentar hospitais.

Minha mãe tentou de tudo, mas acionar a justiça no Brasil pode ser uma das coisas mais burras a se fazer quando temos pressa. A sorte foi que o problema era tão raro a ponto de um médico ter interesse em estudar o caso com sua equipe de residentes de uma universidade privada.

Quatro anos após a primeira cirurgia recebemos o telefonema para agendar uma avaliação pelo SUS, pois a minha vez na fila havia chegado. É de rir, não?

Obs. Aos 6 anos tive o mesmo problema, porém no outro joelho.

2 – Minha tia perdeu a visão

Se você quiser ser tratado com um animal de experimentos, tente dizer a um residente do SUS que está perdendo a visão. Ele irá examinar superficialmente o seu olho e tocar apenas o necessário, afinal, não se toca em pobre. “Volte em seis meses para revisão. Precisamos esperar o momento certo para a cirurgia” era o que dizia o professor do residente ao ser questionado.

Sem a devida investigação, um dia não houve mais luz ou formação de imagens. Com a morte das células do nervo óptico, a alegria de viver sumiu.

3 – Novo erro médico, com possível amputação de um dedo

Enfim, chegamos ao mais recente episódio (ainda em andamento). Uma unha encravada parece algo simples de se resolver, não é? Não. O atendimento gratuito e de qualidade pode ignorar que sua tia é diabética e resolver fazer uma cantoplastia sem anestesia no pé dela. Afinal, o que somos se não os ratos de laboratório dos aprendizes?

O resultado? Um dedo necrosado e a tortura psicológica de esperar que alguém saiba o que fazer; dias e noites ouvindo uma pessoa amada chorar se perguntando o que fez para merecer tudo isso.

Certo dia, um querido conhecido me falou que privatizar é um atestado de incompetência da gestão. Pois bem: quem precisa de soluções rápidas (que funcionem) pouco se importa com a reputação da gestão governamental. Não vou propor formas de melhorar o sistema atual ou trazer alternativas. Hoje vim desabafar; externalizar a indignação que chegou ao limite do racional. Torço para que esse relato baseie o posicionamento de quem o lê, seja pobre ou rico.

Foto: Reprodução/Editoria de Arte