Revoada tucana: como o PSDB rachou e pode repetir o filme de 2018 – Colunas – Boletim da Liberdade

Revoada tucana: como o PSDB rachou e pode repetir o filme de 2018

30.06.2021 03:20

O PSDB, um dos partidos que deseja se apresentar como uma espécie de “terceira via”, está em vias de realizar suas prévias para a escolha de seu presidenciável para 2022. Mas entra neste processo de debates internos com fissuras cada vez maiores que vêm sendo abertas desde 2017 e fazendo com que a legenda tucana esteja em um processo de crise quase que permanente.

Desde a sua fundação em 1988, a sigla tem muito das suas decisões influenciadas pelo diretório de São Paulo, das diretrizes internas até a escolha dos presidenciáveis: em 1989, o paulista Mário Covas foi o candidato tucano; em 1994 e 1998, embora fosse na primeira eleição o candidato apoiado pelo Planalto e na segunda concorresse a reeleição, Fernando Henrique Cardoso era oriundo de São Paulo, escolhendo para sua sucessão em 2002 outro paulista, José Serra; em 2006 e 2010, os Governadores de São Paulo Geraldo Alckmin e José Serra foram os presidenciáveis.

A eleição de 2014 foi a única onde um não-paulista foi o presidenciável do PSDB: o ex-governador de Minas Gerais e então senador Aécio Neves. O bom desempenho de Neves acabou sendo um divisor de águas que acaba sendo um dos principais combustíveis da crise tucana.



Embora Aécio tenha obtido em 2014 mais de 48 milhões de votos, denúncias de corrupção ligando seu nome aos escândalos da JBS/Friboi e o surgimento de nomes viáveis no espectro de direita como Jair Bolsonaro e João Amoêdo reduziram o eleitorado do PSDB, que votava na legenda por ser a opção mais à direita que existia em uma disputa contra o Partido dos Trabalhadores.

O calvário atravessado por Aécio Neves, candidato natural do PSDB em 2018 à Presidência, fez com que surgissem dois grupos em 2017: os chamados “cabeças brancas”, ligados a nomes antigos do tucanato como Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aloysio Nunes Ferreira; e os “cabeça pretas”, ligados a parlamentares como Daniel Coelho, Pedro Cunha Lima, Mariana Carvalho e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que acabou assumindo de maneira interina a legenda quando Aécio afastou-se da presidência do partido.

Os “cabeças brancas” conseguiram impor Geraldo Alckmin como Presidente do PSDB, gerando desfiliações no grupo dos “cabeça pretas” como Daniel Coelho que rumou ao PPS (atual Cidadania) e de Elena Landau, economista que participou da equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso que passou a integrar o movimento de renovação política Livres. Este processo de fissura interna fez com que Alckmin, mesmo tendo o comando do partido, o maior tempo de televisão e a maior quantidade de alianças partidárias obtivesse o pior desempenho eleitoral da história do PSDB em uma eleição presidencial com 4,76% dos votos.

Como na política não existe vácuo, João Dória, recém-eleito governador de São Paulo forçando em sua campanha um “BolsoDória” em detrimento ao seu padrinho político Geraldo Alckmin, tomou conta do partido com a então oposição dos “cabeça brancas”, sendo o fiador da campanha do ex-deputado federal pernambucano Bruno Araújo rumo à presidência do partido.

Por outro lado, Aécio Neves conseguiu manter sua influência nos bastidores do tucanato, mesmo estando desgastado politicamente. Em 2018, foi praticamente obrigado a concorrer ao mandato de deputado federal para conservar algum mandato após seu derretimento como liderança nacional.

Dória escolheu Aécio como inimigo interno, buscando a todo custo expulsar o deputado federal e tirar a sua influência interna. Um exemplo foi no início da 56º Legislatura, quando Dória apoiava Beto Pereira (PSDB-MS) como líder da bancada, enquanto Neves apoiava Celso Sabino (PSDB-PA) para o posto. Ao fim, os deputados acharam um nome de consenso que agradava aos dois grupos: Carlos Sampaio (PSDB-SP). O governador paulista tomava cada vez mais conta do partido e dos diretórios estaduais, indicando aliados como no Rio de Janeiro, em que influenciou a nomeação de Paulo Marinho como presidente estadual.

Mas o processo de oposição cega e sistemática de Dória ao Governo Federal, combinado com as suas interferências na bancada do PSDB na Câmara acabaram fortalecendo o grupo do deputado mineiro. Enquanto Dória era um dos fiadores da eleição de Baleia Rossi (MDB-SP) à presidência da Câmara, Aécio levou seu grupo a apoiar o candidato apoiado pelo Palácio do Planalto, Arthur Lira (PP-AL).



João Dória, embora governador do maior estado do país, assiste seu grupo se esvaziar no PSDB após a eleição na Câmara: Bruno Araújo, seu aliado de outrora não garantiu a legenda para 2022 para Dória, forçando o partido a ter eleições prévias e ainda trocou presidências de diretórios estaduais, trocando Paulo Marinho pelo deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) na presidência do diretório do estado do Rio de Janeiro, além de Aécio Neves emplacar o novo líder da bancada na Câmara, Deputado Rodrigo de Castro (PSDB-MG).

Além disso, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, vem adotando uma postura cada vez próxima do PT, o que desagrada o partido internamente e deslegitima qualquer candidatura tucana como algo diferente do petismo.

O PSDB entra em seu processo de eleições prévias ainda mais dividido: Dória terá que enfrentar o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, apoiado pelo grupo de Aécio Neves; além do senador cearense Tasso Jereissati e do ex-prefeito de Manaus, Arthur Neto. Há ainda o fato de que foi definido que os votos dos mandatários eleitos pelo PSDB terão mais peso que o voto dos filiados comuns, o que beneficia Neves e Leite e impõe uma derrota para o PSDB paulista, que deseja emplacar o mandatário paulista como seu presidenciável.

Leite já saiu na frente em busca de apoiadores, começando sua campanha no Rio de Janeiro se reunindo com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), nome próximo de Lula e do PT no estado, mas que foi eleito com apoio do PSDB na eleição de 2020 e com Luciano Huck, apresentador de TV que financia o movimento de renovação política RenovaBR.

A divisão interna no PSDB, somada ao desejo de poder entre João Dória e Aécio Neves e a presença de candidatos liberais e conservadores com viabilidade eleitoral poderão levar a legenda para o mesmo caminho de 2018, onde candidatos tucanos para Governador, Senador, Deputado Federal e Estadual praticamente esqueceram que o partido tinha candidato à presidência e colaboraram com o desastre da campanha de Alckmin e Ana Amélia Lemos.

No Brasil atual, enquanto existir uma esquerda marxista organizada e com viabilidade eleitoral, uma tentativa de realizar uma política sociaL-democrata nos moldes europeus já nasce morta.

 

Fotos: Editoria de Arte e Pablo Valadares/Câmara dos Deputados