O Rio de Janeiro como espelho do Brasil - Jefferson Viana | Boletim da Liberdade

O Rio de Janeiro como espelho do Brasil

16.06.2021 10:55

O historiador André Nunes de Azevedo em seu texto “A Capitalidade do Rio de Janeiro: Um exercício de reflexão histórica”, publicado pela EdUerj em 2002 aponta para o censo de capitalidade do Rio de Janeiro, apontando que pelo fato da cidade do Rio de Janeiro ter sido capital do Brasil entre 1822 e 1960, muito do que acontece em terras fluminenses acaba por ser tendência no restante do território nacional. O então Presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, durante a assinatura dos termos do Regime de Recuperação Fiscal em 2017 entre o estado e a União seguiu pela mesma linha de pensamento, apontando que “o estado do Rio de Janeiro é o espelho do Brasil”.

Ainda que se contestem os personagens, é um fato inconteste que o estado do Rio de Janeiro passou a ganhar força política no cenário nacional desde 2015 com a eleição do então Deputado Federal Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara dos Deputados. Com a cassação de Cunha, outro Deputado carioca assumiu a Presidência da Câmara Baixa de maneira interina em 2016 e posteriormente ocupou de maneira permanente a presidência da Câmara entre 2017 e 2021, quando Arthur Lira (PP-AL), candidato apoiado pelo Palácio do Planalto venceu o candidato apoiado por Maia, Baleia Rossi (MDB-SP).

Até mesmo a eleição do Presidente Jair Bolsonaro em 2018 pode ser um reflexo da força política do estado do Rio de Janeiro, visto que Bolsonaro foi Deputado pelo estado entre 1991 e 2018 e o resultado alcançado pelo Militar da reserva no estado foi essencial para sua eleição, visto que desde as eleições de 2002 o Partido dos Trabalhadores (PT) sempre venceu os pleitos eleitorais presidenciais no estado, mesmo que a força política da legenda se resuma em poucas cidades fluminenses como Niterói e Maricá e o fato do PSDB, partido que foi ao Segundo Turno nacional contra o PT entre 2002 e 2014 não ter grande força eleitoral no estado desde 1994, quando o tucanato elegeu Marcello Alencar ao Governo do Estado e Arthur da Távola ao Senado, em uma espécie de “Onda FHC”.

O grande brilho do PT no Rio de Janeiro foi em 2010, quando participou da coligação do candidato à reeleição Sérgio Cabral (PMDB, hoje MDB), levando Lindberg Farias a ser o eleito para o Senado Federal. Com exceção de 2010, o PT sempre se resumiu no Rio de Janeiro a ser um partido de média expressão no estado e só conseguiu garantir vitórias à nível nacional no estado aliando-se com os caciques políticos do Rio de Janeiro, como Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Jorge Picciani e Eduardo Paes.

Atualmente, assistimos o Rio de Janeiro ditando tendências que poderão ser assistidas no cenário nacional no pleito de 2022; Cláudio Castro, Vice-Governador eleito na chapa do Governador cassado Wilson Witzel assumiu de maneira definitiva o Governo estadual e trocou o PSC pelo PL, partido que provavelmente irá compor a chapa da reeleição de Jair Bolsonaro, em vias de se filiar ao Patriota após deixar o PSL no fim de 2019. Diferente do seu antecessor, Castro mantém uma relação cordial com o Planalto e ao que tudo indica, será o candidato apoiado pelo Governo Federal no estado do Rio de Janeiro.

Também assistimos movimentações políticas que podem ter impactos nacionais em outras legendas, mais precisamente no campo de esquerda. Eduardo Paes, Prefeito do Rio de Janeiro, embora não seja um crítico público do Governo Federal vem atuando politicamente com diversos oposicionistas do Planalto. Ao tomar posse como Prefeito do Rio no início do ano, nomeou membros do movimento de renovação política RenovaBR no seu secretariado, como Marcelo Calero, Chicão Bulhões, Renan Ferreirinha e Brenno Carnevale. Também atuou nos bastidores no início do ano na eleição da Câmara dos Deputados, ao realizar reunião com Deputados Federais em busca de amealhar votos para o candidato apoiado pelo seu aliado político Rodrigo Maia, Deputado Baleia Rossi e devolver Pedro Paulo Carvalho (DEM-RJ) e Marcelo Calero (Cidadania-RJ) para o Congresso visando retirar os votos de Marcos Soares (DEM-RJ) e Otávio Leite (PSDB-RJ), já alinhados com Arthur Lira. Tal episódio colocou um sinal de distância entre Paes e Bolsonaro a ponto de o Prefeito carioca delegar a seu Vice Nilton Caldeira (PL) que pudesses estabelecer uma linha de diálogo com Brasília.

Todavia, Paes vem trilhando um caminho político cada vez mais próximo da esquerda no estado. Com o recente rompimento de Rodrigo Maia com o Presidente nacional do DEM ACM Neto, que culminou com a iminente expulsão de Maia que deverá ser consumada nos próximos dias, Paes tratou de negociar a ida em bloco para o PSD com Gilberto Kassab, ex-Prefeito de São Paulo e Presidente nacional da legenda. Além de diversos aliados políticos, Paes também levou o Presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Felipe Santa Cruz para o PSD. Santa Cruz, alinhado historicamente com pautas de esquerda e que já demonstrou sua oposição à Bolsonaro em público é o sonho de consumo de Eduardo Paes para concorrer ao Palácio Guanabara em 2022 e sonha com o apoio do PT e do ex-Presidente Lula para viabilizar seu nome no estado, porém não disputa sozinho por esse apoio.

O Deputado Federal Marcelo Freixo, nome histórico do PSOL decidiu realizar um movimento visando limpar sua imagem de radical de esquerda frente à opinião pública filiando-se ao PSB, partido de centro-esquerda que deverá caminhar com o projeto eleitoral que o PT apresentará em 2022. Na live onde Freixo anuncia a sua desfiliação do PSOL, o próprio parlamentar anunciou que já está em conversas com o PT, com o PV, com o PCdoB e com a REDE para compor uma possível coligação.

Este movimento visando o próprio crescimento político tomado por Freixo poderá condenar o PSOL a não atingir a cláusula de desempenho eleitoral visto que o PSOL dependia muito das votações de Marcelo Freixo para atingir os 2% dos votos nacionais e 2% dos votos em nove estados para ter direito a participar do horário eleitoral em rádio e TV e acessar os recursos do fundo partidário, além de permitir que os parlamentares eleitos pelo PSOL possam trocar de partido sem necessidade de respeitar a fidelidade partidária. Nas eleições municipais de 2020, o PSOL atingiu 2,18% dos votos nacionais, ficando em uma zona de risco. Partidos tradicionais como PV, PCdoB, Solidariedade, Avante e PROS não teriam atingido a cláusula de desempenho com os votos do ano passado.

O PDT, partido com tradição eleitoral no Rio de Janeiro ao que tudo indica lançará o nome do ex-Prefeito de Niterói Rodrigo Neves para gerar palanque para a candidatura presidencial de Ciro Gomes, em moldes parecidos com o que foi realizado em 2018 com a candidatura do então Deputado Estadual Pedro Fernandes. Embora Ciro venha tomando uma linha de “terceira via”, se apresentando como uma esquerda crítica do petismo, Rodrigo Neves mantém proximidade política com o PT; nas eleições do ano passado, Neves realizou uma aliança eleitoral com Washington Quaquá, Vice-Presidente nacional do PT e ex-Prefeito de Maricá visando uma possível viabilidade de sua campanha para 2022.

Embora tenham conseguido vitórias em Niterói, Itaboraí e Cabo Frio, respectivamente com Axel Grael (PDT), Marcelo Delaroli (PL) e José Bonifácio (PDT), duas derrotas foram muito sentidas para o projeto de Neves e Quaquá: as derrotas em São Gonçalo, segunda maior cidade do Rio de Janeiro com Capitão Nelson (Avante, hoje no PL) vencendo Dimas Gadelha (PT) e em Campos dos Goytacazes, maior cidade do interior Norte do estado, com Wladimir Garotinho (PSD) derrotando Caio Vianna (PDT).

A política é volátil e pode mudar suas circunstâncias a qualquer momento. Mas é fato que muito do que iremos assistir nas eleições de 2022 já estamos assistindo pelo ambiente político do estado do Rio de Janeiro. Os partidos de esquerda sabem que sua entrada nos estados do Sul e do Centro-Oeste é muito difícil e entendem que trazer o estado do Rio de Janeiro pode ajudar a desequilibrar a eleição tanto para Bolsonaro, tanto para a opção mais viável de esquerda que se apresentar nas eleições por ser o terceiro colégio eleitoral do país, ficando atrás de São Paulo e Minas Gerais. Precisamos acompanhar os fatos, mas o Rio de Janeiro, ao menos politicamente voltou a ser o centro das atenções.

Foto: Divulgação/Governo do RJ