Affonso e o boneco liberal – Colunas – Boletim da Liberdade
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Affonso e o boneco liberal

10.01.2022 09:48

Hoje serei longo, mas o tema merece. Perdoem-me, portanto, por antecipação. Mas, tentarei ser agradável. Sigamos.

A Folha de São Paulo tem dedicado espaço para que os economistas principais dos candidatos à Presidência da República digam, com a assinatura dos candidatos, o que pensam sobre a economia brasileira. Nelson Marconi falou pelo Ciro Gomes, Henrique Meirelles pelo João Doria, Guido Mantega pelo Lula e chegamos ao professor Affonso Celso Pastore, ventríloquo do boneco Sérgio Moro, ilustrado pelo cartunista Luciano Veronesi.

O Boletim da Liberdade noticiou o fato com destaque para uma frase do economista ventríloquo, que me instigou. “Mundo abandonou mito do “Estado Mínimo” idealizado por Thatcher e Reagan…”. A frase está completa em um parágrafo do texto. Diz lá: “No campo social, tanto quanto no econômico, o mundo já abandonou o mito do “Estado mínimo”, como foi idealizado por Thatcher e Reagan. Ainda existem testemunhos de como isso funcionava, como é o caso dos EUA, que preza a eficiência e a meritocracia, mas tolera a crescente concentração de rendas e riquezas”.

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O artigo todo do professor Affonso Celso Pastore é um amontoado de palavras de efeito retórico usadas em quase todos os programas de governo nas campanhas eleitorais no Brasil, mas sem efeito prático, porque na prática, a teoria e a retórica são outras. Fico, contudo, para comentar aqui, com o trecho dedicado à declaração de falência pelo professor, do modelo Thatcher e Reagan, que ele encaixa no conceito de uma eficiência e de uma meritocracia que concentram rendas e riquezas, que ele resume em algo que andam a chamar de “Estado Mínimo”. Nada tenho contra o que pensa o professor Affonso Celso, mas Sérgio Moro, o boneco do Affonso, se diz um liberal. É verdade que ele ainda não teve oportunidade de provar isso, nem por atos, nem por experiência. Mas, se ele assim se diz, está com o ventríloquo errado.

Comecemos pela identificação de um tal “Estado Mínimo”. Asseguro a vocês, leitores, que todas as vezes que alguém se refere depreciativamente ao Estado como Mínimo, clama por um Estado em permanente situação de obesidade como acontece com o Estado Brasileiro. Entre os candidatos a presidente, já houve um que se refere ao Estado como um ente Necessário e eu comentei o fato um dos artigos recentes publicados aqui. Sigamos.

Margaret Thatcher, filha de comerciantes e casada com um, que, pelo mérito, se fez um executivo de sucesso numa empresa de petróleo, foi, ela mesma, exemplo do que é possível fazer com o mérito e com a eficiência para ter sucesso na vida pessoal, lutando, muitas vezes, contra o Estado, seja ele mínimo, suficiente ou o monstrengo ao qual o professor prestou bons serviços, na qualidade de Presidente do Banco Central, cuidador da moeda e do crédito, num tempo de inflação galopante.

Duas obras andam na primeira fila da minha estante liberal: “A Arte de Governar”, de Thatcher, editado pela Biblioteca do Exército, fato significativo para o tema e “Reagan e Thatcher, uma relação difícil”, de Richard Aldous. Delas me socorro para falar de mérito, Estado dos liberais Reagan e Thatcher.

Sobre os méritos da senhora Thatcher, o povo inglês disse por si mesmo quando lhe conferiu 11 anos consecutivos de mandato como Primeira-Ministra, posto em que ela chegou por mérito e onde ela deixou claro que o Estado deve estar a serviço de todos e não de alguns e muito menos daqueles que vivem do mérito de outros. Richard Aldous registra: “Se tivessem dito que a primeira mulher a exercer o cargo de primeira-ministra seria alguém do nosso meio”, lembra um contemporâneo de Somerville, “Margareth não estaria entre os meus primeiros palpites…”.

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A carreira política de Thatcher até chegar à cadeira de Primeira-Ministra foi, portanto, um reconhecimento dos seus méritos. Sobre o Estado, ouçamos a própria Margareth. Após ela dissertar sobre a queda do muro de Berlim e sobre o colapso da União Soviética, disse: “Sempre haverá líderes políticos e, cada vez mais, grupos de pressão que se dedicam a convencer as pessoas de que não podem realmente conduzir suas próprias vidas e de que o Estado deve fazer isso por elas. Além disso, infeliz, mas inevitavelmente, sempre haverá pessoas que preferem o ócio ao trabalho, a dependência à independência, contentando-se com recompensas modestas, desde que outras não consigam melhor. O perigo sempre existe. Como Friedrich Hayek escreveu em Road to Serfdom: “a luta pela segurança tende a ser mais forte do que o amor à liberdade”. Não deveria ser assim. (A Arte de Governar).

Sobre Reagan, que pelos méritos pessoais caminhou com passos leves e firmes de Hollywood à Casa Branca, perguntem aos americanos, aqueles que fazem da eficiência e do mérito razão da própria sobrevivência, gente comum, gente do povo, gente que viveu o período dele na presidência. Se terá a noção do que ele representou para o povo americano. Ele ainda é o presidente mais venerado na mesma plataforma onde estão poucos outros grandes presidentes do passado mais longe dele.

Reagan assumiu o governo nos EUA depois de Jimmy Carter. E ele mesmo disse como encontrou a casa e os caminhos que adotaria para resolvê-la. Fez isso na TV para o povo americano, logo após a posse, no dia 5 de fevereiro de 1981. O discurso é uma magnífica demonstração de como deve ser a comunicação de um político com o povo, de um presidente com sua Nação. É simples, didático, direto, propositivo.

No trecho onde faz o diagnóstico da herança de Jimmy Carter e dos democratas, Reagan explica: “Nós esquecemos ou ignoramos o fato de que o governo – qualquer governo – tem uma tendência inerente de crescer e nós a tendência de buscar o governo para obter benefícios como se o governo tivesse outra fonte de renda que não nosso próprio dinheiro”. Está aí o tal “campo social”, que os candidatos a presidente e políticos em campanha veneram tanto e, para venerar, precisam culpar a criação de riqueza pelo mérito e pela eficiência pessoal.

Sei lá se Sérgio Moro é um liberal, mas, certamente, Affonso Celso Pastore não é. E isso não é defeito. Acontece que os não liberais, apesar do enorme tempo no comando da economia brasileira e do país como um todo, não conseguiram ainda provar que o modelo que advogam não concentra renda e aumenta a pobreza, até porque o resultado do que têm feito é exatamente este.

Boa semana para todos.