A Conservação dos Significados – Colunas – Boletim da Liberdade

A Conservação dos Significados

14.10.2021 05:24

*Guilherme Benezra

Na obra “1984”, de George Orwell, somos apresentados a uma distopia. Conhecemos a Eurásia, sociedade na qual o governo controla todos os aspectos da sociedade, querendo inclusive controlar os pensamentos de seus cidadãos. Para isso, uma das ferramentas utilizadas seria a Novilíngua. O governo manipularia a língua a fim de controlar o pensamento das pessoas e evitar que pensamentos indesejáveis viessem a surgir. Parece algo completamente longe da nossa realidade, não é?

Em 1787, no momento da publicação da Constituição dos Estados Unidos da América, somos apresentados ao seguinte artigo, como sendo uma prerrogativa do poder federal: To regulate Commerce with foreign Nations, and among the several States, and with the Indian Tribes (Para regular o comércio com as nações estrangerias, e entre os vários estados e as tribos indígenas – tradução livre)



O primeiro pensamento que vem a nossa cabeça é que a regulação está relacionada ao controle do comércio, como no exemplo acima, correto? Só que não foi essa a intenção dos Founding Fathers na escrita desse artigo. Na época da publicação, To regulate estava relacionada a To keep regular, ou seja, a manter normal o fluxo de bens e serviços, sem interferência do governo com legislações, benefícios e taxações. Ao longo do tempo a intelligentsia tratou de lenta e gradualmente alterar o significado dessas palavras, fazendo com que um artigo que claramente restringia uma função do governo lhe desse plenos poderes para fornecer benefícios aos amigos do estado.

A Novilíngua não precisa ser feita pelo Estado de maneira agressiva e coercitiva. Na verdade ela pode ser feita de maneira lenta e gradual, pelo governo e seus aliados, de modos que nem nós lembremos os significados originais das palavras. Roger Scruton, no livro “Conservadorismo”, defende a visão constitucionalista americana conservadora, na qual as palavras devem ser lidas e interpretadas conforme a visão e a época de quem as escreveu.

No exemplo acima, quis mostrar como uma alteração de significado de uma palavra supostamente inofensiva gerou uma ampliação de poderes gigantesca para o Estado. Não faltam exemplos recentes, como a tentativa de uso do gênero neutro nas palavras (“elx”, em vez de “ele” ou “ela”). Isso não é por acaso, há interesses bastante perversos nessa modificação suspostamente inofensiva. Como dizia Jefferson: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

*Guilherme Benezra é associado ao IEE.

Foto: Andrys/Pixabay