Prescrição de uma política saudável – Colunas – Boletim da Liberdade

Prescrição de uma política saudável

12.09.2021 07:59

*Marcus Vinicius Dias

Política e Medicina são atividades humanas que andam, naturalmente, e por essência, lado a lado. A 1ª é a arte de governar; a 2ª a arte de cuidar. A boa Política não é outra coisa que não buscar o bem cuidar coletivo; a boa Medicina, o bem cuidar individualizado. Não por acaso temos e tivemos, no cenário recente e pretérito, diversos médicos que lograram êxito na política: prefeitos e vereadores aos montes; deputados e senadores, especialmente nas comissões de saúde, são figurinhas comuns nos parlamentos estaduais e nas duas casas federais; há chefes de executivo estadual e, inclusive, ex presidenciáveis. Tivemos um ex Vice-Presidente eleito da República médico, Silviano Brandão, que faleceu antes da posse e deu lugar à Afonso Penna…

Mas na união entre Medicina e Política não há quem supere o nosso único Presidente da República “doutor”, Juscelino Kubitscheck. Este mineiro pobre de Diamantina, se forjou gente decente naquelas ladeiras, que lhe fortaleceram as pernas e o espírito, mas também lhe deram o ritmo das serestas e o sorriso indefectível que o transformaram no presidente Bossa Nova.

Formado pela federal de Minas Gerais, o doutor Juscelino foi pioneiro na urologia, especialidade da qual é patrono no país, e trouxe da França e da Alemanha inovações nesta área para o Brasil. Se tornou oficial médico da PM mineira e se preparava para o concurso da Cátedra de Cirurgia da UFMG quando o chamado para vida pública lhe foi feito. Se tornou chefe de gabinete do Governador Benedito Valadares, deixando de lado o jaleco branco e abraçando a Política como missão de vida. Nascia ali o imortal JK!



Sem o apoio dos caciques políticos de Diamantina, mas com o voto de seus empregados, JK inicia sua vida eleitoral pelo antigo Partido Progressista mineiro, na década de 30, e se muda para o Rio de Janeiro como Deputado Federal. Os relatos e documentos da época mostram um JK menos frequentador da capital e mais articulador do partido pelo interior; menos assíduo à tribuna e mais ativo nos bastidores; menos afeito às polêmicas e mais inclinado ao diálogo e ao consenso. Em suma, o protótipo do político mineiro…

Em 1940 é nomeado prefeito de BH e promove uma verdadeira revolução. Interiorano por nascimento, o médico Juscelino se tornou um cosmopolita por profissão e, por essa peculiar junção, transformou a capital dos mineiros em um verdadeiro polo cultural e econômico, além de fazer uma transformação arquitetônica sem precedentes na cidade ao lado do jovem Oscar Niemeyer, o que lhe rendeu o apelido de “prefeito furacão”. Nascia ali o embrião do que mais tarde seria Brasília.

Pelo seu PSD elege-se Federal pela 2ª vez para Assembleia Nacional Constituinte de 1946 e inicia de fato sua trajetória de político de projeção nacional, passando inicialmente pela cadeira mais almejada da política mineira, no Palácio da Liberdade, e, finalmente, depois de muita incerteza, o CRM chega ao Catete em 1955 e o Brasil, enfim, entra no século XX.

Os 50 anos em 5 são conhecidos por todos nós. A síntese deste que, ainda hoje, é tido como um governo de grande crescimento econômico e transformação social pode ser simbolizada por Brasília, uma promessa da Constituição de 1891, que se materializa em 1960. Num momento em que lamentamos os 45 anos do trágico acidente que vitimou o presidente que mais elevou a auto estima nacional, por seu carisma, sua altivez, seu preparo e por suas realizações, vale lembrarmos do mineiro, médico, democrata, presidente da Copa de 1958, da Bossa Nova, da indústria nacional e, sobretudo, da “falta de compromisso com o erro”. Certa feita, outro grande mineiro, o poeta Carlos Drummond de Andrade, se referiu ao seu amigo e extraordinário homem público, também mineiro, Milton Campos como “o homem que todos gostaríamos de ser”. Cometendo tamanha ousadia em parafrasear o itabirano permito-me dizer que JK foi o médico que todos nós gostaríamos de ter, e o homem público que todos os políticos deveriam ser.

*Marcus Vinicius Dias é médico e gestor público.

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.