Por Monica Rosenberg*
A atmosfera eleitoral em São Paulo atingiu um patamar de degradação que subverte a própria lógica da representatividade local. Em vez de debatermos as urgências que afligem o cotidiano do cidadão paulista, como a situação da segurança pública e a necessidade de integridade administrativa, temos assistido ao sequestro de pautas tão urgentes por conflitos geopolíticos do Oriente Médio.
A transformação da questão palestina em tema prioritário das eleições para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal por postulantes a representar o estado de São Paulo não é apenas um desvio de foco; é uma manobra de “estrangeirização” que opera a nulidade do debate democrático. Observamos candidatos que ostentam bandeiras de outras nações com mais orgulho que a própria bandeira do Brasil, como se a kefiah palestina pudesse ser usada tal qual um uniforme de clube.
Substituem assim a busca de soluções concretas por uma sinalização de virtude que ignora as fronteiras da nossa competência estadual. E essa é uma dinâmica não apenas teórica – eu mesma a enfrento diariamente no ambiente das redes sociais, hoje, mais do que nunca, uma frente essencial para as ações de campanha.
O que testemunhamos agora é uma tática deliberada de invasão do espaço digital para invalidar o debate técnico por meio da identidade do interlocutor. Como advogada, falo da fiscalização rigorosa da coisa pública, mas a resposta que recebo é o ódio direcionado, um filtro antidemocrático que tenta cercear minha liberdade de consciência e a minha própria identidade. O simples fato de eu ser judia é utilizado como salvo-conduto para que militantes, sobretudo os de uma esquerda que afirma defender direitos humanos e de minorias, ignorem o conteúdo das minhas proposições.
Essa distorção faz com que o debate racional seja simplesmente substituído por agressões simbólicas. Sai da discussão o combate ao feminicídio no Brasil e em São Paulo, onde esse crime abominável só cresce, para candidatos abordarem o conflito em Gaza. Sim: quando falo de políticas de proteção à mulher brasileira em minhas redes, sou atacada com questionamentos sobre Gaza. Candidatos que se dizem “defensores das mulheres” utilizam o conflito externo para silenciar o debate urgente sobre o feminicídio em São Paulo, ignorando a pauta técnica em favor do ataque ad hominem.
Um ponto que também salta aos olhos nesta campanha é a pretensa defesa de direitos humanos, quando, na verdade, o que se defendem são regimes teocráticos. Observamos o uso da keffiyeh (o lenço palestino) e bandeiras estrangeiras como “distintivos de pertencimento” que buscam excluir o judeu do espaço público. Militantes que clamam por “liberdade” acabam defendendo regimes autoritários que violam direitos de mulheres e minorias, como o Irã e o Afeganistão, enquanto utilizam o termo “antissionismo” para mascarar um antissemitismo latente. E lamento informar, mas antissemitismo é racismo.
Entendo que monitorar a violência política digital é um termômetro da saúde democrática. A cronologia dos ataques que sofri revela uma perda acelerada de barreiras morais, de modo que o ódio deixou de ser um desvio marginal para se tornar uma espécie de ativo algorítmico.
Em 2018, o ódio contra judeus em campanha era esporádico. Os ataques por minha origem judaica eram aleatórios e não encontravam eco ou validação social.
Em 2022, a violência migrou para as mensagens diretas (DMs). O agressor ainda sentia o peso dos tabus e preferia o anonimato do privado.
Este ano, o antissemitismo tornou-se público e até “moralmente aceitável” em certas bolhas. Hoje, um comentário odioso em uma postagem pública recebe dezenas de curtidas e apoio explícito. O preconceito deixou de ser motivo de vergonha para se tornar um “sinal de virtude” dentro de uma turba que acredita estar em uma “guerra moral contra o mal”. Infelizmente, não são poucos os que perderam a vergonha de dizer que o grande mal é Israel.
No cenário atual, especialmente em certas alas da esquerda paulistana, o antissemitismo tornou-se um “pedágio ideológico”. Para pertencer a esses círculos, exige-se a adesão a um pacote de contradições.
O uso de mentiras para fomentar o ódio contra cidadãos brasileiros judeus não é crítica política: é racismo travestido de ideologia.
A tentativa de purgar judeus do espaço político brasileiro não é um fenômeno normal. E eu sinto isso todos os dias nesta campanha. Quando o antissemitismo, que deve ser tratado com o rigor jurídico reservado ao racismo, é tolerado para decidir quem pode ou não participar da vida pública, toda a estrutura democrática entra em colapso. O ódio à comunidade judaica é apenas o sintoma inicial de uma patologia social que acaba por vitimar todas as minorias.
O futuro da política brasileira depende da nossa capacidade de retomar a racionalidade. O ódio pode gerar engajamento digital e a satisfação efêmera de pertencer a uma turba, mas produz um vazio absoluto de soluções para São Paulo.
É fundamental que cidadãos de todas as origens ocupem o espaço político sem pagar “pedágios” de ódio ou abdicar de suas identidades, mas a responsabilidade por esse resgate é coletiva: cabe às lideranças sociais o compromisso com a verdade, combatendo as mentiras que alimentam a intolerância. A democracia não sobrevive onde o debate de ideias é substituído pela celebração do preconceito. Precisamos voltar a discutir os problemas reais do nosso Estado, e, sobretudo, precisamos devolver a política ao campo da racionalidade e do bem comum.
*Monica Rosenberg, advogada pela USP e candidata a deputada estadual pelo PSD, é especialista e atua no combate à corrupção há mais de uma década. É autora do livro “Somos Todos Corruptos?” e cofundadora do Instituto Não Aceito Corrupção. Atualmente, é secretária de governança institucional da OAB-SP.


