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Vida e Morte da Terceira Via

09.06.2021 03:28

A corrida presidencial para 2022 começa a ganhar seus contornos no ambiente político. Além do atual Presidente Jair Bolsonaro, que tudo indica deverá filiar-se ao Patriota após ficar praticamente todo o seu mandato sem filiação partidária após deixar o PSL no fim de 2019, do PT que utiliza a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva como balão de ensaio e do PDT que prepara uma ofensiva com a candidatura de Ciro Gomes, a corrente que se chama de terceira via mostra diversos problemas na busca de um nome viável para a disputa eleitoral.

O grupo formado majoritariamente por figuras ligadas ao PSDB, ao NOVO e aos chamados movimentos de renovação política justificam sua busca por um nome alegando que o Brasil não “poderia ficar entre os excessos do petismo e do bolsonarismo”, buscando um chamado caminho do meio buscando agradar eleitores mais à esquerda e mais à direita ao mesmo tempo. Todavia, a disputa interna e a briga de egos dentro do próprio grupo mostram a dificuldade da viabilização de um nome consensual.

O PSDB, que não vence um pleito presidencial desde 1998 perdeu boa parte de seu eleitorado após o surgimento de candidaturas de direita com viabilidade eleitoral, contrastando com o discurso de centro-esquerda de sua cúpula partidária que realizou a oposição sonhada pelos governos de Lula e Dilma com membros como o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o Senador paulista José Serra. João Dória, Governador de São Paulo buscou viabilizar seu nome como presidenciável se colocando como um opositor intransigente do Governo Federal e abarcando nomes do antigo Governo Michel Temer em sua equipe, como os ex-Ministros Alexandre Baldy, Sérgio Sá Leitão, Henrique Meirelles e Rossieli Soares.

Todavia, mesmo com Dória sendo o fiador político da eleição do ex-Deputado pernambucano Bruno Araújo como Presidente da legenda tucana, o Governador paulista enfrenta resistência dentro do próprio tucanato. FHC, figura histórica da legenda realiza inúmeros acenos ao PT, manchando a imagem do partido perante o eleitorado; o processo de desgaste de Dória se acelerou após o mesmo bater de frente com o Deputado Federal Aécio Neves (PSDB-MG), que embora tenha sua imagem pública arranhada mantém-se como peça importante dos bastidores da política. Na Câmara dos Deputados, Dória tentou interver para trocar o líder da bancada para conseguir ter mais domínio do partido, apoiando a candidatura de Beto Pereira (PSDB-MS). Porém, o grupo de Aécio conseguiu emplacar Rodrigo de Castro (PSDB-MG) como líder da bancada.

Além da disputa na liderança do partido na Câmara, Dória foi derrotado na eleição para a Presidência da Câmara ao ser fiador da candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP), enquanto boa parte da bancada tucana caminhou com Arthur Lira (PP-AL) no processo eleitoral, fazendo com que o PSDB começasse a buscar outras opções para a sua escolha de candidato ao Planalto em 2022. Hoje, além do Chefe do Executivo paulista, o Governador gaúcho Eduardo Leite, o Senador cearense Tasso Jereissati e o ex-Senador amazonense e ex-Prefeito de Manaus Arthur Neto se colocam como opções na disputa pela legenda tucana.

Além de disputas internas no PSDB, o NOVO embora seja uma legenda menor também vem sofrendo com brigas internas no processo de escolha para a candidatura presidencial. O partido, comandado internamente com mão de ferro por seu fundador João Amoêdo vive a sua maior crise desde a sua fundação. Enquanto Amoêdo deseja levar o partido para a oposição ao Governo Federal, a bancada de Deputados Federais e os Chefes de poder Executivo do partido, o Governador de Minas Gerais Romeu Zema e o Prefeito da cidade de Joinville (SC) Adriano Silva mantém uma postura de independência e proximidade do Planalto, o que desagrada Amoêdo, que já foi a público criticar a bancada de parlamentares e também Romeu Zema pela postura adotada.

Recentemente, uma fissura maior tem sido aberta. Amoêdo foi indicado por parte dos diretórios estaduais, comandados por seus aliados políticos para ser o presidenciável novamente, enquanto praticamente todos os parlamentares do NOVO se posicionaram em favor do lançamento da candidatura do Deputado Federal Tiago Mitraud (NOVO-MG) à Presidência. O fundador da legenda inclusive veio à público minimizar a iniciativa dos parlamentares eleitos pelo partido, dizendo que o movimento pró-Mitraud seria um movimento isolado, mostrando que ele próprio não zela por democracia partidária interna, assim como boa parte dos Presidentes de partidos no Brasil.

No afã de se tentar tirar Jair Bolsonaro da Presidência para ver o que acontecerá depois, se colocam as conquistas que o Brasil teve desde 2019 em risco em nome do egocentrismo e pelo desejo de protagonismo a qualquer custo, o que pode ajudar no fim das contas as campanhas do PT e do PDT. Exemplos não faltam, como o da candidatura do Deputado Estadual Arthur do Val pelo Patriota à Prefeitura de São Paulo em 2020, que ajudou a promover um segundo turno entre o já falecido Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) ao focar em ataques sistemáticos a Celso Russomanno (REPUBLICANOS), candidato apoiado pelo Palácio do Planalto em vez de apresentar um projeto de cidade.

Roberto Campos (1917-2001) afirmava que “a chamada ‘Terceira Via’ é incompetência para praticar o capitalismo e covardia para aplicar o socialismo”. Na política posicionamento se faz necessário, pois na tentativa de se agradar a todos não se agrada a ninguém, ou neste caso ao continuar se tentando acenos à esquerda, aumentará a rejeição do eleitorado liberal e conservador. Enquanto existir no Brasil uma esquerda marxista organizada, com forte representação parlamentar, política e midiática, a tentativa de se criar uma terceira via, apelando para a poesia de José Cabral de Melo Neto já nasce morta de maneira sofrida.

Foto: Marcelo Casal Júnior/Agência Brasil