O jornalista e escritor Lucas Berlanza, presidente do Instituto Liberal e fundador do Boletim da Liberdade, foi aceito como membro da Mont Pelerin Society (MPS), a mais antiga e uma das mais seletivas associações internacionais de intelectuais liberais do mundo. O convite formal chegou por carta da própria sociedade, que informou que o Conselho de Diretores aprovou a indicação de seu nome.
Berlanza anunciou a novidade nas redes sociais. “Tenho a enorme honra de anunciar que sou o mais novo brasileiro aceito para integrar esse grupo”, escreveu.
A indicação foi feita por três membros brasileiros da sociedade, ligados ao Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e ao Instituto Liberdade, do Rio Grande do Sul: Ricardo Gomes, André Burger e Henri Chazan. Na publicação, Berlanza agradeceu a eles pela “indicação tripla”, aos mantenedores e conselheiros do Instituto Liberal, “sem o qual eu jamais alcançaria os requisitos necessários”, e à diretoria presidida pela economista americana Deirdre McCloskey, que recomendou a aprovação de seu nome.
“Recebo essa membresia como um convite renovado para seguir trabalhando por manter acesa, dentro de minhas pequeninas possibilidades, a chama cultivada por Hayek e tantos outros gigantes”, afirmou.
A reunião de Indianápolis
A aprovação saiu no calendário previsto pela própria MPS. Segundo as regras publicadas no site da sociedade, as indicações de 2026 seriam decididas pelo Conselho de Diretores durante o Congresso Bienal e Assembleia Geral, e os aprovados seriam convidados a ingressar logo depois do encontro.

A reunião aconteceu entre 11 e 15 de outubro, em Indianápolis, no estado americano de Indiana, organizada pela Liberty Fund. Com o tema “1776: Liberty in Conversation”, o congresso partiu de dois marcos daquele ano, a Declaração de Independência dos Estados Unidos e a publicação de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e coincidiu com os 250 anos da independência americana. Segundo a organização, cerca de 500 palestrantes e pesquisadores participaram de cinco dias de debates sobre liberdade econômica, poder do Estado, nacionalismo, autoritarismo, inteligência artificial e vigilância. O último dia foi reservado à assembleia dos membros.
O próximo encontro já tem data e tem sotaque latino-americano: a reunião regional de 2027 será em Buenos Aires, de 23 a 26 de maio, com o tema “Um novo impulso liberal? Lições da América Latina para o mundo”.
O que é a Mont Pèlerin
A sociedade nasceu em abril de 1947, quando o economista austríaco Friedrich Hayek reuniu cerca de três dezenas de economistas, historiadores e filósofos no vilarejo suíço de Mont Pèlerin, perto de Vevey, às margens do Lago Genebra. A Europa saía da Segunda Guerra, o planejamento estatal estava em alta, e o objetivo era discutir o futuro do liberalismo clássico diante do avanço do coletivismo. Entre os presentes estavam Ludwig von Mises, Milton Friedman, Karl Popper, Frank Knight, George Stigler e Wilhelm Röpke. O grupo chegou a cogitar o nome Acton-Tocqueville, mas acabou batizado com o nome do lugar onde se reuniu pela primeira vez.
Desde então, a MPS funciona como um fórum de debate, e não como um instituto de propaganda ou um partido. Não tem sede fixa: realiza uma assembleia geral a cada dois anos e reuniões regionais nos anos intermediários, em diferentes países. Hayek a presidiu até 1961. Depois dele, ocuparam o cargo nomes como Milton Friedman, James Buchanan e Gary Becker. Ao longo da história, nove ganhadores do Nobel de Economia passaram por seus quadros. Em 2027, a sociedade completa 80 anos.
Entrar não é simples. Pelas regras atuais, o candidato precisa ter participado de ao menos duas reuniões como convidado e ter o apoio de pelo menos dois membros, que enviam cartas de recomendação. A indicação passa por um comitê de admissão e, por fim, pelo Conselho de Diretores. Os critérios principais são o compromisso demonstrado com os valores da sociedade e a realização profissional na área de atuação.
Quem é Lucas Berlanza
Carioca, nascido em 1992, Lucas Berlanza Corrêa é formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Começou a escrever para o Instituto Liberal como colunista em 2014 e assumiu a presidência da diretoria executiva da instituição na gestão 2018-2020, cargo que ocupa até hoje. O IL, fundado no Rio em 1983 por Donald Stewart Jr., foi responsável por publicar pela primeira vez no Brasil autores como Mises, Hayek, Bastiat e Ayn Rand.
Berlanza é fundador e ex-editor do Boletim da Liberdade, do qual já não faz parte do quadro, e editou também o site Sentinela Lacerdista, dedicado ao legado de Carlos Lacerda. É membro refundador da Sociedade Tocqueville, sócio honorário do Instituto Libercracia e conselheiro de diversas organizações liberais brasileiras.
Como escritor, é autor, coautor ou organizador de cerca de duas dezenas de livros. Entre eles estão Lacerda: A Virtude da Polêmica (LVM, 2019), Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro, Os Fundadores, sobre o projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil, Introdução ao Liberalismo (Almedina/Edições 70, que organizou), Escravos do Amanhã – As ilusões do progressismo, escrito com o historiador Hiago Rebello, O Papel do Estado Segundo os Diversos Liberalismos (Almedina) e Juscelino: uma crítica ao desenvolvimentismo, em coautoria. Também publicou obras sobre o espiritismo.
Na publicação em que anunciou a admissão, Berlanza lembrou o perfil que a sociedade buscou reunir ao longo de quase oito décadas: economistas, filósofos, historiadores, jornalistas, empresários como Antony Fisher e fundadores de think tanks como Leonard Read.
Os brasileiros da sociedade
A Mont Pèlerin não divulga publicamente a lista de membros, mas registros e declarações públicas permitem identificar parte dos brasileiros que passaram ou passam por ela. Entre os pioneiros estão o engenheiro e empresário Henry Maksoud, fundador do hotel Maksoud Plaza e admitido em 1978; o diplomata José Osvaldo de Meira Penna, membro desde 1994; e o empresário Paulo Ayres Filho, membro desde 1970.
Um diretório da sociedade de 2013 lista ainda o economista José Luiz Carvalho (2000), o advogado Cândido Prunes (2004), o cientista político Márcio Coimbra (2007), Henri Chazan e Margaret Tse, ambos do Instituto Liberdade (2008), além de Flávia Santinoni Vera e Ricardo Gomes (2012). Ex-vice-prefeito de Porto Alegre, ex-presidente do IEE e da Rede Liberal da América Latina (Relial), Gomes é hoje CEO do Instituto Millenium.
Em 2019, os professores Vladimir Fernandes Maciel, coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, e Liliane Segura, da mesma universidade, foram admitidos durante o encontro de Dallas. O ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera também se apresenta como membro. Em artigo de 2010, ele contou que havia então apenas oito brasileiros na sociedade, num país de mais de 200 milhões de habitantes.
Com Lucas Berlanza, o Brasil ganha mais uma voz numa sociedade que, desde 1947, se propõe a manter vivo o debate sobre os fundamentos de uma sociedade livre.


