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‘A Teologia da Libertação escolheu o pobre, mas o pobre escolheu a Teologia da Prosperidade’, analisa Yago Martins

Em entrevista ao Boletim, o teólogo protestante defensor da Escola Austríaca de economia analisa, entre outros assuntos, a sua trajetória como adepto dos valores libertários e do movimento protestante brasileiro

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Yago Martins, do Instituto Mises Brasil (Foto: Divulgação/Instituto Mises Brasil)

Religião e economia são temas que podem à primeira vista parecer antagônicos e incompatíveis entre si. O mundo moderno habituou a tratar questões de ordem espiritual como assuntos privados, separados de aspectos práticos e objetivos de ordem terrena. Contudo, esta barreira intransponível entre sagrado e profano, fé e razão, estão mais próximos do que se imagina, podendo iluminar-se mutuamente.

O teólogo, pastor batista e estudioso de Escola Austríaca de Economia, Yago Martins, é uma das principais referências no Brasil que unem os dois campos de estudo de economia e religião. Defensor dos valores libertários na economia e criador do canal do YouTube “Dois Dedos de Teologia”, com mais de 400 mil seguidores na plataforma, Yago Martins é um dos apologistas reformados mais populares no Brasil, apresentando vídeos em uma linguagem simples e acessível a centenas de milhares de pessoas. Em entrevista exclusiva ao Boletim da Liberdade, o pastor, que foi palestrante na VI Conferência de Escola Austríaca,  analisa a sua trajetória como pregador evangélico, o movimento protestante brasileiro, e as relações entre religião e liberdade entre países.

Boletim da Liberdade : Em primeiro lugar, agradeço pela oportunidade de entrevista. Como se deu a sua aproximação com o movimento libertário no Brasil?

Yago Martins: Eu comecei como todo mundo, sem entender absolutamente nada de política. Alguns amigos começaram a me dar alguma pilha para começar a fugir um pouco mais das relações entre esquerda política e teologia nos meios em que vivia. Acontece que existe hoje no Brasil uma inter-relação muito forte entre esquerda política e teologia, e estudando teologia eu vi que precisava me proteger desses aspectos mais políticos. Nisso, eu comecei a estudar um pouco mais de política. Foi quando nesse processo dentro do seminário, comecei a estudar os proto-austríacos, que eram os membros da escolástica tardia, Escola de Salamanca e de Coimbra, que escreviam muito acerca de política de uma perspectiva mais bíblica. Nisso eu comecei a conhecer a Escola Austríaca, que foi para onde descambou os proto-austríacos, e nisso comecei a ler os artigos do Instituto Mises Brasil.


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Isso ocorreu na época em que foi lançada a pós-graduação do IMB. Me inscrevi para fazer a pós, fiz toda a pós e, por eu ser teólogo, eles acharam bom que eu estivesse participando na formação dos alunos, ao desenvolver melhor as ideias dos proto-austríacos nas disciplinas mais históricas sobre formação e evolução histórica da Escola Austríaca de Economia. Então, nisso, comecei a entrar mais no movimento liberal e comecei a fazer parte desta excelente instituição, que é o IMB.

Existe hoje no Brasil uma inter-relação muito forte entre esquerda política e teologia. Estudando teologia, eu vi que precisava me proteger desses aspectos mais políticos. Nisso, eu comecei a estudar um pouco mais de política.

Com a saída do Bruno Garschagen do podcast para assumir o cargo do Ministério da educação, eu fui chamado para ser o novo podcaster do instituto e agora sou um dos especialistas do Instituto Mises Brasil. Eu publiquei alguns artigos na Revista Mises. Publiquei um artigo sobre o conceito de preço justo, onde entro na escolástica tardia e no Antigo e Novo Testamento para discutir o conceito de justiça, e publiquei posteriormente um estudo acerca dos aspectos religiosos dos movimentos revolucionários pós-iluministas.

Foto: Boletim da Liberdade

Boletim da Liberdade: O sociólogo Max Weber publicou a sua célebre obra a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, apontando a ética puritana do trabalho como a grande impulsionadora do desenvolvimento capitalista a partir dos séculos XVI na Inglaterra, Suíça e Estados Unidos. Como você avalia essa relação?

Yago Martins: Uma visão mais favorável ao trabalho provém diretamente da perspectiva do sacerdócio em todos os santos do movimento protestante, e principalmente no movimento reformado posterior. No sentido de que para o movimento católico anterior, a vida contemplativa era superior à vida ativa.

Tomás de Aquino usa exatamente essas palavras na Suma Teológica. A vida do padre, a vida do claustro, a vida do monastério era a vida que era superior e mais valorizada. Com a Reforma Protestante, a vida comum se tornou uma vida que era tão valiosa e valorosa como a vida do clérigo. Nesse sentido, tanto Lutero quanto Calvino incentivavam uma visão da vida comum que fosse mais elevada.

Então, quem trabalha poderia estar servindo a Deus tanto quanto quem pregava na Igreja. E isso também está atrelada a uma visão mais positiva do lucro, do trabalho, produção, e isso acabou levando para os países protestantes uma cultura de prosperidade muito superior. A própria filosofia de trabalho do protestantismo é uma filosofia muito mais positiva do que a filosofia do catolicismo romano.

Agora, Weber não foi muito feliz na interpretação que ele faz dos movimentos puritanos. Ele é meio ignorante da teologia puritana e ele tenta projetar sobre os puritanos certos comportamentos que não parecem condizer com conhecimentos um pouco mais profundos de quem eram os puritanos e de como eles agiam em sociedade. Existem outros autores que desenvolvem isso com muito mais capacidade do que Weber.

Uma visão mais favorável ao trabalho provém diretamente da perspectiva do sacerdócio em todos os santos do movimento protestante, e principalmente no movimento reformado posterior. No sentido de que para o movimento católico anterior, a vida contemplativa era superior à vida ativa.

Boletim da Liberdade: E quais seriam esses autores?

Yago Martins: Tem muito trabalho que é construído de remontar o pensamento puritano. Pegue o Joel Beeke, que é um autor muito famoso, que tem desenvolvido o pensamento sobre os puritanos, e tem construído teologias puritanas, e mostrado muito desse trabalho, e de forma muito mais coerente.

Você pega o André Biéler, quando ele fala de Calvino. O André Bieler, sobre a Política Econômica e Social de Calvino, escreve um calhamaço em que ele apresenta melhor as ideias do que o próprio Weber. Eu iria muito mais pelo caminho de André Bieler e do Joel Beeke do que pelo caminho do Weber.

Boletim da Liberdade: Por que o Brasil apresentou historicamente valores tão hostis ao liberalismo?

Yago Martins: O Bruno Garschagen apresenta isso muito bem no livro dele, Pare de Acreditar no Governo (Record, 2016). Ele mostra que desde as origens do Brasil existe esse ranço profundo com valores liberais. Confesso que não sei explicar bem historicamente, que o Bruno fez muito bem. Mas, psicologicamente, certamente existe uma cultura de recebedor na psique do brasileiro, no sentido de que todo mundo acha que os outros estão em débito. Então o governo me deve, a sociedade me deve, minha família me deve, os amigos me devem, todos estão em dívida com você. E isso é um fenômeno psicológico que eu não sei explicar de onde vem, mas certamente é incentivado por toda essa visão mais socialista da vida, onde é difícil acreditar que ninguém deve nada para a gente.

Não é conveniente acreditar que não somos simplesmente frutos das circunstâncias, mas nós somos os responsáveis pela nossa própria liberdade, pelo nosso próprio crescimento, pelo nosso próprio bem estar, e que a gente não tem como culpar? Digo que nós somos os responsáveis em tomar a vida em nossas próprias mãos e encontrar aquilo que é do nosso interesse. E não ficar desejoso de possuir aquilo que o outro tem que dar para a gente. É uma infantilização, sabe? É infantil. A mãe é obrigada a dar comida na minha boca. O brasileiro precisa amadurecer para abandonar essa visão de recebedor. Nós somos também profundamente coletivistas, e nisso nós acreditamos que o todo vale mais do que a parte, e então a gente pode sacrificar a parte pelo todo.

O brasileiro precisa amadurecer para abandonar essa visão de recebedor. Nós somos também profundamente coletivistas, e nisso nós acreditamos que o todo vale mais do que a parte, e então a gente pode sacrificar a parte pelo todo


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Boletim da Liberdade: A visão teológica e moral tem sido muito menosprezada pela ciência moderna, como um juízo de valor e ideológico, colocando religiões no escanteio. Muitos adeptos da Escola Austríaca, contudo, são além de defensores da economia liberal, grandes apologistas religiosos, conciliando os ensinamentos praxiológicos de Mises à luz da teologia. Há espaço no mundo moderno para o diálogo entre as duas frentes?

Yago Martins: Sempre houve. Por que não vai existir mais? O que aconteceu para que não tivéssemos mais um ambiente plural, onde não pudéssemos mais conversar no espaço público? “Ah, mas a arena pública não é mais um espaço para a religião”, mas foi a religião que inventou o conceito de espaço público. Eusébio de Cesaréia falava que as coisas importantes da sociedade tem de ser discutidas no espaço público da igreja. Na mentalidade deles a igreja era o lugar público. Ele dizia “não me importo com as picuinhas do Castelo”, e que para ele o ambiente político era um ambiente privado. Ou seja, a política era privada e a religião era pública. E as coisas mudaram de um jeito ao longo da secularização do mundo moderno que agora a religião é privada e a política é pública, quando na verdade deve existir um espaço público de conflito de ideias e de cosmovisões que alimentem o pluralismo da sociedade.

Por que o ateísmo é tábula rasa? Por que o materialismo é tábula rasa? Não existe tábula rasa de verdade, ninguém sabe qual é a tábula rasa. Todo mundo tem a sua ideia de tábula rasa. Para mim a tábula rasa é a existência de Deus, e ponto. Não é o ateísmo. Agora, a tábula rasa já não existe consenso de qual ela é. Então as várias interpretações sociais deveriam ser postas à mesa. Eu defendo a partir da minha fé, você defende a partir do seu ateísmo, ou defende a partir de uma visão oriental, ou teoria dos cristais, e junta tudo, as pessoas vão discutindo e vendo os debates que sobrevivem na esfera pública. Agora, excluir da esfera pública um debate por causa de sua origem religiosa é estúpido.

Foi a religião que inventou o conceito de espaço público. Eusébio de Cesaréia falava que as coisas importantes da sociedade tem de ser discutidas no espaço público da igreja. Na mentalidade deles a igreja era o lugar público. Ele dizia “não me importo com as picuinhas do Castelo”, e que para ele o ambiente político era um ambiente privado.

Por exemplo, os quakers foram excluídos do debate sobre tráfico negreiro nos EUA porque os quakers tinham uma perspectiva religiosa. Se você fizesse o mesmo na Europa, não haveria exclusão do tráfico negreiro, porque quem acabou com o tráfico negreiro na Europa foi o William Wilberforce. O Wilberforce foi membro da igreja do John Newton, que foi quem escreveu o hino Amazing Grace. Ou seja, um crente no parlamento que, lutando pelo fim da escravidão porque cria na Bíblia. “Ah não, vamos excluí-lo do debate público porque é crente.” Você está perdendo um bem social, porque as ideias tem que ser postas em debate não importa a sua origem, ou motivação, porque não é a motivação da ideia que importa. É a qualidade daquela ideia para o bem estar público. É isso que tem que ser discutido.

William Wilberforce foi líder do movimento abolicionista do tráfico negreiro (Foto: Foundation for Economic Education)

Boletim da Liberdade: No Brasil, observamos um crescimento de igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais em regiões de periferias, nas últimas décadas. Como você explica este avanço?

Yago Martins: Eu não vou saber explicar, porque já passam por fatores que são impossíveis de se ler. Um católico vai dizer que é por causa do diabo. Um evangélico vai dizer que é sob a ação de Deus. Existem fatores que parecem mais óbvios. Tem a dificuldade de se ter padres, a dificuldade de se criar padres, qualquer pessoa pode abrir uma igreja evangélica, existe a descentralização da igreja evangélica, que permite a facilidade de sua propagação. Mas eu acho que em parte existe o fato que a igreja evangélica conseguiu se integrar à sociedade sem se secularizar.

Enquanto os católicos na sua integração social conseguiram se tornar parte da sociedade basicamente, os evangélicos conseguiram se integrar na sociedade e discutir a cultura sem perder a sua essência de fé. Eu acho que isso acabou gerando hoje um impacto muito mais positivo do crescimento da igreja evangélica. Não sei quanto tempo isso vai durar, o jogo pode virar em breve, mas eu acho que isso é um fator que ajudou muito.


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Boletim da Liberdade: Ao mesmo tempo, nestas mesmas regiões das periferias brasileiras, observamos uma ascensão dos valores liberais e empreendedores, como expresso em recentes estudos e pesquisas. É possível traçar algum paralelo entre o crescimento desses valores com a ascensão evangélica?

Yago Martins: Difícil argumentar e provar isso. Minha opinião pessoal é que talvez haja alguma inter-relação, uma vez que a fé evangélica fala muito a respeito de liberdade individual, responsabilidade privada, e coisas assim. Agora, eu também acredito que liberalismo é coisa de pobre. Quem gosta de socialismo é rico. E que o rico quer que o governo trabalhe para poder mantê-lo na sua riqueza. O pobre é que precisa da possibilidade de ascender socialmente. E o ambiente mais socialista é um ambiente que diminui a possibilidade dessa ascensão social.

Enquanto o ambiente liberal é um ambiente em que as pessoas têm mais meios disponíveis para seguir e realizar os seus interesses e sonhos. Então eu acho que o crescimento das ideias da liberdade nos ambientes mais pobres é justamente porque lá a liberdade vai fazer mais efeito. A Teologia da Libertação escolheu o pobre, mas o pobre escolheu a Teologia da Prosperidade.

Boletim da Liberdade: Recentes declarações de lideranças do PT, como Fernando Haddad, declararam que a esquerda deveria ter foco crescente de atenção no meio evangélico. Muitos líderes conservadores do meio evangélico alertam para a infiltração de ideias marxistas e pautas identitárias dentro das igrejas, expressas pela Teologia da Missão Integral. Como você avalia esta doutrina?

Yago Martins: Hoje, a Teologia da Missão Integral é um braço de apoio do petismo. Um dos maiores nomes da TMI é o Ariovaldo Ramos, que sobe no palanque do PT falando e defendendo o Lula como se fosse uma reencarnação de Jesus Cristo. Infelizmente os ambientes da TMI foram acusados de serem ambientes politizados em uma esfera específica da política. E aqueles que assim denunciavam eram vistos como conspiracionistas, sabe? E com o tempo se tornou muito óbvio que a TMI é nada mais do que uma amálgama entre marxismo e missiologia.

A missiologia latino-americana é nada mais do que esquerdismo missiológico, uma tentativa de aplicar padrões sócio-analíticos de esquerda à leitura da Escritura. E eles usam a mesma metodologia de leitura bíblica e de hermenêutica da Teologia da Libertação, que é uma tentativa de inter-relacionar uma expectativa estatizante à leitura da Escritura, que é nunca aquilo que a gente quer controlar.

Jesus sempre defendeu a liberdade individual, Paulo sempre falou de uma visão humilde com o governo, que ele sempre mostrou a igreja como caridade com os próprios recursos, nunca o Estado se metendo para organizar isso. Você nunca vê Jesus falando de revolução, nunca vê Paulo falando de revolta armada, você nunca vê os esforços políticos da esquerda sendo pregados a a partir do texto bíblico. Você tem que ler o discurso de esquerda a partir do pressuposto bíblico, e não o contrário.

Jesus sempre defendeu a liberdade individual, Paulo sempre falou de uma visão humilde com o governo, que ele sempre mostrou a igreja como caridade com os próprios recursos, nunca o Estado se metendo para organizar isso. Você nunca vê Jesus falando de revolução, nunca vê Paulo falando de revolta armada, você nunca vê os esforços políticos da esquerda sendo pregados a a partir do texto bíblico. Você tem que ler o discurso de esquerda a partir do pressuposto bíblico, e não o contrário.

Boletim da Liberdade: E para finalizar, voltando ao tema de economia, quais são os grandes desafios para a disseminação do pensamento liberal austríaco no país?

Yago Martins: São muitos, e é o que falei em minha palestra. Os desafios são dialogar, e não só fazer monólogos. A gente senta na mesa para esperar a nossa hora de falar, a gente nunca está disposto a ouvir. Então a gente precisa ouvir mais para dar mais capilaridade ao nosso discurso, para poder corrigir os nossos erros, e para poder saber comunicar com mais eficiência. E com mais eficácia, obviamente.

Precisamos descobrir quando a gente não consegue ser eficiente na comunicação, isto é, quando precisamos dizer mil coisas para uma funcionar, a gente percebe que não é eficaz no discurso. Precisamos nos perguntar se, quando gente fala, as pessoas têm dificuldade de compreender o que a gente está dizendo, porque às vezes estamos repetindo as mesmas coisas para ninguém entender. Uma vez que a gente não entendem quem é o nosso ouvinte, nãoo há um reconhecimento de campo. Não há uma escuta atenciosa, não há uma caridade cristã, tá entendendo? Com aquele que quer nos ouvir e que queremos comentar qualquer coisa acerca da política, porque a gente está mais interessado em destruir o adversário do que em aproximar um possível colega de luta política.

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