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Cogitada pelos Bolsonaro, antiga UDN pregava privilégios ao funcionalismo

Partido era marcado por contradições e nele coexistiram "teses liberais e autoritárias, progressistas e conservadoras"; UDN falava em reduzir impostos e, ao mesmo tempo, dar 'vantagens' aos servidores
Reunião da UDN (Foto: Arquivo Histórico)

Reunião da UDN (Foto: Arquivo Histórico)

Não é de hoje que se circula nos bastidores do poder que os filhos parlamentares do presidente Jair Bolsonaro estudam uma alternativa ao PSL. Neste domingo (17), o jornal O Estado de S. Paulo revelou que uma das negociações diz respeito à recriação da antiga UDN (União Democrática Nacional), principal referência partidária à direita e que ficou em vigor entre 1945 e 1965. [1]

Já em processo iniciado para formalização junto ao Tribunal Superior Eleitoral, a opção seria fácil e teria apelo histórico para os filhos do presidente.

O jornal apurou que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) chegou, inclusive, a se reunir com dirigentes da sigla em formação em fevereiro. O vereador Carlos Bolsonaro (PSC/RJ), polêmico por sua influência no governo do pai, seria um dos apoiadores da iniciativa.





A UDN

Fundada no dia 7 de abril de 1945, a UDN apresentou um programa à Justiça na época organizando suas ideias em 14 capítulos.

Parte delas reúnem pautas liberais, como a abertura ao capital estrangeiro para o desenvolvimento do Brasil e a redução de impostos, especialmente para a classe média.

Outros aspectos, contudo, lembram partidos de viés nacionalista, destacando-se pela pregação da intervenção do Estado na economia e cessão de vantagens ao funcionalismo.





O programa fala, por exemplo, que “indústrias estratégicas ficarão a cargo do Estado ou de empresas organizadas com a sua orientação”, e cita a necessidade de se impor tarifas de proteção industrial para favorecer a matéria-prima nacional.

Carlos Lacerda era um dos principais líderes da UDN. Em foto, discurda no diretório da UDN no Rio de Janeiro em 1963 (Foto: Memorial da Democracia)

No que tange aos recursos minerais do Brasil, a UDN propunha também ampla intervenção: a exportação só seria permitida caso excedessem as necessidades da “indústria nacional organizada”, sem especificar. [4]

Em relação ao funcionalismo público, que apresenta no século 21 as principais distorções a serem resolvidas na reforma da Previdência, a UDN não escondia a defesa de privilégios.

No próprio programa, o partido era claro em “conceder ao funcionalismo público maiores direitos e vantagens”, apontando a importância de “bem remunerar” os servidores, sem especificar em nenhum momento a preocupação de manter um padrão salarial dos funcionários públicos similares aos do mercado.





Na pauta da educação, a UDN não escondia seu viés conservador. Seu programa falava em “adotar uma política de costumes que coíba os vícios e males dissolventes da nossa formação moral”.

Um partido de contradições

Segundo a Centro de Pesquisa e Documentação Histórica da Fundação Getulio Vargas, a UDN vivenciou em sua trajetória “contradições e cisões”. [2]

“Coexistiram na UDN teses liberais e autoritárias, progressistas e conservadoras. O partido que vota a favor do monopólio estatal do petróleo (1953) e contra a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas (1947) é o mesmo que se opõe à intervenção do Estado na economia, denuncia a ‘infiltração comunista’ na vida pública e contesta os resultados quando perde as eleições”, diz o verbete do acervo histórico do CPDOC.





Segundo a FGV, o udenismo apresentou três fases no Brasil: a primeira, marcada pela “oposição sistemática a Getulio Vargas”; a segunda, moralista, com denúncias de corrupção administrativa; e a terceira e última do “anticomunismo radical”, que acabou propiciando o apoio à intervenção militar de 1964.

Ironicamente, menos de dois anos depois, o regime militar que começou apoiado pela UDN impôs o ato institucional nº 2, que marcou a morte institucional do partido. [3]





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