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Das Rainhas de Copas às Bailarinas do Chico

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Atualmente, tenho sentido falta das conversas leves e cotidianas com pessoas estranhas. Algo tipicamente brasileiro.

Culpo, em grande medida, o constante estado de hipérbole que as redes sociais – e suas bolhas – tem promovido em uma sociedade que ainda não amadureceu o suficiente para lidar com o próprio avanço. A estrutura algorítmica das redes sociais fez aquilo que era lógico, atendeu a demanda humana pela ampliação do conforto e diminuição de contatos desagradáveis, normalmente com pessoas que apresentam traços distintos dos nossos.

Essa demanda sempre existiu e, até muito recentemente em nossa história, foi atendida em doses homeopáticas, por meio de clubes, grupo, confrarias, rodas de samba e tantas outras estruturas sociais que permitem aos semelhantes se encontrarem com mais facilidade. Entretanto, com o advento das bolhas nas redes sociais, não há mais momento fora do clube, fora da roda de samba. Não há momento, enfim, fora da tribo. O que era exceção virou a regra.

Assim, diminuímos drasticamente a nossa convivência com pessoas diferentes de nós e ampliamos o nosso tempo com aqueles que concordam conosco, que reforçam nossas posições – independentemente de elas serem boas ou ruins. Ocorre que o conforto, assim como aquele que é causado pelo uso do tabaco ou pelo consumo de comidas açucaradas, vem com um preço.

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Ao buscarmos refúgio no conforto das coisas, no geral, abdicamos de lições importantes. No caso das redes sociais, temos abdicado do convívio com os diferentes.

Isso tem gerado duas grandes e crescentes categorias de pessoas que devem ser evitadas para que se assegure a sanidade mental. A primeira categoria são as chamadas bailarinas do Chico, que não têm verrugas, mau cheiro ou opiniões erradas.

A ausência de um convívio mais cosmopolita prejudica – e muito – a percepção de que estamos errados, mesmo que apenas parcialmente. Naturalmente, algumas pessoas sofrem de maneira mais aguda com essa condição e perdem noção da falibilidade humana, acreditando ser de uma espécie distinta dos demais.

Por outro lado, a segunda categoria é constituída pelas rainhas de copas. No eterno livro de Lewis Carrol “Alice no País das Maravilhas”, a Rainha de Copas é uma figura conhecida por ter uma solução para todos os conflitos: cortar a cabeça daqueles que lhe perturbam a existência. São pessoas que, além de não conseguirem perceber qualquer tipo de problema com a forma como enxergam o mundo, também acreditam que quem pensa diferente é o mal encarnado.

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Parece um pouco extremo, mas basta que você reflita um pouco sobre as pessoas que conhece para que constate que não está tão distante da sua realidade assim.

Justamente por isso, devemos buscar reverter esse quadro e conviver com pessoas diferentes de nós, forçando-nos a conviver com os diferentes e a exercitar a tolerância. Ainda existem alguns (mas, infelizmente, poucos) espaços que tentam promover isso.

Um desses espaços é o Fórum da Liberdade, que, neste ano, tem como temática “Alice no País das Maravilhas” e pretende reunir mais de três mil pessoas para brincar com o tema e com o exercício da liberdade. A beleza de um evento como esse, no mundo em que vivemos, é algo para ser celebrado.

Há mais de trinta anos o Instituto de Estudos Empresariais realiza esse evento, colocando na mesa para conversar Olavo de Carvalho e Eduardo Bueno, Ciro Gomes e Tom Palmer, liberais e conservadores. Esse não é um feito simples.

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Submeter suas premissas ao estresse de um evento enorme e plural é algo que não é comum hoje em dia. Ninguém espera um discurso liberal no congresso da União Nacional dos Estudantes ou nos colóquios da Central Única dos Trabalhadores – e não é à toa, certamente cabeças rolariam. Isso porque lá se faz presente apena uma tribo, com um pensamento uno e hermético que se mostra incapaz de conviver com a divergência, quanto mais reconhecer seus erros.

Por outro lado, no Fórum, temos o verdadeiro País das Maravilhas de Alice, onde coisas loucas, inesperadas e espontâneas podem acontecer. Essa é a marca de um local onde as pessoas podem se expressar com mais liberdade, podem até, com sorte, ter conversas leves e cotidianas com pessoas estranhas. Algo tipicamente brasileiro.

*Gustavo Fernandes é associado do IEE (Instituto de Estudos Empresariais)

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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