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‘O centrão não se compra, apenas se aluga’, diz cientista político

Bolsonaro inaugura seu segundo biênio frente a um Legislativo mais amigável e com o tema do impeachment enfraquecido: para analisar esse cenário, o Boletim conversou com o cientista político Bruno Holanda
Bruno Holanda (Foto: Divulgação)

O governo do presidente Jair Bolsonaro entrou em 2021 em sua segunda metade. Mas se no início do ano as perspectivas eram negativas devido à percepção crescente da lentidão do programa de vacinação – cuja batalha foi marcada pela imagem do governador de São Paulo, João Doria, ao lado da primeira vacinada do país, em vez do presidente -, o jogo tornou-se favorável ao Planalto no início de fevereiro.

As vitórias do senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG) e do deputado federal Arthur Lira (PP/AL), ambos aliados de Bolsonaro, para comandar Senado e Câmara, criaram a perspectiva de um Congresso mais amigável a pautar e aprovar projetos de lei caros ao presidente. O fortalecimento político no Legislativo, de quebra, ajudou a aplacar os riscos de um impeachment – tema este que, devido ao colapso da saúde em Manaus, havia voltado a circular, inclusive entre grupos liberais.

Para conversar sobre o que muda nesse novo cenário, o Boletim da Liberdade conversou com o cientista político Bruno Holanda, que desde fevereiro passou a assinar uma coluna no site de forma quinzenal. Na avaliação do especialista, “enquanto o presidente mantiver um terço de aprovação e puder pagar o preço do centrão, nada acontece”. Confira:





Boletim da Liberdade: O governo conseguiu eleger aliados para comandar a presidência do Senado e da Câmara dos Deputados. O que isso deve influenciar nos dois últimos anos de mandato do presidente Bolsonaro?

Bruno Holanda: Um conceito muito claro em Brasília é que o centrão não se compra, apenas se aluga. O preço de manter o bloco ao seu lado é alto e tende a crescer. É um grupo que pode blindar o presidente de um possível processo de impeachment, porém a vida de Bolsonaro não será mais fácil, apenas terá problemas diferentes.

Um grupo heterogêneo, poderoso, cheio de raposas velhas e conhecidas no galinheiro não se mantém junto a toa. O Centrão é como uma alcatéia de lobos ou leões, que se unem para abocanhar uma presa maior, só que nesse caso, as presas a serem abocanhadas são os cargos na elite do serviço público e o orçamento federal. Esse momento, cai a máscara de nova política e se assume o verdadeiro Jair, deputado 100% fisiológico do baixo clero do congresso, com pós graduação em democracia de coalizão.

Boletim da Liberdade: Antes da eleição no Congresso, o tema do impeachment estava crescendo, com o MBL e algumas lideranças de viés liberal defendendo abertamente a queda de Bolsonaro. Na sua análise, apesar dos muitos pedidos, quais são as chances de um processo conseguir ser aberto com essa mudança no comando da Câmara?





Bruno Holanda: Um processo de impeachment só ocorrerá por pressão social forte e demonstrações claras de que os aliados do presidente serão lesados na eleição seguinte. Enquanto o presidente mantiver um terço de aprovação e puder pagar o preço do centrão, nada acontece.

O problema que Jair terá que enfrentar é o fato de ter feito promessas que talvez não possa cumprir. O Governo vendeu para o congresso terreno na lua. Vendeu mais de uma vez e para deputados diferentes. O preço de manter o centrão é alto e talvez o presidente não possa pagar, mas dar o calote no bloco é algo muito perigoso e pode facilitar o caminho do impeachment. Mas isso tudo apenas se a popularidade de Bolsonaro continuar caindo e a pressão da rua vier. Tudo pode acontecer, nosso país é uma caixinha de surpresas.

Um processo de impeachment só ocorrerá por pressão social forte e demonstrações claras de que os aliados do presidente serão lesados na eleição seguinte

Boletim da Liberdade: Muitos analisam a eleição para a Câmara e para o Senado como a coroação do movimento a adesão do centrão ao govenro; ou a volta do velho presidencialismo de coalizão, caracterizado por adesismos fisiológicos, que sustentou governos anteriores. Voltamos ao mesmo modelo ou há diferenças? Quais seriam os riscos envolvidos?

Bruno Holanda: Há diferenças claras entre o governo de agora e os anteriores. Nossa democracia está ameaçada e as declarações do presidente mostram o que ele pode fazer se acuado. Nenhum presidente da nossa nova democracia foi tão claro ao negociar com o centrão, nem sequer Michel Temer. Para além disso, o país sofre uma crise de liderança muito forte, com homens velhos ocupando cadeiras antigas. Não há um norte na nossa bússola, nem estrelas que brilhem pra guiar o caminho. A tal renovação política só envelheceu nossa prática política.





Sessão Solene no Congresso Nacional em que tomaram posse Pacheco e Lira (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Boletim da Liberdade: Houve uma linha argumentativa de que muitas reformas e pautas não avançaram no primeiro biênio por causa da falta de condições políticas de serem pautadas ou aprovadas, como algumas reformas econômicas (em especial, com a volta da CPMF) e projetos de lei para a liberação de armas. Nessa nova constelação de forças políticas, quais dessas pautas devem avançar?

Bruno Holanda: A prioridade do Bolsonaro deve ser a pauta de costumes, já que precisa urgentemente acenar para sua base com uma resposta. Os entraves para uma reforma continuam lá. O centrão precisa ser “alugado” para cada votação e os custos são proporcionais à necessidade do Governo.

Boletim da Liberdade: Em 2018, a candidatura de Bolsonaro falou muito em rompimento com o modelo de governar feito por meio da troca de cargos e nomeações políticas. Em parte, o primeiro ministério de Bolsonaro esboçou formar um conjunto de notáveis, que incluiriam Guedes, Moro, Pontes, entre outros nomes. O que deu errado e como explicar isso para os eleitores?

Bruno Holanda: Jair foi um deputado por eras no congresso, sabe como as coisas funcionam por lá. Mesmo no seu primeiro ministério, houve aproximações bem claras a nomes de gosto discutível, como Osmar Terra e mais recentemente, Roberto Jeferson. A política é feita de concessões e isso é saudável. Pudesse um presidente governar apenas com os aliados, a democracia já haveria falhado. Bolsonaro precisa constantemente equilibrar o apoio dos políticos e o apoio da sua base ideológica. Tendo isso em mente, ele acena para para ambos os lados, agradando um de cada vez e tentando equilibrar a balança.





Bolsonaro precisa constantemente equilibrar o apoio dos políticos e o apoio da sua base ideológica. Tendo isso em mente, ele acena para para ambos os lados, agradando um de cada vez e tentando equilibrar a balança

Boletim da Liberdade: Há a acusação de que o governo abandonou o discurso de combate à corrupção. Nesse sentido, a saída de Sérgio Moro foi icônica. Com o fim da força-tarefa da Operação Lava Jato e o fortalecimento do governo, como você enxerga que a pauta do combate à corrupção se materializará nas eleições de 2022?

Bruno Holanda: A pauta anticorrupção sempre é forte no país, desde a vassourinha varrendo de Jânio até o “acabando com tudo isso que tá aí” do Bolsonaro. Em 2022 ela muda de lado. Com os escândalos do Flávio, Queiroz e a Primeira-Dama, Jair quererá que o tema fique em segundo plano.





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