Conservadores versus liberais e libertários: a saga de uma discussão

Diante do novo debate de artigos entre Carlos Góes e Adolfo Sachsida, o Boletim compilou alguns textos e analistas que discutiram sobre o assunto

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Edmund Burke e John Locke (Foto: Reprodução / Instituto Ludwig von Mises Portugal)

“Um liberal olha para o futuro e almeja o progresso. A bem da verdade, não há nada menos conservador que um liberal”. A frase foi publicada por Carlos Góes, pesquisador-chefe do Instituto Mercado Popular, e é com ela que conclui seu artigo “Não se engane: o conservadorismo é antagônico ao liberalismo”, de janeiro de 2014. A ilustração do artigo é uma imagem do filósofo Olavo de Carvalho, bastante associado ao conservadorismo.

O texto de Góes foi apenas mais um capítulo de uma discussão travada com intensidade no seio do ecossistema pró-liberdade. Aplicados de diferentes maneiras, com distintas acepções, ensejando curiosas polissemias, os rótulos “conservador” e “liberal” são protagonistas em uma disputa de interpretações e expressão política que transcende a própria trajetória dessas correntes no Brasil.


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Góes não ficou sem resposta. Adolfo Sachsida, doutor em Economia, escreveu no último dia 20 uma reação ao artigo do amigo. O debate entre os dois estimulou o Boletim a trazer à tona não apenas os argumentos que usaram, mas também um pouco do histórico dessa longa contenda.

Antecedentes de uma ideia de aproximação

Os diferentes capítulos dessa longa disputa remontam às terras anglo-saxônicas. Em posfácio acrescentado à nova edição de As Seis Lições pela LVM Editora, Alex Catharino comenta que o pensamento liberal clássico se estabeleceu em torno dos pilares do constitucionalismo e da divisão de poderes, com uma matriz econômica e política britânica e americana. Porém, ao longo do século XX, nos Estados Unidos, o termo “liberal” se associou mais “a uma visão política de esquerda, ou ‘progressista'”, e foi em reação a isso que teria surgido o atual movimento conservador americano.

Segundo o senador John P. East, citado por Catharino, o economista da Escola Austríaca, Ludwig Von Mises, de popularidade crescente no Brasil. é uma das influências desse movimento conservador – e isso mesmo que o próprio Mises não se rotulasse dessa maneira, assim como seu pupilo Friedrich Hayek. “O maior problema do entendimento de Ludwig Von Mises e de F. A. Hayek acerca da temática”, argumenta Alex, ” é que ambos, na condição de austríacos, parecem não compreender as diversas singularidades da tradição conservadora britânica e norte-americana”. Nesse caso, o conservadorismo moderno, baseado no exemplo do irlandês Edmund Burke, que se opôs à Revolução Francesa, conteria, em si mesmo, uma disposição por defender, em linhas gerais, as mesmas instituições sustentadas pelo liberalismo clássico.

Na mesma toada, Murray Rothbard (também pupilo de Mises) argumenta favoravelmente a alianças entre conservadores e liberais – na verdade, mais do que isso: conservadores e libertários. Em seu artigo “Conservadores e libertários: uni-vos contra o verdadeiro inimigo”, replicado pelo Instituto Mises Brasil, Rothbard argumenta que, “uma vez definido que o objetivo principal é encolher o estado, divergências pontuais sobre o que fazer após isso podem ser deixadas para depois” e uma “coalizão entre libertários e conservadores é essencial para a derrubada do principal inimigo da atualidade” – em sua visão, a social democracia.

Hans-Hermann Hoppe, por sua vez, vai mais longe: ele acredita que as preocupações dos conservadores, tais como aquelas com “a decadência das famílias, com o divórcio, com a ilegitimidade, com a perda da autoridade, com o multiculturalismo, com os estilos de vida alternativos, com a desintegração do tecido social, com a promiscuidade e com a criminalidade”, são legítimas e necessárias, mas os meios para restaurar a normalidade quanto a esses aspectos precisam ser mudanças drásticas, “até mesmo revolucionárias e estatistas”.

Uma vez definido que o objetivo principal é encolher o estado, divergências pontuais (…) podem ser deixadas para depois. 

O fusionismo e os seus opositores

O assunto suscitou também um debate entre dois colunistas do Instituto Liberal, ainda em 2014. Esse debate tem muita pertinência, porque ilustra a base dos argumentos que costumam circular nos meios virtuais quando a questão é levantada. Tudo começou quando o então estudante de Filosofia e Economia, Filipe Altamir, sob o título “Uma defesa do fusionismo”, sustentou a articulação entre as bases de pensamento do conservadorismo e as bases do liberalismo e do libertarianismo.

“O problema de muitos conservadores é focar somente e quase sempre no âmbito cultural e mais filosófico do que no econômico, e o problema do liberal e libertário é focarem basicamente tudo somente no aspecto econômico, ignorando a guerra cultural e, muitas vezes, sob uma análise dogmática, sectária e principiológica, ignorar a realidade concreta”, ele argumentou.

Em direção oposta foi o bacharel e licenciado em Filosofia Filipe Rangel Celeti, no artigo-resposta “Uma defesa do desfusionismo, ou uma aula para Filipe Altamir”. Celeti considera que o principal problema com a proposta de uma “fusão” é que sempre “uma parte sai prejudicada”. No caso específico, os conservadores sairiam ganhando, porque “mantêm todo o seu arcabouço teórico e seus pressupostos filosóficos”, enquanto o libertário que participar dessa associação, segundo ele, “terá de abandonar a defesa total da liberdade para que possa apenas defender a liberdade econômica”, abdicando da “não intromissão das convicções morais pessoais nos determinantes político-legais”.

Russell Kirk. importante teórico do conservadorismo americano; para Joel Pinheiro, vago e irracional (Foto: Reprodução / The Imaginative Conservative)

Joel Pinheiro da Fonseca, economista e mestre em Filosofia, atualmente colunista da Folha, também produziu sua crítica ao conservadorismo no Instituto Liberal, daquele mesmo ano – uma apreciação dos famosos “dez princípios conservadores” enunciados pelo americano Russell Kirk. Na análise, Pinheiro afirma que o conservadorismo kirkiano é vago e irracional, pois a prudência elencada como base prática da política “acaba servindo não como critério objetivo, mas como uma máscara para justificar potencialmente qualquer posição de que o autor goste”. A suposta generalidade e vagueza das recomendações do conservadorismo o tornariam uma posição frágil e sem substância. O liberalismo seria, portanto, um pensamento mais coerente e propositivo, dispensando outras vinculações.

O “liberal conservador”: faz sentido?

A discussão se torna ainda mais intrincada quando aparece em cena a figura do “Patinho Feio”: a expressão “liberal conservador”. O que seria? Existiria? Um dos artigos mais repercutidos contra a sua aplicação é o do empresário e colunista do IL,  João Luiz Mauad, intitulado exatamente “Não existe liberal conservador”. Para ele, de maneira muito objetiva, trata-se de um “oximoro” e uma “contradição em termos”.

Arte do artigo de Mauad com o espectro político defendido por Hayek, contrapondo liberais a conservadores em extremos distantes (Foto: Reprodução / Instituto Liberal)

Segundo Mauad, “o que determina se alguém é liberal ou conservador não é, de maneira nenhuma, os valores morais segundo os quais essa pessoa decidiu viver, mas a sua visão sobre os limites dos poderes do estado”. Assim, para ele, alguém que é avesso “ao consumo de drogas, à prostituição, à eutanásia, ao aborto, à pornografia, bem como professa valores religiosos e familiares rigorosos” pode ser, mesmo assim, “um liberal radical”, bastando que “não defenda o uso dos poderes de polícia do estado para impor aos demais os seus valores ou obrigá-los a rezar pela sua cartilha”.

O jornalista Lucas Berlanza discorda. No artigo, também de título sugestivo, “O que é o liberal conservador?”, ele alega que, na história brasileira, os dois principais partidos da época monárquica, o Liberal e o Conservador, desejavam princípios liberais de estruturação social, ainda que “não no sentido ideológico de alguns radicais modernos para quem Roberto Campos, por exemplo, não seria liberal em acepção alguma do termo, apenas porque discordava de Rothbard e Friedman ao ser contra a legalização da maconha”.

Ele definiu que o liberal conservador é aquele que “estabelece um casamento” entre a preocupação conservadora com “uma unidade histórico-conceitual pátria, um gradualismo de transformações, o ensejo a certo valor da ordem e das instituições historicamente construídas”, reagindo ao “abstratismo revolucionário”, com a adoção liberal da “convicção no valor de uma maior autonomia ao indivíduo, em liberdades de expressão e mercado, em constitucionalismo e representatividade”, referenciando autores como José Guilherme Merquior e Victor Hugo, que empregaram a expressão.

Carlos Góes x Adolfo Sachsida

Carlos Góes (Foto: Reprodução / LikedIn)

O capítulo mais recente dessa longeva discussão, com que esta matéria começou, foi a reação de Sachsida ao artigo de Carlos Góes, que veio à luz pelo Instituto Mercado Popular. Góes considerou inadmissível uma aproximação entre forças que julga serem antagônicas. Nesta seção final, o Boletim elenca os argumentos de cada lado, a partir da contraposição realizada por Sachsida:

Carlos Góes: Em sua visão, liberais e conservadores discordam radicalmente em matérias de política objetiva. “Enquanto conservas vão falar contra as drogas e o casamento gay, liberais vão ter propostas radicais como a legalização de todas as drogas e a desestatização do casamento”.

Adolfo Sachsida: Considera uma generalização atribuir a todos os conservadores a oposição à legalização das drogas, ainda que muitos questionem “apenas a operacionalização disso”, preferindo “mudanças graduais”. Ele também afirmou que o problema de muitos conservadores é com o termo “casamento”, mas, do ponto de vista da política objetiva, nada teriam contra a “união homoafetiva”, unindo-se aos liberais na defesa da vida, da propriedade privada e da responsabilidade individual.

Carlos Góes:  Góes acredita que o principal fundamento do pensamento conservador é a sua ênfase na tradição e no costume, alicerçados na ideia de uma conexão entre as diferentes gerações. Essa perspectiva, ao contrário da liberal, conferiria grande importância e autoridade a esse “elo intergeracional”, que seria superior a teorias metafísicas e justificaria uma rejeição às mudanças – que, “embora necessárias, ‘para a nossa sobrevivência’, são vistas como um mal inevitável”.

Adolfo Sachsida: Concorda em linhas gerais com a definição de Góes, mas acredita que ela é injusta com o significado transcendental da “ordem moral” que se concretiza na ligação intergeracional, pois esta daria “um sentido importante à nossa vida”, fortalecendo “diante de um futuro desconhecido”. Quanto às mudanças, a cautela dos conservadores diante delas se justifica principalmente pelo reconhecimento das limitações humanas, temendo que “sociedades complexas” sofram conflitos violentos em consequência de alterações muito radicais.

Carlos Góes: O liberalismo não surgiu como uma atitude conservadora, mas sim como uma força de oposição aos conservadores da velha ordem. O livre comércio e a abolição de leis protecionistas do trigo e milho na Inglaterra mercantilista, teorias cuja defesa foi empreendida por Adam Smith, desafiavam a tradição, dado que essas leis “estavam lá desde sempre”. A economia de mercado é também uma inovação revolucionária, abalando as estruturas da sociedade, emancipando os mais pobres e extinguindo profissões tradicionais.

Adolfo Sachsida: Concorda em termos gerais, mas destaca que o conservadorismo não é uma ideologia, variando de acordo com época e lugar. Ele destaca também que Edmund Burke, “um dos grandes nomes associados ao conservadorismo”, contemporâneo de Adam Smith, defendia o livre comércio. O medo da mudança e do livre mercado não seria, portanto, da essência do conservadorismo. Sobre a economia de mercado ser revolucionária, Sachsida não nega a importância dessa transformação e o seu próprio caráter de mudança, mas ressalta que foram conservadores os seus grandes defensores políticos no passado, como o presidente dos EUA Ronald Reagan e a premiê britânica Margaret Thatcher.

Carlos Góes: Os conservadores se contradizem ao acreditar que “fórmulas mágicas feitas por estudiosos de gabinete” não funcionam, mas defenderem, ao mesmo tempo, a legitimidade dos costumes e da tradição, que é, a seu ver, uma “teoria racionalizada”. Os costumes isoladamente não justificam coisa alguma, sendo “preciso um corpo teórico para derivar legitimidade moral dos costumes”.

Adolfo Sachsida: Discorda. A tradição resultaria de algo que muitos liberais também apreciam: a ordem espontânea. “Alguns conservadores diriam que os costumes foram a resposta a problemas passados dos quais a sociedade já se esqueceu”, arremata.

Carlos Góes: Os costumes podem ser bons ou ruins, e já serviram de arma de dominação e opressão em diversos momentos da História. “Para um liberal, um costume que infringe a justiça e a liberdade deve ser mudado”.

Adolfo Sachsida: O conservador sabe que “nenhum caminho é isento de custos”, mas, embora ideias conservadoras tenham produzido injustiças no passado, também “foi graças ao conservadorismo que outras soluções mais devastadoras foram afastadas”, devendo cada medida ser julgada em consonância com a sua época.

Carlos Góes: Conservadores não percebem que as instituições sociais estão sempre se transformando, em “permanente revolução”, mudando o tempo todo “rumo aos novos desígnios que a sociedade lhes dá”. A legitimidade delas advém da sua utilidade social, não do simples fato de existirem.

Adolfo Sachsida: Conservadores gostam de instituições nas quais enxergam o resultado da ordem espontânea, mas não são inimigos de mudanças – apenas receiam as mais abruptas, com potencial “efeito disruptivo na sociedade”.

Carlos Góes: Não é possível conhecer o futuro, nem a velocidade das mudanças, frutos “da livre experimentação social e da competição do mercado de ideias”. Ciente disso, o liberal afirma que o futuro deve ser moldado pelas pessoas, sem direcionamentos, nem gurus.

Adolfo Sachsida: A importância de mudanças graduais se verifica justamente porque elas podem ser revertidas com mais facilidade caso se provem equivocadas, sem destruir o conjunto social – não havendo nisso nenhuma defesa de gurus ou salvadores da pátria, pois isso seria o exato oposto da política da prudência.

Finalmente, quanto à citação com que esta matéria começou: realmente não há nada menos conservador que um liberal? A resposta de Sachsida foi: “Será mesmo? Acaso um conservador, quando olha para o futuro, almeja o retrocesso? Creio que no Brasil de hoje conservadores e liberais possuem muito mais similaridades do que diferenças”.

E o leitor do Boletim, de que lado está nessa questão? Seja qual for, embora um consenso absoluto – seja um consenso pela união, seja pelo afastamento – permaneça longe, parece haver uma certeza: o fato de essa discussão ser travada nesses termos já é prova de que ideias diferentes do habitual ganharam força no país. Resta aguardar o seu comportamento e que impactos promoverão, cada uma delas, no futuro do Brasil.

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