Série Educação. Artigo 03/03: 9 soluções baseadas em minha experiência – Colunas – Boletim da Liberdade

Série Educação. Artigo 03/03: 9 soluções baseadas em minha experiência

18.11.2021 09:25

Chegamos ao último artigo da série sobre os problemas e as soluções para a educação pública no Brasil.

Procurei pensar soluções que não impliquem, necessariamente, no aumento de gasto público. Podemos avançar muito na educação com o que já temos de recurso. Neste último artigo apresento 9 (nove) soluções baseadas em minha experiência de mais de 15 anos trabalhando com gestão da educação. São diretrizes de quem sempre buscou apresentar resultados rápidos e consistentes, com grande impacto para a comunidade acadêmica.

9. Transformar o regime dos professores em dedicação exclusiva
Os professores precisam se enraizar na comunidade escolar em que trabalham, conhecer profundamente as pessoas que ali ou trabalham, ou estudam, suas dores e seus talentos. Ao serem efetivados ao regime de trabalho integral eles conseguirão se dedicar mais à unidade, terão melhores condições para desenvolver seu talento e expertise, e também evitar problemas recorrentes como atraso e falta. Dedicação exclusiva melhora a educação para todos.

8. Divulgação de dados de gestão e de resultados acadêmicos de forma clara e transparente
Quando comecei a estudar a gestão escolar pública me deparei com caixas pretas invioláveis. Eram números de funcionários na folha muito maiores do que a unidade apresentava na realidade, mistério acerca do fornecimento de alimentação, calendário do ano letivo que nunca fora divulgado, entre outras aberrações. Isso tudo prejudica muito a fiscalização e o controle das unidades, seja pelos responsáveis, ou pela população em geral. Esse tipo de prática nebulosa tem particular gravidade na educação, pois é um ambiente de demanda confiança para progredir, impedindo, assim corrupção e desperdício. Por isso, é de extrema importância que toda unidade da rede pública de educação tenha um canal público de divulgação dos seguintes dados:

– Nomes dos docentes e funcionários alocados em cada unidade da rede.

– Carga horária em sala de aula de cada professor da unidade com as turmas de sua responsabilidade.

– Turno de trabalho de cada funcionário administrativo e suas principais atribuições.

– Nome das empresas terceirizadas que exercem contrato na unidade, com o tempo de vigência do contrato e contato direto com o responsável.

– Horário de cada turma de cada unidade.

– Calendário do ano letivo.

7. Formação continuada orientada pela direção e coordenação da unidade
Essa é uma questão de suma importância. É preciso que a formação continuada dos docentes tenha caráter individualizado. Caso seja indiscriminada, formação em massa, acarretará desinteresse e ineficiência da ação. O coordenador e o diretor são as lideranças adequadas para indicarem as formações pertinentes para seu grupo de docentes, buscando alinhamento às metas da unidade. Individualizar a formação continuada é garantir qualidade e reconhecimento ao docente.

6. Assumir alunos em progressão continuado com a missão da recuperação
A progressão continuada não é uma estratégia ruim para a educação no Brasil. O problema é que da forma como vem sendo aplicada acabou por se configurar uma tática de maquiagem de maus resultados. Empurra-se o aluno para frente, para não constar como reprovado. O fato é que os alunos com pendência de conteúdo nunca conseguem recuperá-lo, pois a escola não se coloca como um parceiro nessa batalha. O aluno precisa de uma escola disposta a acompanhá-lo, dar-lhe suporte com aulas de reforço e estratégias individualizadas de ensino.

5. “Tolerância zero” para alunos na escola sem aula
O servidor público, de forma geral, tem privilégios frente ao trabalhador privado. A cobrança por faltas ao trabalho é um exemplo. A administração pública é muito mais permissiva com a falta de seus funcionários do que as empresas privadas. Esse é um grande problema para a formação dos alunos da rede pública. O gestor de escola pública precisa organizar a rotina escolar considerando essa restrição e garantindo que nenhum aluno fique sem aula. É preciso trabalhar com projetos que consigam preencher horários vazios pela falta de um professor, com conteúdo e qualidade, ou reservar tutores capazes de conduzir uma aula de exercício ou revisão. Aluno não pode estar na escola e não ter aula.

4. Garantir uma rotina escolar organizada e planejada
A função mais elementar de qualquer gestor escolar é organizar e programar a rotina escolar. No entanto, não é raro observarmos responsáveis e alunos sem terem ciência do que acontecerá no dia seguinte de aula. Parece mentira, mas não é. Toda gestão educacional de qualidade tem como alicerce a boa organização da rotina escolar, por isso é fundamental que o calendário acadêmico seja divulgado antes das aulas começarem, com eventos principais do ano letivo e horário das aulas. Também é muito importante que todo professor apresente o plano de aula e cumpra com o cronograma da disciplina integralmente. Se não conseguimos implantar o elementar, imagine as questões mais complexas.

3. Fazer avaliação externa todo semestre e divulgar os resultados
Muitos profissionais de educação veem a avaliação externa com preconceito e argumentam que é um instrumento raso incapaz de conhecer o contexto de cada turma. Aparentemente eles estão certos. A avaliação externa, ao comparar resultados de diferentes turmas, não consegue compreender a causa de uma turma ter ido tão bem, e outra tão mal. Seria falta de infra estrutura? O contexto educacional de violência? Ou é apenas a incapacidade do docente ensinar? Acontece que todo gestor que acesse resultados de uma avaliação externa, deverá ter o cuidado de analisar diferentes variáveis que influenciam os diferentes resultados. É preciso dotar o gestor de dados para uma avaliação real, para que possa obter um diagnóstico e identificar as unidades que necessitam atenção e outras que possam virar modelo de boas práticas. Portanto eu afirmo, sem uma avaliação semestral é muito difícil mapear os centros de excelência e de problemas de uma grande rede educacional.

2. Exigir qualificação e experiência dos dirigentes de escola
Por mais que um diretor seja querido por uma comunidade escolar, isso não basta para que ele se torne um bom gestor. É preciso que os editais de seleção de diretor contemplem treinamento e qualificações mínimas para que eles assumam tal posto: pós graduação em gestão escolar e mínimo de anos atuando como coordenadores são exemplos de critérios que devem constar para que um servidor se torne diretor de escola pública.

1. Blindar a educação
A educação é muito importante para ser jogada no carteado da política. Se o prefeito ou governador quer garantir a eleição, que faça buscando entregar educação de qualidade e não apadrinhando pessoas e alocando-as para trabalhar nas escolas, ou ainda, furando fila de creche para seu curral eleitoral. Todo cidadão deve fiscalizar essas práticas tão nocivas para a educação e denunciar com veemência políticos que não respeitam o futuro de nossas crianças.

Devemos, nós cidadãos, fiscalizar o serviço público. Ele não é uma dádiva ou uma benfeitoria de políticos, nós pagamos essa conta. Para isso precisamos entender minimamente onde se encontram os gargalos dos maus serviços. Espero que essa leitura ajude a multiplicar o número de fiscais pela educação. Tudo que aqueles que usam a educação como assistencialismo, ou meio para corrupção, querem é que fiquemos calados, ou alienados da realidade.

“A educação é onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo.” Hannah Arendt.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil