O desserviço dos fiscais de coerência – Colunas – Boletim da Liberdade

O desserviço dos fiscais de coerência

26.08.2021 07:31

Uma criança de 5 anos pergunta ao seu pai se poderia ir à padaria sozinha. A resposta é de que não, crianças não podem se dar o luxo de irem à padaria sozinhas, já que são pequenas e indefesas.

Um dia depois, a criança pediu ajuda para arrumar seus brinquedos, mas, para sua surpresa, o pai disse que não a ajudaria, pois ela já era muito grande.

Pensou: “Nossa! Papai é muito incoerente! Umas horas ele diz que eu sou criança e outras ele diz que eu sou grande”.

Logicamente, o pai estava sendo extremamente coerente, mas a criança não tem capacidade de entender que a cada decisão o pai pondera diversos valores para se chegar a um “veredicto”. O propósito de torná-la uma criança independente era importante, mas não mais importante que o de mantê-la segura.

Os atos decisórios de adultos, sejam pais, políticos ou gestores, devem ser norteados pelos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade; mecanismos que as crianças ainda não desenvolveram e que, por isso, não conseguem enxergar lógica em muitas decisões de seus pais. Esses princípios são fundamentais para que o decisor priorize e pondere os seus valores de forma o mais coerente possível com o seu propósito. Dito isso, é fato que a coerência não é algo que se faz, apenas, para atender o outro, mas, principalmente, a si mesmo.

Atualmente, virou moda atacar os agentes políticos de “incoerentes”. Os militantes “fiscais da coerência” se comportam como aquela criança de 5 anos, incapazes de entender o conceito da razoabilidade e da proporcionalidade e vomitam a palavra “incoerência” em mídias sociais como se fosse o maior xingamento do mundo. Passam o dia em mídias sociais, buscando supostas “derrapadas” dos políticos, atacando, mas sem antes amadurecerem a complexidade que o tema exige.

Analisando, em casos práticos, percebe-se que os “fiscais da coerência” não conseguiriam compreender:

– O porquê é natural que um agente político tenha defendido, no passado, a melhoria do processo eleitoral, mas nesse ano tenha refutado veementemente a PEC 135. Fica claro que ele não mudou de ideia, o que também não seria um ato grave, mas que priorizou a defesa da democracia em detrimento das inovações propostas. Ou seja, ele não negligenciou ou banalizou os recorrentes ataques feitos pelo presidente ao processo eleitoral.

– O porquê é natural que alguém avalie positivamente um agente político no passado, mas que em outro momento o critique. Isso vem acontecendo muito atualmente diante da falta de posicionamento de alguns eleitos em relação ao impeachment. Por mais que políticos sejam técnicos, alguns posicionamentos são importantes para o eleitor. Fica claro que a avaliação do mandato pode mudar, pois, para aquele eleitor, a defesa da democracia é mais relevante que a tecnicidade.

Apesar da fiscalização de massa ser algo necessário para a representatividade do séc. XXI, os “fiscais da coerência” têm feito um desserviço à democracia. São tão infantis quanto uma criança de 5 anos e fazem parecer que o Brasil é um grande jardim de infância. Crianças birrentas, que se perdem no meio da má-criação e já não conseguem mais saber por que estão brigando.

Infelizmente, muitos agentes políticos, aprisionados pela busca de seguidores, acabam sucumbindo aos desejos infantis desses “fiscais”. Não percebem que quando se é (in)coerente para atender o outro, acabam se munindo de narrativas vazias e malabarismos retóricos para justificar sua infidelidade com suas próprias convicções. Ou seja, o indivíduo busca tanto ser coerente para a massa que acaba se tornando um instrumento de marketing, impotente e irrelevante.

Eu espero mais do meu país. Infelizmente tenho que concluir que sem que os eleitores saibam cobrar e fiscalizar por algo realmente relevante, continuaremos afogados em populistas que só dialogam com um público respaldados por marqueteiros e estrategistas, sem qualquer relação com o trabalho por um país melhor.

Finalizo com uma frase do insubstituível Nelson Rodrigues, que ao entender que a coerência nada mais é que um processo de autoconhecimento em busca do seu propósito, escreveu: “toda coerência é, no mínimo, suspeita.”

Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados