Como a ARENA ajudou a formar o centrão – Colunas – Boletim da Liberdade

Como a ARENA ajudou a formar o centrão

10.11.2021 05:16

A encaminhada filiação do presidente Jair Bolsonaro ao PL é motivo de críticas por parte de pessoas ligadas ao espectro pró-liberdade pela legenda ser comandada pelo ex-deputado Valdemar da Costa Neto, envolvido nos casos envolvendo o mensalão, além do fato da legenda fundada por Álvaro Valle nos anos 1980 integrar o chamado “centrão” na Câmara dos Deputados. O chamado “centrão” é formado por parlamentares que votam e atuam de maneira que suas bases eleitorais sejam atendidas, seja por meio de emendas parlamentares, seja pela concessão de cargos em órgãos públicos.

Antes do governo militar, o Brasil era polarizado partidariamente em dois grandes partidos: o PTB, fundado por Getúlio Vargas e congregava em seus quadros trabalhistas clássicos como San Tiago Dantas até mesmo políticos de orientação marxista como Leonel Brizola e tinha tendências mais à esquerda em sua época; por outro lado, a UDN foi fundada no escopo da oposição ao Estado Novo de Getúlio Vargas e passou a adotar posicionamentos mais à direita, tendo como principal liderança o jornalista e posteriormente político Carlos Lacerda. O PSD, outro partido do período realizava coalizões partidárias recorrentes com os trabalhistas, tendo eleito Juscelino Kubistchek presidente da República em 1955.

Com a extinção do pluripartidarismo por meio do AI-2 em 1965, foram formadas duas legendas: A Aliança Renovadora Nacional – ARENA, partido de sustentação do Regime, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro – MDB faria uma oposição controlada, no que ficou conhecido como “partido do sim e partido do sim, senhor”. A composição arenista deixou velhos udenistas de lado, exemplo dos integrantes da famosa “banda de música” como Carlos Lacerda foram deixados de lado.



Boa parcela dos integrantes da legenda de sustentação do governo militar eram oriundos do PSD, casos de Ernani do Amaral Peixoto, Gustavo Capanema, Armando Falcão, Filinto Müller, Auro de Moura Andrade, José Maria Alkimin e Wellington Moreira Franco, além de integrantes da ala de oposição a Carlos Lacerda na UDN por parte do grupo chamado de “Bossa Nova da UDN”, casos de José Sarney, Magalhães Pinto, Adail Barreto, Francelino Pereira, Clóvis de Ferro Costa, Bilac Pinto e Aliomar Baleeiro.

A característica do governo militar foi aprofundar ainda mais o atendimento de demandas locais e o fortalecimento de elites políticas locais, visando a sustentação do próprio Regime. Grandes obras e concessão de cargos no governo foram a tônica da gestão arenista, transformando aquelas lideranças políticas em partes de sustentação do governo. Mesmo com a troca do nome da legenda para PDS, ainda na eleição de 1982, com exceção de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, os integrantes deste grupo garantiram vitórias políticas.

Com a redemocratização, muitos deixaram o PDS e fundaram partidos como PFL (atual DEM, em vias de se tornar União Brasil por meio da fusão com o PSL) ou passaram a integrar os quadros do PMDB, levando seus métodos políticos para a nova legenda, fazendo com que o então partido líder da oposição deixasse de ser o partido de oposição ideológica aos Militares e se tornasse o partido dos caciques locais, assim como era a ARENA, tendo como consequência a migração de muitas de suas lideranças para partidos como PT, PDT, PCdoB, PSB e também culminou com a fundação do PSDB em 1988. Muitos do que criaram o PFL também mantiveram os mesmos costumes, migrando para outras legendas com o passar dos anos, como foi o caso do PSD fundado por Gilberto Kassab no escopo do governo Dilma para enfraquecer a oposição.

A falta de cultura política e partidária no Brasil fez com que partidos no Brasil se tornassem cartórios eleitorais que decidem quem tem o direito de ser candidato ou não. Além disso, promove a manutenção de poder de uma política regionalista em detrimento de uma política programática e ideológica, fazendo com quem deseja ser candidato seja filiado a um partido meramente para garantir uma vaga na legenda de um partido. Para que este quadro mude, o ambiente político precisa de cada vez mais debates nas mais diversas áreas para a promoção de um ciclo virtuoso que permita que nosso país seja um celeiro para as ideias do espectro político pró-liberdade.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil