A nova era da democracia não representativa – Colunas – Boletim da Liberdade

A nova era da democracia não representativa

16.09.2021 07:03

Na última semana, o ambiente político nacional entrou em efervescência com o clima gerado pelas manifestações de rua acontecidas, primeiramente, em sete de setembro, sendo esta de apoio ao governo Jair Bolsonaro, e a segunda acontecida no domingo, 12 de setembro, organizada com meses de antecedência por movimentos como o Livres, Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre cobrando a cassação do mandato do Presidente da República.

Ainda que se discorde de algumas faixas e cartazes apresentados por alguns manifestantes durante o feriado da Independência, as pautas levantadas em termos gerais são justas, como o fim da perseguição judiciária à ativistas políticos e à medidas apresentadas pelo Governo Federal, e a adoção de medidas mais transparentes para o processo de apuração dos votos durante as eleições.

Além disto, os atos apresentaram que Jair Bolsonaro ainda mantém uma boa base de apoio na sociedade, principalmente nos segmentos militares, religiosos e agropecuário, mesmo com boa parcela do establishment midiático posicionando-se contra, alegando que as manifestações tinham caráter antidemocrático e que escalavam o país a uma suposta ameaça de ruptura institucional.



Por outro lado, movimentos que se avogam do ideário liberal como Livres, MBL e Vem Pra Rua, além de partidos como o NOVO, tiveram tempo para realizar sua manifestação pedindo a saída de Bolsonaro do poder, com aceitação midiática, estabelecimento de campanhas pré-manifestação como distribuição de cerveja e posicionamento de lideranças nas mais diversas cidades brasileiras. Elas tinham tudo para realizar um grande ato contra Bolsonaro em moldes parecidos com o do impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Entretanto, esqueceram de combinar a adesão da população, no que Chesterton chamava de “homens comuns”.

Em uma tentativa cabal de adesão popular aos atos, políticos das mais diferentes matizes ideológicas, sobretudo do campo socialista, foram convidados como os senadores Alessandro Vieira (CIDADANIA-SE) e Simone Tebet (MDB-MS), a deputada federal Tábata Amaral (Sem Partido-SP), os deputados federais André Janones (AVANTE-MG), Alessandro Molon (PSB-RJ), Marcelo Ramos (PL-AM), Joice Hasselmann (PSL-SP), Orlando Silva (PCdoB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP), além dos deputados estaduais Arthur do Val (PATRIOTA), Heni Ozi Cukier (NOVO), Daniel José (NOVO) e Isa Penna (PSOL), e ainda os pré-candidatos à Presidência João Dória (PSDB) – atual Governador de São Paulo – , João Amoêdo (NOVO) e Ciro Gomes (PDT), para ficar apenas no ato realizado na cidade de São Paulo.

Para encobrir a falta de apoio popular, foi argumentado que a manifestação havia qualidade em seus participantes e não se teve a humildade em reconhecer a falta de viabilidade de uma espécie de “terceira via” mesmo se unindo com representantes marxistas em uma chamada “pauta comum”.

A mensagem passada ao eleitor de direita no país é que a união entre “liberais” e marxistas deseja empurrar a régua política brasileira para a velha disputa assistida entre 1994 e 2014, onde socialistas de origem marxista-leninista realizavam uma falsa disputa com sociais-democratas, excluindo liberais e conservadores da vida política brasileira e levando o ambiente de discussão a uma pobreza argumentativa que nos dias atuais assistimos ser contornada com o advento da internet e de um mercado editorial que alimenta o cenário pró-liberdade.

A consequência final das manifestações é o aumento, mesmo que indireto, da base de apoio a Jair Bolsonaro – mais pelo afastamento da pauta liberal-conservadora que deveria defender do que meramente por méritos do atual comandante-em-chefe do Planalto.

A atual gestão capitaneada por Jair Bolsonaro tem sim seus problemas, mas também há diversas virtudes em sua administração que não podem ser negadas. No que se trata a declaração pós-manifestações escritas à quatro mãos com o ex-Presidente Michel Temer. Só em um futuro próximo saberemos se foi uma estratégia ou um recuo que não poderá ser respondida nos dias atuais. Porém, a tentativa atabalhoada de criação de uma “terceira alternativa” no jogo político realizando uma verdadeira sopa de letrinhas com tons magenta relembra o que o eterno Roberto Campos apregoava, “onde a terceira via seria a incompetência para praticar o capitalismo e a covardia para aplicar o socialismo”.

O ambiente político deve ser sadio e de amplo debate onde a prudência tão defendida por Russell Kirk deve pautar a discussão, sem discursos que possam parecer inflamados em excesso, mas também sem palavras que possam fomentar uma espiral do silêncio em uma política decidida apenas por pessoas escolhidas em seus gabinetes que excluem a menor minoria de todas da política, evitando a inauguração da nova era da democracia não representativa.

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil