Por Sara Ganime
Em meio a um cenário cada vez mais polarizado sobre o papel da mulher na sociedade, um painel realizado nesta quinta-feira (8), no Fórum da Liberdade, propôs uma ruptura com a narrativa dominante: menos vitimização, mais autonomia.
Com participações de Letícia Barros, presidente do LOLA Brasil, e Ali Klemt, pré-candidata a deputada estadual pelo Rio Grande do Sul, o debate trouxe uma provocação que tem ganhado força fora dos espaços tradicionais: o que acontece quando o discurso sobre mulheres passa a tratá-las, permanentemente, como vítimas e quais são as consequências disso para homens e mulheres?
Quando tudo vira feminismo, o debate empobrece
Logo no início, Ali Klemt chamou atenção para o que classificou como um esvaziamento do debate feminino. Segundo ela, o uso indiscriminado do feminismo como lente única acabou distorcendo pautas legítimas. Na prática, isso teria reduzido a complexidade das discussões a uma única narrativa, dificultando abordagens alternativas sobre direitos, responsabilidades e escolhas femininas.
Para Ali, há um risco concreto nesse processo: a transformação da mulher em uma figura fragilizada. Ao tentar proteger, o discurso pode acabar limitando.
Da luta por direitos à cultura da vitimização
Letícia Barros aprofundou esse ponto ao diferenciar dois conceitos que, segundo ela, têm sido confundidos: ser vítima de uma situação concreta e adotar uma mentalidade de vítima. “Existem vítimas reais, obviamente. Mas transformar a vitimização em identidade permanente é outra coisa”, argumentou. Na avaliação dela, esse fenômeno está ligado também à forma como o Estado se expande e passa a mediar relações sociais e individuais.
A reação masculina: o fenômeno redpill
Um dos momentos mais provocativos do painel veio quando Letícia trouxe à tona o crescimento do chamado movimento “redpill” entre homens. Sem endossar comportamentos misóginos ou discursos extremados, ela apontou que o fenômeno pode ser interpretado como uma reação ao avanço de um feminismo mais radical ao longo dos anos.
A leitura apresentada foi direta: quando determinados discursos passam a retratar homens como adversários ou opressores por definição, surge, do outro lado, um movimento de rejeição, muitas vezes igualmente radical.
Esse cenário ajuda a explicar por que cresce, entre parte dos homens, a busca por relações mais tradicionais ou por mulheres que se identifiquem com valores considerados mais “femininos”. O ponto central, segundo o debate, não é justificar excessos, mas entender causas. Ignorar essa reação, na avaliação das debatedoras, pode aprofundar ainda mais a chamada “guerra de sexos”, em vez de resolvê-la.
O mercado como espaço de igualdade prática
Outro ponto forte foi a defesa do capitalismo como ferramenta concreta de emancipação feminina. Para Letícia, o mercado não distingue gênero, mas capacidade. É nesse ambiente que mulheres conquistaram espaço de forma mais consistente ao longo das últimas décadas. A lógica é simples: onde importa resultado, importa menos identidade.
Liberdade de escolha — inclusive sobre liderança e maternidade
O painel também reforçou a ideia de que a liberdade individual deve estar no centro das decisões femininas.
Isso inclui tanto mulheres que desejam ocupar cargos de liderança quanto aquelas que preferem outros caminhos.
A maternidade, nesse contexto, foi tratada como um exemplo emblemático. Classificá-la como um fardo, segundo as debatedoras, ignora o valor dessa escolha. Pelo contrário: a criação de filhos foi apresentada como uma das funções mais relevantes para a sociedade, ainda que frequentemente desvalorizada no debate contemporâneo.
O papel do Estado: apoio sem dependência
Apesar das críticas à expansão estatal, houve espaço para discutir onde o Estado pode contribuir de forma legítima.
Um dos exemplos citados por Ali Klemt foi o apoio à maternidade, especialmente no cuidado com os filhos, permitindo que mulheres tenham mais liberdade para trabalhar. A diferença está no limite: apoiar não é substituir.
Um debate que escapa da lógica binária
Mais do que respostas prontas, o painel trouxe um diagnóstico incômodo para os dois lados do debate público. De um lado, a crítica à vitimização excessiva. De outro, o alerta para reações cada vez mais radicalizadas. No meio disso, uma proposta clara:
resgatar a autonomia individual como ponto de equilíbrio.
Em um ambiente onde discussões sobre gênero tendem a se tornar cada vez mais extremadas, o painel indicou que talvez o caminho não esteja em reforçar trincheiras, mas em questionar os próprios termos do debate.


