Por Stefanny Cavalcante Rocha*
A universidade têm como papel oferecer ao estudante um corpo de conhecimento e, sobretudo, desenvolver nele a capacidade de pensar criticamente. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: um dos pilares fundamentais que constitui uma sociedade plural, a liberdade de expressão, ainda está efetivamente presente no ambiente acadêmico?
O direito de ter uma opinião, de discordar, de se alinhar a um posicionamento político ou filosófico é, em essência, o direito de pensar. E, como afirma John Stuart Mill em sua obra “Sobre a Liberdade”, o direito de pensar é indissociável do direito de falar e escrever. A liberdade de expressão não é apenas um elemento acessório da vida democrática, mas um de seus fundamentos: ela materializa a liberdade de consciência e serve de base para as demais liberdades.
Que a política seja discutida na universidade é algo esperado e, em certa medida, próprio de sua natureza. O problema não está na presença do debate político, mas na forma como ele tem se configurado. O que se observa, especialmente nas áreas de humanas, é a consolidação de uma linha de pensamento hegemônica que transforma o ambiente acadêmico em um espaço hostil à divergência. Em muitos casos, isso implica restrições às oportunidades de crescimento dentro da própria comunidade universitária.
Essa constatação não pretende desestimular o ingresso na universidade, mas evidenciar uma realidade que tem marcado o cotidiano acadêmico. A cientista política Elisabeth Noelle-Neumann, ao formular a teoria da Espiral do Silêncio, explicou como a percepção de uma opinião como majoritária influencia o comportamento coletivo. Segundo a autora, quando determinada posição é vista como majoritária, seus defensores tendem a se manifestar com maior segurança, enquanto aqueles que se percebem como minoria optam pelo silêncio, temendo isolamento ou represálias.
No ambiente universitário, muitos estudantes que se identificam politicamente à direita sabem que evitar questões que possam atrair rótulos ou estigmas faz parte do cotidiano. O medo do cancelamento e do lixamento moral passa a orientar condutas. Afinal, ao menor afastamento da cartilha ideológica predominante, o indivíduo passa a ser desumanizado e instala-se uma espécie de “criminalização do pensamento”: insultos nos corredores, projetos de pesquisas negados e títulos como “fascista” passam a substituir o debate.
Esse processo acaba por legitimar formas de violência moral e psicológica e, em casos mais graves, até física. Para evitar tais consequências, o medo se consolida como principal força propulsora da espiral do silêncio, levando muitos a se calarem como estratégia de autopreservação e de busca por tolerância no meio acadêmico.
A conhecida frase atribuída a Evelyn Beatrice Hall, “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”, expressa o espírito indispensável à manutenção da pluralidade. Defender a liberdade de expressão não significa concordar com todas as ideias, mas reconhecer que o direito de expressá-las é condição para uma convivência verdadeiramente democrática.
Infelizmente, o que se percebe hoje em muitos espaços universitários é a formação de um corpus discursivo que dialoga apenas com os iguais. Sem o resgate da tolerância à diversidade de pensamento e da efetiva garantia de sua expressão, o ambiente acadêmico corre o risco de se fechar em si mesmo, tornando-se cada vez mais vulnerável ao fanatismo e menos comprometido com o ideal de pluralidade que deveria sustentar sua própria existência.
*Stefanny Cavalcante Rocha é estudante de Ciências Sociais e líder do LOLA Fortaleza. Ela é militante do movimento PTNÃO e desenvolve pesquisas voltadas às áreas de educação, mulheres e inclusão.


