Por Suzanna Assayag*
A defesa da liberdade econômica costuma se concentrar em reformas estruturais: menos burocracia, menos impostos, mais segurança jurídica, mais proteção à propriedade privada. Tudo isso é essencial. Mas há uma verdade politicamente desconfortável que raramente entra no debate: liberdade não se sustenta onde há mentalidade de tutela.
O Brasil carrega uma tradição histórica de paternalismo estatal. A lógica da dependência — seja via assistencialismo permanente, excesso regulatório ou concentração de poder — produz cidadãos formalmente livres, mas culturalmente condicionados à autorização e à expectativa de amparo.
Para as mulheres, essa discussão é ainda mais sensível. Até 1962, brasileiras precisavam da autorização do marido para trabalhar. A liberdade feminina não foi um presente; foi uma conquista tardia. No entanto, seis décadas depois, ainda enfrentamos não apenas desigualdades objetivas — como a diferença salarial apontada pelo IBGE — mas também uma narrativa que insiste em posicionar a mulher como destinatária de proteção, não como protagonista de construção.
Proteção excessiva pode ser tão limitadora quanto proibição. O Índice de Liberdade Econômica demonstra consistentemente que países com menor intervenção estatal, maior abertura de mercado e forte proteção à propriedade privada apresentam maior prosperidade e mobilidade social. A evidência é clara: ambientes livres produzem mais oportunidades.
Mas oportunidades não produzem resultados por si só. Autonomia econômica exige responsabilidade individual. Exige preparo técnico. Exige capacidade de assumir riscos. Exige identidade sólida.
Sem identidade, a liberdade vira reivindicação. Sem responsabilidade, vira transferência. Sem consciência, vira discurso.
A cultura política brasileira frequentemente confunde justiça social com ampliação permanente da tutela estatal. No entanto, sociedades verdadeiramente livres não são aquelas que substituem dependências privadas por dependências públicas. São aquelas que fortalecem indivíduos para competir, produzir e prosperar.
Em um mundo marcado por inteligência artificial, inovação tecnológica e transformações rápidas no mercado de trabalho, ampliar direitos sem ampliar preparo é ampliar vulnerabilidades. A liberdade favorece quem desenvolve competência.
Para as mulheres, isso significa ir além da retórica do empoderamento e consolidar independência real: educação financeira, construção de patrimônio, desenvolvimento de habilidades estratégicas e posicionamento consciente no mercado.
Liberdade não é ausência de desafios, é a capacidade de enfrentá-los sem pedir permissão. O Estado pode garantir regras do jogo, mas não pode jogar por ninguém. A verdadeira emancipação feminina não se consolida quando há mais programas, mais subsídios ou mais discursos simbólicos. Consolida-se quando há menos barreiras e mais protagonismo.
Autonomia econômica começa na identidade — na convicção de que não somos frágeis a serem tuteladas, mas agentes a serem responsabilizadas. Sem isso, qualquer liberdade será sempre condicional, e liberdade condicional não é liberdade.
*Suzanna Assayag é líder do LOLA Belém, consultora em desenvolvimento humano e educação financeira. Pós-graduada em Gestão de Pessoas, Coaching e Políticas Públicas, possui 15 anos de experiência no setor bancário e é certificada pela Febraban como Analista Financeira. É criadora da metodologia TPS-E, que integra comportamento emocional e prosperidade.


