Por Antonio Vale e Bruno Peres
Em economias com instabilidade fiscal e ciclos políticos intensos, a qualidade das instituições deixa de ser um tema abstrato e faz diferença no cotidiano. Inflação sob controle, crédito previsível e confiança na moeda não são acaso: dependem de regras e mandatos capazes de resistir a pressões de curto prazo.
Por isso, o desempenho do Banco Central em 2025 merece atenção. Em meio a déficit primário elevado, deterioração das expectativas fiscais e debate público ruidoso sobre juros, a autoridade monetária manteve o foco no seu objetivo legal central: a estabilidade de preços.
A Lei Complementar nº 179/2021 deu ao Banco Central autonomia formal, técnica e operacional. Na prática, isso se traduz em mandatos fixos e escalonados para a diretoria, decisões de política monetária menos sujeitas ao calendário político e maior previsibilidade. É um desenho alinhado a boas práticas internacionais.
Autonomia, porém, só prova seu valor quando é testada, e 2025 foi um teste. O ano começou com a Selic em patamar alto, refletindo pressões inflacionárias e um quadro fiscal que exigia cautela adicional. Ao longo das reuniões do Copom, a taxa foi ajustada conforme a leitura técnica do cenário, chegando a 15% ao ano para reancorar expectativas e conter riscos.
Vale lembrar: juros elevados não são um fim em si mesmos. Eles costumam ser consequência de desequilíbrios, sobretudo quando a política fiscal se expande sem trajetória crível de sustentabilidade. Nessas condições, a política monetária atua como linha de defesa da moeda, aceitando custos no curto prazo para evitar danos maiores adiante.
A chegada de Gabriel Galípolo à presidência do Banco Central reforçou essa dimensão institucional. Apesar de indicado pelo governo, conduziu sua atuação em linha com o mandato legal, preservando a autonomia e a coerência das decisões. Em um país com histórico de interferência na política monetária, essa continuidade importa: sinaliza maturidade institucional e compromisso com regras que vão além de governos.
O conceito de dominância fiscal ajuda a entender o risco. Quando a trajetória das contas públicas se torna insustentável, cresce a chance de a política monetária perder eficácia, seja por pressão direta, seja por perda de credibilidade. A inflação passa a responder pior, e o custo recai, de forma desproporcional, sobre os mais vulneráveis.
Nada disso ignora os desafios sociais. Pelo contrário: a experiência mostra que inflação fora de controle corroi renda, desorganiza investimentos e agrava desigualdades. Estabilidade de preços é a base sobre a qual políticas públicas mais eficazes podem ser construídas.
A lição de 2025 é simples: boas instituições importam, especialmente quando o ambiente político e fiscal é adverso. O Banco Central cumpriu seu papel porque operou dentro de regras claras, com autonomia e responsabilidade, um ativo que vale preservar.
Primeiro vêm as regras. Depois, os resultados. Quando essa ordem é respeitada, a economia responde.


