Por Clara Albuquerque*
Você já se perguntou onde recorrer quando a confiança nas moedas começa a se deteriorar? Quando governos erram, políticas mudam e o dinheiro perde previsibilidade, a pergunta deixa de ser quanto vou ganhar e passa a ser quem vai me proteger. E não, não estou falando de gestos românticos, de figuras fortes ou de promessas vindas do governo. Estou falando de proteção real.
Se voltarmos alguns séculos no tempo, encontraremos um ponto em comum que atravessa civilizações, regimes políticos e profundas mudanças no modo de vida: a presença do ouro. Desde as primeiras sociedades, ele foi associado a poder, riqueza e estabilidade, não por acaso, mas porque sobreviveu ao tempo, às guerras, às quedas de impérios e às transformações econômicas mais drásticas.
Moedas, por outro lado, não são valor em si. São promessas sustentadas por Estados, instituições, sistemas financeiros e “estabilidade política”. Enquanto essa confiança existe, o dinheiro funciona. Quando ela se rompe em crises, guerras ou tensões geopolíticas, o valor se torna frágil.
A história econômica mostra que o Estado não é capaz de oferecer proteção financeira duradoura. Governos mudam, políticas se alternam e incentivos se distorcem. Confiar a própria segurança econômica a estruturas políticas é aceitar uma dependência instável.
Sempre que o mundo entra em ciclos de instabilidade, um movimento se repete de forma silenciosa e consistente: bancos centrais aumentam suas reservas de ouro. Não por apego histórico ou nostalgia monetária, mas por pragmatismo. O metal não pode ser congelado, sancionado ou desativado por decisão política. Não depende de sistemas digitais, de intermediários financeiros ou da credibilidade momentânea de um governo. Ele existe fora do alcance direto do poder monetário estatal.
Preferir ouro a flores não é rejeitar o gesto, é compreender o risco. Em um mundo monetariamente instável, liberdade econômica e autonomia intelectual deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser condições práticas de independência.
Sempre que a confiança no dinheiro ou nos governos começa a ruir, o ouro retorna ao centro da conversa. Não como moeda, mas como memória histórica. Porque, em períodos de instabilidade, o que sustenta patrimônios não é promessa, e sim aquilo que resiste. E por isso, está ligado diretamente com a liberdade porque não depende de governo, não depende de banco e não depende de promessa. Ele é um ativo fora do sistema.
E, para nós mulheres, isso pesa ainda mais. Acostumamos carregar riscos invisíveis: interrupções de renda, dependência financeira e instabilidades. E é por isso que esse ativo funciona como a última camada de segurança. É o “se tudo der errado, eu ainda tenho isso”.
Os dados recentes reforçam esse papel. Após um forte desempenho em 2024 e 2025, o ouro acumulou uma valorização próxima de 65% em 2025, o maior ganho anual desde 1979. Segundo a CNN Brasil, apenas nos primeiros 26 dias de 2026, o metal já havia subido 15%, dando continuidade a um ciclo de demanda excepcional por ativos considerados seguros. Mesmo com correções pontuais no início de 2026, o rali se mantém em um cenário ainda carregado de incertezas globais.
Como destacou Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, esse movimento “reforça o ouro como um dos ativos mais relevantes do cenário internacional”, impulsionado pela recalibragem das carteiras de investidores que buscam proteção, algo visível também em gráficos recentes divulgados por casas como a XP.
O metal tem reafirmado seu papel como ativo defensivo global. Investidores recorrem ao metal como hedge contra inflação, volatilidade e riscos sistêmicos. E não são apenas investidores privados. Entre setembro e dezembro de 2025, o Banco Central brasileiro reduziu suas reservas em dólar em cerca de 12% e aumentou as reservas em ouro em aproximadamente 33%, seguindo um movimento global de diversificação monetária.
Países vendem dólares e compram ouro. Pessoas físicas, mesmo em pequenas quantidades, começam a fazer o mesmo. Não por expectativa de ganho rápido, mas por prudência. Porque o ouro não é um ativo de crescimento, é um ativo de permanência. Ele pode cair em janelas curtas, mas, em ciclos longos, não desaparece.
Por isso, analisá-lo como se fosse uma ação é um erro. Reserva não existe para performar todos os anos. Existe para estar lá quando você precisa. Assim como a liberdade financeira não é euforia, é estabilidade. Não é ausência de risco, é não ser refém dele.
Flores são consumo. São gestos gentis, bonitos e simbólicos, e têm seu valor. Mas duram pouco. Quando o assunto é independência, flores não sustentam. O ouro vira prudência. Um colar de ouro não é apenas adorno. É patrimônio. Pode ser usado, guardado, vendido ou transferido. Não depende do humor do mercado, de governos ou de discursos bem-intencionados.
Não se trata de romantizar o metal, mas de entender o que ele simboliza: autonomia. Em tempos de estabilidade, flores encantam. Em tempos de crise, é o ouro que permanece. Por isso, quando falamos de apoio real à independência feminina, não falamos de gestos simbólicos. Falamos de escolhas prudentes, daquelas que protegem hoje e amanhã.
Não me dê flores. Me dê ouro. Porque além de belo, ele sustenta.
*Clara Albuquerque é economista e líder do Ladies of Liberty Alliance (LOLA) Rio de Janeiro, onde atuou anteriormente como colíder.


