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Autoritarismo, crise institucional e ruptura política na Venezuela

Venezuela

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Por Geisiele Melo e Ana Clara Caetano*

Desde a ascensão de Nicolás Maduro à presidência da Venezuela, em 2013, após a morte de Hugo Chávez — uma das figuras políticas mais carismáticas da América Latina contemporânea —, o país passou a enfrentar uma profunda crise política, econômica e social. Esse cenário foi acompanhado por um processo gradual, porém consistente, de concentração de poder no Executivo, amplamente documentado por organismos internacionais, que apontam para o enfraquecimento progressivo da separação de poderes e da autonomia das instituições democráticas¹.

A crise venezuelana se agravou de maneira significativa a partir de 2015, quando a oposição conquistou, pela primeira vez desde 1999, a maioria das cadeiras da Assembleia Nacional (AN). Esse resultado eleitoral marcou o início de um conflito institucional aberto entre o Legislativo e o Executivo. Em resposta, o governo passou a recorrer de forma reiterada a estados de exceção, leis habilitantes e decretos presidenciais, frequentemente respaldados pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ). A independência do Judiciário passou a ser amplamente questionada, sobretudo após a nomeação de novos magistrados alinhados ao governo, utilizados para bloquear sistematicamente o exercício das competências constitucionais da Assembleia Nacional².

O ápice dessa crise institucional ocorreu em março de 2017, quando o TSJ decidiu assumir as funções legislativas da Assembleia Nacional. A oposição e diversos atores internacionais denunciaram a medida como um “golpe de Estado” e uma ruptura definitiva da ordem constitucional, agravada pelo contexto de disputas envolvendo a posse de três deputados indígenas eleitos pela oposição³.

Paralelamente à deterioração institucional, o regime de Maduro aprofundou mecanismos de controle social e repressão política. As eleições presidenciais de 2018 foram amplamente contestadas pela oposição e pela comunidade internacional, o que levou, em 2019, ao reconhecimento de Juan Guaidó como presidente interino por diversos países. Nesse período, o governo aprovou legislações que ampliaram o controle estatal sobre a sociedade civil, incluindo a chamada Lei contra o Ódio, normas restritivas à atuação de organizações não governamentais e dispositivos que criminalizam o apoio a sanções internacionais. Missões da ONU e organizações de direitos humanos documentaram um padrão sistemático de prisões arbitrárias, perseguição a opositores políticos e ausência de garantias de devido processo legal. Segundo o Foro Penal, centenas de pessoas permaneceram presas por motivações políticas ao longo desse período.

A tensão política atingiu um novo patamar após as eleições presidenciais de julho de 2024. A oposição, representada por Edmundo González e María Corina Machado, apresentou provas de vitória eleitoral que não foram reconhecidas pelo regime de Maduro, que se autoproclamou vencedor. O resultado foi amplamente contestado por observadores eleitorais e pela comunidade internacional, aprofundando o isolamento diplomático do governo venezuelano e intensificando a instabilidade interna.

Nesse contexto de prolongada crise democrática, repressão institucionalizada e contestação eleitoral, a destituição de Nicolás Maduro ocorreu em 3 de janeiro de 2026, após uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump. Trump já havia adotado, durante seu primeiro mandato (2017–2021), uma política de forte pressão contra o regime venezuelano. Em 2026, essa política culminou na captura de Maduro e em sua transferência para os Estados Unidos, onde passou a responder a processos perante a Justiça federal norte-americana.

Especialistas em relações internacionais apontam que a decisão de Washington foi motivada por múltiplos fatores. Entre eles destacam-se os interesses estratégicos ligados ao petróleo — dado que a Venezuela possui a maior reserva comprovada do mundo —, o discurso de restauração da democracia, a retomada de uma lógica associada à Doutrina Monroe e, sobretudo, o argumento do combate ao narcotráfico transnacional, enfatizado pelo governo norte-americano como justificativa central para a intervenção.

A intervenção dos Estados Unidos foi recebida de forma ambígua pela comunidade internacional e pela sociedade venezuelana. Enquanto diversos governos e organismos multilaterais expressaram preocupações quanto à soberania e à legalidade da operação, parte significativa da população venezuelana no exterior — especialmente refugiados e exilados políticos — interpretou a ação como uma oportunidade para o fim da repressão e o início de um processo de reconstrução democrática. Nesse contexto, casos emblemáticos de perseguição política ganharam destaque, como o de María Oropeza, ativista e dirigente da oposição detida arbitrariamente em agosto de 2024, sem mandado judicial, cujo caso se tornou símbolo da deterioração das liberdades civis no país.

Quanto ao futuro político da Venezuela, Donald Trump anunciou que o processo de reorganização do país ocorreria em três fases: estabilização econômica, abertura política com libertação de presos políticos e uma transição institucional ordenada. Embora a libertação inicial de alguns presos políticos tenha reacendido expectativas de mudança, persiste o entendimento de que a destituição de Maduro, por si só, não equivale à superação imediata do regime autoritário. O ex-presidente contava com o apoio de amplas estruturas institucionais internas, cuja desarticulação representa um desafio complexo e prolongado.

Dessa forma, o futuro da Venezuela permanece incerto. Apesar da pressão internacional e da mobilização da oposição, a herança autoritária, a fragilidade institucional e as profundas cicatrizes deixadas pelo regime continuam a representar obstáculos significativos para a consolidação de uma transição democrática sustentável.

*As autoras são associadas ao Ladies of Liberty Alliance (LOLA Brasil)

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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