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A queda de Maduro e o dever liberal de enfrentar a tirania.

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Por Yuri Quadros*

O ditador da Venezuela caiu. Dedico esta coluna ao ativista venezuelano Jesús Armas, que foi meu colega na Atlas Network, foi preso pelo regime em 10 de dezembro de 2024 e, até onde se sabe, continua até hoje como refém político.

Começamos o ano com uma operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, bombardeando diversos locais (incluindo o museu do golpe e o túmulo do Chávez) e extraindo o usurpador e presidente ilegítimo Nicolás Maduro. Como era de se esperar, isso virou o tema da semana em todas as redes sociais — e me pareceu condizente que fosse também o tema da minha primeira coluna de 2026.

Durante as festas de fim de ano, comentei com a minha família, numa daquelas calorosas discussões de mesa, que achava que Maduro não duraria até o meio do ano. Acabou sendo mais rápido do que eu pensei. Agora, segundo as informações divulgadas, ele está no estado de Nova Iorque respondendo por crimes como conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, e conspiração para posse desses mesmos armamentos e dispositivos.

Era de se esperar que a esquerda fosse contra a operação americana e esperneasse falando sobre imperialismo, quebra de soberania e que Trump só está de olho no petróleo. O que me surpreendeu foi ouvir variações do mesmo argumento vindas de liberais, e até de libertários, que dizem prezar pela liberdade. Alguns receiam “legitimar golpes”; outros sugerem que defender a derrubada de um ditador, especialmente com apoio externo dos EUA, seria trair princípios liberais por que isso é dar poder demais ao Trump. Houve ainda a crítica clássica da professora comunista da quinta série: “Trump não está interessado na liberdade do povo venezuelano; só quer petróleo — e o resultado será uma ditadura imperialista alinhada aos EUA”.

Entendo o receio de “dar poder demais aos EUA”. Um Estado que intervém hoje pode abusar amanhã. Mas esse argumento falha quando vira veto automático, porque confunde aprovar um resultado justo com dar cheque em branco ao interventor. Um liberal coerente pode defender a remoção de um tirano e, simultaneamente, exigir limites claros: objetivo restrito, proporcionalidade, plano de saída e legitimidade local. A alternativa de lavar as mãos não reduz o poder no mundo: só preserva o poder do tirano e fortalece seus padrinhos externos.

Então vamos ao sapo laranja no meio da sala: o Trump. Existe interesse no petróleo venezuelano? Com toda certeza, seria ingenuidade fingir o contrário. Talvez esse tenha sido, inclusive, um dos grandes motivadores. Mas apontar isso como a única motivação do presidente americano é ignorar o que sua gestão tem falado e feito, inclusive documentos e diretrizes oficiais — em especial o National Security Strategy — que tratam a Venezuela como parte de um conflito geopolítico muito maior envolvendo regimes antiocidentais e alianças criminosas. De todo modo, independentemente do que motiva o governo Trump, é relevante notar: houve apoio popular e também o apoio político de lideranças oposicionistas reconhecidas, como Edmundo González Urrutia, presidente legítimo da Venezuela, eleito em 2024. A grande questão que fica é se os EUA vão conseguir fazer — ou contribuir — para uma transição minimamente estável, como conseguiram em casos históricos como Japão e Coreia do Sul no século passado, sem cair na tentação de tutelar indefinidamente o país.

Agora indo ao cerne ético: por que deveríamos temer um golpe de Estado para tirar um ditador? Ou temer que esse golpe conte com ajuda de outros países?

A tradição liberal nasceu, em boa medida, do reconhecimento de que a legitimidade política é condicional. Para autores como John Locke, um governo deixa de ser governo quando se torna tirania — isto é, quando rompe a finalidade para a qual existe: proteger vida, liberdade e propriedade. Quando um regime se instala contra o consentimento dos governados, destrói a alternância de poder, persegue opositores e captura o Estado para fins criminosos, ele entra, na prática, em um estado de guerra contra o povo. E se há guerra contra inocentes, há direito de defesa.

O próprio nascimento dos Estados Unidos foi, por definição, uma ruptura política — e contou com ajuda externa decisiva. Os franceses não entraram por “altruísmo puro”; entraram por interesse. Ainda assim, sem a ajuda francesa, a história poderia ter sido outra. O ponto aqui é simples: a liberdade real quase nunca nasce em condições perfeitas, e insistir em pureza absoluta costuma ser um luxo de quem não vive sob um regime de força.

Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência, escreveu a frase famosa: “The tree of liberty must be refreshed from time to time with the blood of patriots and tyrants.” Eu não tomo isso como uma apologia romântica da violência — tomo como uma lembrança desconfortável de que tiranos raramente saem por boa vontade e de que, quando eles saem, é porque alguém impôs custo.

E aqui entra um ponto que parte do debate liberal/libertário parece esquecer: não existe “neutralidade moral” diante de uma tirania consolidada a mais de 20 anos. A omissão é uma escolha. Dizer “não me envolvo”, quando se trata de um regime que prende, tortura, censura, expropria e mata, é muitas vezes apenas trocar o risco do presente pelo conforto da distância. Liberais clássicos sempre entenderam que a resistência à tirania é legítima; a divergência é sobre meios, prudência e limites — não sobre o princípio.

Do ponto de vista libertário, o raciocínio também pode ser direto: se o princípio básico é a não agressão, então um Estado que vive da agressão (prisão política, terror, censura, confisco, violência institucional) é um agressor em escala máxima. A pergunta libertária séria não deveria ser “a derrubada de um tirano é ilegítima?”, mas sim: “como derrubar um tirano sem criar um mal maior?”. E isso pede critérios, não slogans.

E aí eu volto à realidade concreta: sem a ajuda dos Estados Unidos — seja com uma operação como essa, rápida, direta e eficaz — como o povo venezuelano poderia se ver livre de tal regime? Deveria a população, carregando colheres e garfos (porque foi completamente desarmada), avançar em direção ao Palácio de Miraflores e pedir que o ditador Maduro se retirasse, desmontando por gentileza toda a estrutura de narcotráfico que parasitava o país?

Se esse fosse o caminho, talvez a árvore da liberdade fosse tão regada com sangue de patriotas que, como qualquer planta que recebe água demais, acabaria sufocada — sem ninguém sobrando com coragem para defender coisa alguma. E mesmo que o sangue de mártires inspirasse coragem suficiente para o Exército se rebelar contra seus generais comprometidos com o crime e com a ditadura, qual seria o preço pago em vidas? Parece-me que, mesmo com interesses americanos no petróleo, pagou-se barato pela retirada de um tirano — e isso, para um liberal, não deveria ser um escândalo moral, mas uma constatação dura.

Claro: o assunto ainda é quente, há muita coisa para acontecer, e uma transição como essa terá problemas reais — inclusive o risco de substituição de um tirano por outro, a captura do processo por facções e a dificuldade de remover completamente a estrutura chavista das instituições venezuelanas, o que pode levar anos.

Mas é justamente aqui que a coerência liberal precisa aparecer: derrubar o tirano é o começo, não o fim. O dever moral dos defensores da liberdade é acompanhar o desenrolar, exigir limites, transparência e um plano de saída, e pressionar para que a Venezuela tenha eleições, imprensa livre, separação de poderes e reconstrução institucional. E, se no fim disso tudo tentar surgir um novo tirano — seja antiocidental, seja “amigo do Ocidente” — então, como bons defensores da liberdade, façamos aquilo que dizemos defender: que tal tirano também seja derrubado.

*Yuri Quadros é diretor do Instituto Aliança, conselheiro da Rede Liberdade e colunista do Boletim da Liberdade.

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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