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Medicina e Economia

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Por Marcus Vinicius Dias*

Dos dramas e desafios que um médico pode enfrentar na sua prática diária o câncer é, sem dúvida, um dos mais impactantes de se lidar. Seja pelo fato de ser uma doença que atinge a todas as idades _ desde a mais tenra criança, até ao mais idoso dos bisavôs _ ou pelo fato de trazer consigo um estigma de mortalidade e de sofrimento, o diagnóstico de uma neoplasia maligna abala ao paciente, à família, ao médico e, também ao sistema de saúde.

Lidar com algo sério como isto exige do médico um preparo técnico e humanístico impar, pois a precisão é determinante para o desfecho. Estar atento aos sinais precoces da doença, bem como aos fatores de risco para o seu desenvolvimento, fazem parte da semiologia básica. Do mesmo modo, uma vez feito o diagnóstico, há que se ser exato no estadiamento da doença, ou seja, classificá-la em termos de grau de evolução e prognóstico. E, por fim, instituir o tratamento que seja o mais custo efetivo ou, dito de outro modo, que promova a cura, mudando a história natural da doença, causando o mínimo de efeitos colaterais.

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Saber a dose certa e o remédio adequado para cada tipo de câncer não é trivial, por óbvio. Mas ainda mais difícil é saber o momento ótimo para iniciar o desmame até o ponto em que se chega a conclusão de que o tratamento teve êxito e o paciente encontra-se curado. Tratar demais, no dito sábio da vox populi, é o risco inaceitável de se morrer do remédio; tratar de menos é o caminho, trágico, para o retorno da doença, após já se ter passado pelo calvário. Podemos dizer, sem exagero, que dominar esta equação torna o oncologista um profissional diferenciado.

Desafio, também grande, que compete ao economista é enfrentrar a chaga maldita da inflação, que é a corrosão do valor da moeda, com consequente perda de poder de compra e, em última análise, geradora de pobreza social. Numa analogia com a medicina, pode-se dizer que a hiperinflação é um câncer metastático do tecido econômico de uma sociedade que, se não combatido, muitas vezes com medidas heróicas, pode, rapidamente,  levar a um estado terminal todo um país.

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Assim como no caso oncológico, a situação inflacionária exige do economista um senso aguçado para reconhecer os pródromos do descontrole de preços e, rapidamente, identificar o problema. Do mesmo modo, há que se instituir um plano terapêutico efetivo, atentar para a evolução do quadro e para a resposta da curva de inflação. E assim como é meticuloso para o médico determinar o remédio a ser prescrito, sua dosagem e seu tempo de uso, igualmente desafiador ao economista é escolher a tática do combate ao câncer da inflação. Mas o drama segue ao ter que decidir quando suspender o tratamento amargo do combate à inflação, sob pena de não causar mais dano ao paciente do que a própria doença.

O Brasil já teve no Ministério da Saúde um economista que se saiu bem frente aos desafios da medicina. Em situação análoga, o Ministério da Fazenda já foi liderado por um médico que enfrentou as chagas da macroeconomia e não fez feio. Na medicina, sinais de melhora em exames de imagem e de laboratório são marcadores da resposta do câncer ao tratamento, mas os sinais clínicos são fundamentais para se intuir sobre qual caminho a doença está tomando. Na economia, indicadores de atividade econômica e de preços ao consumidor, entre outros, são parâmetros importantes para se avaliar a evolução da inflação. E se na medicina temos um remédio com efeitos colaterais como os quimioterápicos, na economia o elixir amargo recebe o nome de taxa de juros. E se para o controle do câncer é fundamental a clínica como preditor de evolução, para a inflação o olhar para o aspecto fiscal torna-se, igualmente, mister. Manter a SELIC baixa frente a uma pressão inflacionária é o equivalente a tratar um câncer com subdose de medicação; na outra ponta, mantê-la por mais tempo do que o necessário para conter a subida de preços pode significar aquela sessão extra de quimioterapia que até elimina o câncer, mas leva junto também o paciente. E, nesse ponto, a máxima médica de que a clínica é sempre soberana é válida também para a economia.

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*Médico com MBA em Gestão em Saúde pela USP e Mestrado em Economia pelo IBMEC

Aviso

As opiniões contidas nos artigos nem sempre representam as posições editoriais do Boletim da Liberdade, tampouco de seus editores.

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