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‘A academia deveria zelar pela História, não aprisioná-la’, diz novo presidente da Biblioteca Nacional

Em entrevista exclusiva ao Boletim da Liberdade, Rafael Nogueira comentou os projetos concebidos para sua gestão, bem como os ataques que recebeu dos críticos

- Publicado no dia
Rafael Nogueira (Foto: Reprodução/Facebook)

Conhecido e admirado por brasileiros de todas as partes do país, tendo conquistado a atenção de muitos por sua participação intensa em documentários divulgados pela Internet ou nas redes sociais, o professor Rafael Nogueira recebeu da Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro, no começo de dezembro, a missão de comandar a Biblioteca Nacional.

As reações à sua indicação foram divididas. Se seu nome despertou o entusiasmo dos fãs de seu trabalho apaixonado de divulgação da cultura clássica e do passado do Brasil, particularmente de figuras do tempo do Império como José Bonifácio, por outro lado foi tratado por críticos como um “seguidor de Olavo de Carvalho” que promoveria uma guinada ideológica na Biblioteca.

O Boletim conversou com Rafael Nogueira para descobrir como ele enxerga o cargo que passou a ocupar e como vê as reações despertadas pelo anúncio de seu nome.

Boletim da Liberdade: Como se deu o processo de indicação do seu nome para o cargo?

Rafael Nogueira: Roberto Alvim conheceu o meu trabalho pelos documentários que ajudei a produzir sobre história do Brasil e soube que eu rodava o país dando aulas sobre livros clássicos. Depois, analisou meu currículo, e entendeu que eu tinha um bom perfil para a FBN.

Boletim da Liberdade: Foi feita alguma exigência, determinaram que seguisse alguma diretriz ou levasse adiante algum projeto?

Rafael Nogueira: Primeiro, tive que comprovar que atendia aos requisitos do cargo segundo a lei que regulamenta nomeações, o que foi tranquilo, porque além da minha formação ampla – estudei Filosofia, Direito, História; produzi textos, palestras, cursos, material audiovisual… –, tenho os anos necessários de experiência em uma instituição pública de cultura (assessorei duas gestões de Presidentes da Academia Santista de Letras).

Para começar o trabalho, era necessário que eu encaminhasse, com urgência, licitações que fizessem bom uso de recursos recém liberados pelo Ministério da Justiça por meio do Fundo de Direitos Difusos, o que já fiz assim que assumi, e deu certo, pondo em marcha obras de combate a incêndio e de reforma do prédio anexo.

Rafael Nogueira em frente à Biblioteca Nacional de Lisboa, que vê como exemplo de organização e segurança (Foto: Reprodução/Facebook)

Boletim da Liberdade: Em seu discurso de posse, você lembrou a importância dada às bibliotecas pelos monarcas portugueses e evocou um pouco da história da Biblioteca Nacional. Qual é, na sua concepção, o papel da instituição e o que ela pode representar no século XXI?

Rafael Nogueira: Além daquilo que consta no Regimento Interno, que mantenho e endosso, e que, em síntese, trata da preservação, controle e difusão da memória bibliográfica nacional, do registro das obras intelectuais, da cooperação nacional e internacional no que tange à missão da Biblioteca Nacional e na produção de pesquisa e conhecimento conectado com o acervo, na minha concepção, o papel da instituição no século XXI deve ser, também, o de prosseguir no esforço de aumentar o acesso ao seu tesouro cultural mediante a continuidade da digitalização de seu acervo e da inauguração de um espaço de fomento à leitura e de formação de bons leitores.

Boletim da Liberdade: Você assumiu adotando um discurso de conciliação, rejeição à ideologização das atividades da Biblioteca e visando ao investimento na formação de novos pesquisadores e fomento à leitura. Poderia explicar um pouco mais desses projetos e do que tem em mente para a Biblioteca?

Rafael Nogueira: A conciliação é uma característica da minha personalidade. Como conservador, prezo por ouvir o outro lado com boa vontade, principalmente em um ambiente onde há pessoas tecnicamente capacitadas.

A meu ver, uma gestão conservadora é precisamente uma gestão não ideológica, porque visa conservar o que está bom e restaurar – com prudência – o que é necessário, sempre com abertura a adaptações que não desmereçam a missão histórica da instituição. Minha impressão é que a FBN é um pouco menos afetada pelo aparelhamento ideológico da esquerda do que outros setores, mas os que tiverem essa intenção não contarão com meio apoio.

A meu ver, uma gestão conservadora é precisamente uma gestão não ideológica, porque visa conservar o que está bom e restaurar – com prudência – o que é necessário, sempre com abertura a adaptações que não desmereçam a missão histórica da instituição.

Na vocação formativa da FBN, como eu já disse, quero mesmo investir. É muito louvável deixar cada vez mais o acervo disponível a interessados e pesquisadores, mas é absolutamente necessário, num país com tantos problemas de alfabetização precária, que estendamos as mãos a crianças, jovens e adultos que queiram aperfeiçoar suas capacidades intelectuais e seus conhecimentos literários. Sem criar essa ponte, serão sempre poucos membros da elite que usufruirão dos bens culturais da FBN.

O meu sonho é expandir o acesso ao conhecimento pela expansão do treinamento que gera a capacidade de aproveitar o acesso. Sem isso, não colaboraremos para que os níveis de alfabetização se elevem. E, certamente, a médio prazo, esse esforço fará surgir toda uma nova geração de pesquisadores, que poderão transformar livros, manuscritos, partituras e imagens, antes indecifráveis, em conhecimentos socialmente digeríveis.

Boletim da Liberdade: Você acredita que sua participação nas produções da empresa Brasil Paralelo foi importante para a sua projeção? Em que medida? Alguns episódios da série “Brasil: A Última Cruzada” foram exibidos na TV Escola, o que provocou certa polêmica. Qual sua visão sobre isso?

Rafael Nogueira: Sem dúvida, minhas participações nas produções da Brasil Paralelo me fizeram mais conhecido, e levaram longe pensamentos amadurecidos em longos anos de estudo. Mas é bom lembrar que mesmo antes da minha primeira aparição num documentário (episódio dois do Congresso Brasil Paralelo) eu já tinha experiência na área cultural, já era professor de leitura de livros clássicos em Santos, São Paulo e Curitiba (depois expandi para mais umas dez cidades), era aluno do Olavo de Carvalho há uma década e já tinha lecionado para o ensino fundamental, médio, técnico e superior por sete anos, o que me tornava bem conhecido em alguns círculos.

Logo em seguida, fui um dos maiores colaboradores do filme “Bonifácio – O Fundador do Brasil”, feito pela produtora IVIN. Sobre a polêmica ligada à transmissão do nosso trabalho na TV Escola, aí sim, há ideologia. A polêmica é resultado do extremismo da ideologia e do partidarismo de quem quer o monopólio da história e não aceita estudos que não tenham passado pelas suas bancas examinadoras.

Rafael Nogueira na Conservative Political Action Conference, ao lado dos articulistas Flavio Morgenstern e Taiguara Fernandes e do assessor especial de Relações Internacionais do governo, Filipe Martins (Foto: Reprodução/Facebook)

Em todo o Brasil, pessoas me agradecem pelo meu trabalho, principalmente pelos vídeos do Brasil Paralelo, porque, dizem, fizeram-nos mais orgulhosos de serem brasileiros e mais interessados em história, o que os levou a comprar e ler muitos livros.

É evidente que isso colabora com a educação, ainda que se possa discutir um ou outro ponto por nós adotado ali. Aparentemente, o interesse maior de quem reclama não é educar, não é discutir democraticamente, não é entender o que pensamos e por que assim pensamos, é criar uma relação de submissão do povo à classe acadêmica, é pressupor que nós não estamos a par de grande parte da produção universitária a respeito dos tópicos de que tratamos, é ignorar que a academia tem seus limites, e que, historicamente, muitos trabalhos históricos relevantes vieram de fora de seus muros, é iludir-se de que representa “a ciência”, de que é a única voz autorizada etc.

É lamentável que ajam assim, porque embora seja inegável a importância da pesquisa universitária para o progresso das ciências, a História não é deles, a História não é patrimônio de qualquer classe acadêmica, é um patrimônio imaterial público. E eles nos acusam de muitas coisas, mas elitistas são eles por agirem assim.

A academia deveria zelar pela História, não aprisioná-la. Tinham que zelar absorvendo e discutindo todo conhecimento histórico, inclusive, o que vem de fora dela, e que não corresponde às suas exigências metodológicas (também passíveis de discussão e aprimoramento). Essa arrogância desmedida dos acadêmicos é como a velha hybris do mito grego: o vício grave que tem potencial destrutivo de nível cósmico, e que, portanto, traz, no mínimo, descrédito e decadência.

Boletim da Liberdade: Os críticos têm ressaltado sua vinculação com a monarquia e com o filósofo Olavo de Carvalho. Qual a sua relação com esses dois tópicos? Existirá alguma influência deles na sua gestão?

Rafael Nogueira: O professor Olavo de Carvalho, com quem estudei e ainda estudo, e a quem considero um amigo, tem sofrido uma maciça campanha difamatória por parte daqueles que querem o seu mal, sempre focando em seus posts de redes sociais, descontextualizados e mal-compreendidos, e não em sua enorme obra literária e docente. Identificar alguém com ele no meio dessa trama maliciosa, assim como dizer que seu alunato não passa de uma seita, ou de um grupo que defende o terraplanismo, é ampliar o alvo de maledicência criminosa.

Nada mais. Uma facilidade para quem ganha a vida com o “jornalismo” sem fazer jornalismo de verdade. Não são todos; estive com bons jornalistas esses dias, mas há muitos que se dedicam só a fofocar em público, prejudicando carreiras e reputações, e torturando famílias. Olavo merecia tratamento melhor.

Algo parecido se dá com a questão da monarquia.

Defender uma monarquia constitucional, parlamentar e democrática é uma ideia perfeitamente defensável. Há mais países bem-sucedidos debaixo desse modelo do que estruturados segundo os parâmetros da nossa Sexta República. Tenho horror aos “ismos” de qualquer natureza, mas tenho defendido que temos que aprender com a experiência política do século XIX, quase esquecida, só identificada, falsamente, com escravidão e autoritarismo, para alcançarmos nossa maturidade política. Isso inclui a discussão sobre modelos de estado. Se vamos preferir ou preterir República ou Monarquia, isso é consequência de discussão, não o ponto de partida.

Estudei no meu Trabalho de Conclusão de Curso a história da formação da República dos Estados Unidos da América, e sua constituição, com muito prazer e admiração. Mas a nossa República tem história diferente. É fato que ela começou de um golpe impopular. É fato que os escravagistas, contrários à lei áurea, apoiaram enfaticamente o pequenino movimento republicano.

É fato que, no Império, mais gente votava do que na Primeira República (pelo menos, antes da Lei Saraiva). É fato que D. Pedro II era mais republicano que muitos presidentes que tivemos. É fato que a Biblioteca Nacional, em sua versão anterior, signo de sabedoria ocidental acumulada, foi trazida ao Brasil por um rei português, e mantida aqui por insistência e esforço diplomático e econômico de D. Pedro I, nosso primeiro imperador. Entre muitas outras coisas que muitos preferem que fiquem esquecidas.

É fato que, no Império, mais gente votava do que na Primeira República (pelo menos, antes da Lei Saraiva). É fato que D. Pedro II era mais republicano que muitos presidentes que tivemos.

Até para termos uma República melhor precisamos enfrentar a verdade de que, muitas vezes, nossa República errou a mão no que a monarquia acertou. Isso não é ser um cego partidário da monarquia. É defender a dignidade de nossa própria experiência para melhor nos conduzirmos hoje, sem esquecer das vergonhas passadas, a maior de todas, sem dúvida alguma, a escravidão. Mas desse erro não podem me acusar: sou entusiasta da visão de José Bonifácio, vanguardista na luta contra a escravidão. Por ele, o Primeiro Reinado já teria abolido a escravidão, com total integração social dos libertos.

E, para terminar, respondo sua última pergunta: não haverá influência direta e pessoal de Olavo de Carvalho na minha gestão porque, primeiro, ele não ensinou nada especificamente sobre gestão pública, e, segundo, ele tem mais o que fazer, mas é claro que tudo o que aprendi com ele estará muito presente, como o pensar com liberdade, o amor pela literatura ocidental, e a dedicação a ela, o esforço caridoso de aproximar todos, inclusive os mais pobres e sofridos da cultura etc.

Não haverá, tampouco, qualquer influência direta de um “monarquismo” influenciando minhas decisões, a não ser, é claro, a base mesma que sustenta meu interesse pelo verdadeiro Brasil: o amor profundo que nutro pelo país, e pelos brasileiros, de ontem, de hoje e do futuro.

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