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Netflix não quis ter documentário do MBL no catálogo, revelam diretores do filme em entrevista exclusiva ao Boletim

Boletim da Liberdade conversa com os diretores do filme ‘Não vai ter golpe!”, documentário que se propôs a retratar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e os bastidores da criação e crescimento do MBL

- Publicado no dia
Fred Rauh e Alexandre Santos (Foto: Reprodução/Youtube)

O MBL lançou na última segunda-feira (2) o filme Não vai ter um golpe! – O Nascimento de um Brasil Livre em salas de cinema em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. O documentário se propõe a revelar a origem do movimento, o maior de viés liberal do país, e os bastidores da derrubada da ex-presidente Dilma Rousseff. Na última sexta (6), a produção chegou às principais plataformas on-demand como Google Play, iTunes e NET Now.

Para conversar sobre a iniciativa, o Boletim da Liberdade entrevistou os cineastas Alexandre Santos e Fred Rauh, diretores da produção e ativistas do movimento desde a origem. Dentre outros aspectos revelados, estão que o Netflix não demonstrou interesse em agregar a obra em seu catálogo e que até personalidades como Ciro Gomes, Dilma Rousseff e o ex-ministro José Eduardo Cardoso, do PT, foram convidados para darem suas versões no filme – e rejeitaram. Confira a íntegra da conversa abaixo:

Foto: Divulgação

Boletim da Liberdade: Como vocês avaliam os lançamentos que ocorreram em São Paulo, Rio e Curitiba e a reação do público ao filme?

Alexandre Santos: Foram super legais. Tiveram um público muito bacana. Aqui em São Paulo, foi um dia maior, com mais personalidades…

Fred Rauh: Também com mais pessoas que não eram do MBL.

Alexandre Santos: Também deputados, influencers da direita. A reação foi bem bacana. Para ser bem sincero, eu estava bastante interessado em ver a opinião das pessoas que não eram muito próximas do nosso núcleo, que não seriam passadoras de pano.

Fred Rauh: Muitos nem falaram pra gente que estava bom, mas depois se manifestaram no Twitter… e falaram pra todo mundo que gostaram. A repercussão foi bem boa.

Alexandre Santos: Teve muita gente que foi lá, já teve às vezes até posições críticas ao movimento, como o caso do Pedro Menezes, do [Instituto] Mercado Popular. Um cara que diversas vezes já criticou o movimento, etc, e foi, assistiu o filme e me disse: ‘cara, eu falei com o seu irmão aqui [Renan Santos], e disse que se eu achasse ruim, iria falar, mas achei bom e surpreendente’.

Fred Rauh: Quem também esteve no lançamento foi o [ex-ministro da Cultura] Sérgio Sá Leitão, que elogiou o filme. Disse que gostou bastante.

Alexandre Santos: Por enquanto, então, as reações têm sido muito positivas, assim como a análise da Folha de S. Paulo, a análise da Gazeta do Povo… por enquanto, avaliações positivas e, o mais importante de tudo: avaliações e interpretações que [confirmam o que] a gente buscou imprimir no filme. Porque às vezes o cara pode até criticar, mas o que a gente quis passar está entendido. Eu acho que isso é muito importante em um documentário que conta uma história como essa.


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Boletim da Liberdade: Quando o MBL decidiu que iria criar um filme sobre a própria trajetória? Quais etapas foram atravessadas até torná-lo real?

Fred Rauh: Tudo começou, na verdade, lá em 2014. Eu e o Alexandre tínhamos uma produtora juntos e a gente se juntou com um pessoal para montar um escritório. Daí, nasceu a campanha para deputado estadual do Raio Privatizador [do então candidato Paulo Batista, à época filiado ao PRP]. Disso, a gente viu que estava surgindo uma sinergia no grupo. Depois da vitória da Dilma, o Renan [Santos, irmão de Alexandre,] ficou muito puto e decidiu fazer uma manifestação. Foi daí que gerou aquela primeira manifestação do dia 1º de novembro de 2014. Nesse ato, a gente já chegou lá pra filmar, porque queríamos documentar tudo o que a gente fazia a fim de divulgação nas redes sociais.

Alexandre Santos: O que é natural. O grupo como um todo percebeu que a gente ia derrubar a Dilma. Existiu esse momento político que as pessoas estavam putas. Tinha algo aí. Então, automaticamente que a gente começou a trabalhar por isso, pela luta do impeachment, também resolvemos documentar. Afinal, a gente estava sempre com a câmera na mão. Então essas duas coisas correram juntas e é por isso que o documentário tem essa peculiariedade: contar a história do impeachment e também a história do MBL, porque elas se mesclam. O MBL, que existe agora com seus cinco anos de idade, tem sua fundação já na campanha do impeachment.

Boletim da Liberdade: A produção também teve entrevistados com posicionamentos divergentes dos do MBL diante dos fatos, como o Marcello Reis (Revoltados Online). Por que houve essa decisão? 

Alexandre Santos: Colocar o Marcello Reis, assim como pessoas do Vem Pra Rua, foi mais por uma questão de dar espaço a pessoas que foram agentes, protagonistas dessa história.

Fred Rauh: O Revoltados Online, por um bom tempo, tinha a página [do Facebook] com maior engajamento, né? Em termos de redes sociais, ele era realmente bem grande. Embora, na rua, em si, ele não levasse tanta gente como dá pra ver no filme. A população que não concordava com as ideias dele era maior, mas nas redes sociais ele tinha muito engajamento, era uma força na época.

Alexandre Santos: E a gente viveu algo com ele, como a gente mostra no início do filme, que diz muito também sobre o momento de agora. Ele representava também um público que tinha uma visão um pouco mais radical, uma vontade de resolver as coisas não da forma como o MBL acreditava que tinha que ser resolvido. Aliás: naquela época e como nós ainda entendemos que tem que ser resolvida agora, isto é, por meio das vias institucionais, né? Isso é também uma maneira de mostrar a coerência do MBL tanto em 2014 e que se seguiu até agora em 2019.

Fred Rauh: Então embora seja um filme que conte a trajetória do MBL, conta a trajetória do impeachment em si e como a nossa história se entrelaça. Mas, obviamente, a gente não ia deixar de fora as pessoas que participaram do processo junto com a gente, porque não é um filme só sobre o MBL. A gente tem a pretensão de contar um relato histórico do processo como a gente viu, como a gente viveu, e tudo o que a gente viu e viveu a gente viu também outros agentes participando disso. A gente coloca todos eles no filme.

A gente não ia deixar de fora as pessoas que participaram do processo junto com a gente, porque não é um filme só sobre o MBL. A gente tem a pretensão de contar um relato histórico do processo como a gente viu, como a gente viveu, e tudo o que a gente viu e viveu a gente viu também outros agentes participando disso.

Boletim da Liberdade: Alguém mais com pensamentos eventualmente diferentes foi procurado e não topou conceder a entrevista?

Alexandre Santos: Sim. No caso, várias pessoas da esquerda e ninguém topou. Mandamos convite para a Dilma, Ciro Gomes, líderes do PT…

Fred Rauh: Como o [ex-defensor de Dilma, José Eduardo] Cardozo…

Alexandre Santos: Ninguém resolveu dar entrevista pra gente.


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Boletim da Liberdade: A linguagem do documentário é bastante descontraída, lembrando a atuação do próprio MBL nas redes sociais e sua natureza de movimento jovem. Como foi feita essa escolha?

Alexandre Santos: No início do movimento, quando ainda éramos pequenos, apenas eu e o Fred é quem cuidávamos da parte estética, de vídeos. Então essa linguagem que existe hoje no movimento foi a gente que criou – claro, de modo colaborativo, porque o MBL tem essa questão de todo mundo dar ideia. Mas era uma veia que a gente tinha e isso desde a época da [campanha do] Raio Privatizador.

Fred Rauh: Na verdade, não foi uma escolha [esse estilo do documentário], mas sim foi um modo que sempre fizemos as coisas. Sempre teve esse estilo de edição, montagem, trilha sonora…

Alexandre Santos: Quem vive no ambiente do MBL vê que isso que você está falando está nas próprias pessoas. O ambiente do MBL aqui, tirando os dias pesados de batalhas em que a gente fica mais sério e estressado, é um ambiente muito da galera dando risada, descontraído… não é só uma linguagem, é o que nós somos. E como a gente fazia dessa maneira, o documentário é como se fosse pegar isso e transformar num material de duas horas. Não é que foi pensado: foi natural. No processo de criação, isso surgia nos nossos brainstormings com naturalidade, então pra gente não foi uma questão de planejamento.

Fred Rauh: A gente já fazia os vídeos na época, em cada ato que tinha a gente já fazia o vídeo pra lançar nas redes sociais, então essa linguagem já era natural. Portanto, tratou-se de fazer um compilado de duas horas do que a gente fez desde 2014.

Alexandre Santos, também conhecido como Salsicha, um dos diretores da produção (Foto: Reprodução/YouTube)

Boletim da Liberdade: O documentário registra um momento histórico, aborda a trajetória do movimento e também demarca uma posição da entidade sobre os debates atuais de narrativas. O documentário tem um papel no processo de perenização, ou renovação, do MBL?

Alexandre Santos: O filme tem uma função bem importante de mostrar que o MBL sempre foi coerente com as posições dele. Isso é mostrado ao longo do filme que, ok, teve um momento inicial do processo, marcado mais pela rebeldia e de atacar os políticos no geral. Mas, em certo momento, a gente teve que ir lá, procurar os parlamentares, e fazer o processo [do impeachment] pelas vias institucionais. Isso é um pouco do reflexo que está acontecendo agora. A gente entrou em uma série de brigas nos últimos meses justamente por defender isso, defender as reformas, defender que a gente precisa consertar o país por essas vias. É o mesmo conflito que acontece no início do filme, em que existe uma direita que procura um rompimento institucional e outra parte que procura as vias institucionais. Nesses cinco anos, o movimento teve seus erros como qualquer instituição ou pessoa, mas está sempre procurando seguir num mesmo norte ideológico, de conduta.


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Boletim da Liberdade: Existe a intenção de que esse seja apenas o primeiro filme e o MBL invista em novas produções, como outros grupos liberais e conservadores têm feito recentemente? 

Alexandre Santos: Sim, esse é o primeiro filme. Nós estamos inaugurando um selo, que é o MBL Filmes, e a gente planeja sim fazer novas obras, abordar novos temas. Não temos nada em pauta no momento, mas vamos pensar isso depois dessa fase, agora, de divulgação nas plataformas e, digamos, vendas do filme.

Existiu esse momento político que as pessoas estavam putas. Tinha algo aí. Então, automaticamente que a gente começou a trabalhar por isso, pela luta do impeachment, também resolvemos documentar.

Boletim da Liberdade: O filme deve ser disponibilizado em quais as mídias para o grande público e em que data? Há, por exemplo, negociação para colocá-lo no Netflix?

Fred Rauh: O filme deve ser disponibilizado a partir de hoje [N.E.: a entrevista foi gravada na quinta-feira, 5 de setembro] nas plataformas digitais de streaming. Tem o Net Now, Vivo Play, Oi TV, iTunes, Google Play – que abrange o YouTube – e o Looke. Então, nesse primeiro momento, será on-demand, ou seja, por clique mesmo, com valor em torno de 6 ou 7 reais para alugar nessas plataformas e a gente tem intenção em colocar também, mais para o final do ano, em algum streaming por assinatura. Mas provavelmente não no Netflix. Lá vai rolar não…

Alexandre Santos: Na verdade, ela não nos quis. Essa é uma questão mais editorial. Se você analisa os conteúdos originals da Netflix, você percebe que há uma vertente ideológica. Eles são uma empresa privada, é uma questão de escolha deles e eles estão no completo direito. Eu acho que seria bacana [terem o nosso filme], pois eles colocaram Democracia em Vertigem lá, que tem uma veia política e um lado muito claro. Portanto, poderia ter o outro. Seria muito interessante que fosse o nosso, mas a gente tem que respeitar a decisão deles. Mas acho que isso vai impactar, e acho que já impacta, no faturamento deles – alguma hora essa conta vai chegar.

Lançamento do filme do MBL (Foto: Reprodução/YouTube)

Boletim da Liberdade: Por fim, obrigado pela entrevista e uma pergunta final: por que o brasileiro deveria assistir ao documentário do MBL?

Alexandre Santos: Eu que agradeço a oportunidade. O brasileiro tem que assistir ao documentário do MBL para saber quando começou o impeachment, como que foram uma série de personagens, pessoas que foram importantes, o que elas tiveram que fazer, abrir mão e sofrer. Saber que o impeachment não começou em 2016 ou quando o Cunha acolheu ele, mas teve muita coisa, luta, barreiras antes disso. Barreiras do sistema, da imprensa, do mundo político, da oposição da época. Tivemos Aécio Neves, por exemplo, lutando contra o impeachment. As pessoas precisam saber disso até para poder defender o impeachment. Para que as pessoas possam saber explicar, de fato, por que não tratou-se de um golpe. Para quem está dentro da política, é muito fácil saber, mas às vezes a pessoa apoiou [o impeachment] e não consegue explicar. Então quem assistir esse filme saberá explicar, entender o quão legítimo foi esse processo, e de quebra também ter uma luz para saber o que é de fato o MBL. Quem está por trás? Há um super-financiador, uma pessoa por trás organizando tudo? Ou é um movimento que foi criado por meia dúzia de moleques que estavam meio sem rumo?

Fred Rauh: Não só quem apoiou o impeachment, mas quem não apoiou o impeachment, tem a chance [de pelo documentário] olhar o outro lado e ver um relato verídico do que aconteceu aos olhos das pessoas que estavam do outro lado, a favor do impeachment. Bem como poderem ver a verdade contada pelos agentes ativos do processo e não por relatos de imprensa ou de pessoas que nem sabem direito o que estão falando e propagam, aí, mentiras para colocar alguma opinião na cabeça das pessoas. Agora, elas podem ver o que de fato aconteceu, ocorreu. O filme está bem dinâmico e divertido e tenho certeza que, quem assistir, não vai se entendiar como se entendiou em Democracia em Vertigem (Netflix, 2019).

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