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‘Isso que se está discutindo hoje, podia ter resolvido no primeiro mandato de FHC’, afirma economista Ubiratan Iorio

Em entrevista ao Boletim da Liberdade, o professor expôs os principais pontos da Escola Austríaca e avaliou governo Bolsonaro, relatando as principais dificuldades para a implementação da agenda liberal no governo.

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Ubiratan Jorge Iorio (Foto: Reprodução / Youtube)

A agenda liberal de reformas no Brasil enfrenta grandes resistências à sua aprovação, seja por setores corporativos organizados da sociedade, seja por grupos do Legislativo – o denominado Centrão. Por outro lado, é de se constatar que nunca o liberalismo esteve tão próximo de ser efetivamente posto em prática no Brasil, apresentando propostas que podem revolucionar o ambiente de negócios, como a MP 870.

O ambiente do debate público também vem sofrendo importantes mudanças, com a crescente visibilidade de think tanks e pesquisadores voltados para o estudo e divulgação do pensamento liberal. Entre esses institutos se destacam o Instituto Mises Brasil, que organizou em meados deste mês a VI Conferência de Escola Austríaca na Universidade Mackenzie em SP. O evento contou com os principais nomes, nacionais e internacionais, da academia, mídia e política sobre a Escola Austríaca, escola composta por expoentes do liberalismo econômico, como Ludwig von Mises e F. Hayek.


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O Boletim da Liberdade entrevistou o professor de economia recém-aposentado da UERJ, Ubiratan Iorio, um dos palestrantes da VI Conferência de Escola Austríaca. O professor é autor de obras expositivas da Escola Austríaca, como Ação, Tempo e Conhecimento e Dos Protoaustríacos a Menger: Uma breve história das origens da Escola Austríaca de Economia, sendo uma das referências acadêmicas pioneiras deste pensamento no Brasil. Envolvido em inúmeras atividades e projetos liberais durante mais de três décadas, o professor austríaco expôs ao Boletim da Liberdade os principais pontos da Escola Austríaca, comparando-os às demais escolas de pensamento econômico mainstream. Iorio também avaliou o governo Bolsonaro e a gestão de Paulo Guedes, relatando as principais dificuldades para a implementação da agenda liberal no governo.

Boletim da Liberdade: Em primeiro lugar, agradeço a oportunidade pela entrevista. O senhor foi um dos primeiros expoentes do pensamento austríaco na academia brasileira, antes mesmo de ela entrar em popularidade. Tendo acompanhado durante vários anos este pensamento, dando aulas e palestras e publicado obras importantes no Brasil sobre ele, por que estudar a Escola Austríaca?

Ubiratan Iorio: Primeiro, a Escola Austríaca é uma escola liberal na economia. Mas isso por si só não responde à pergunta, porque existem outras escolas liberais, como a Escola de Chicago e a economia neoclássica. A nossa preferência pela Escola Austríaca vem muito de seus aspectos teóricos. A Escola Austríaca tem uma visão da teoria econômica diferente da Escola de Chicago. A Escola Austríaca estuda economia não de uma maneira isolada, mas inter-relacionada com outras ciências humanas, como o direito, a sociologia, a ciência política e a psicologia.

Então, quando você estuda a Escola Austríaca, apesar de ser uma escola de economia, você não está estudando só economia, mas também alguma coisa das outras áreas. Então isso dá um embasamento cultural aos austríacos bastante superior. Porque nas outras vertentes teóricas, a escola monetarista e neoclássica, se estuda bastante teoria econômica, e só. Minha formação foi essa. Eu terminei o meu doutorado na Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio e eu era um monetarista. Depois eu passei a ser um economista do monetarismo mais moderno, que foi a chamada escola de expectativas racionais. Eu só fui ser austríaco depois, de cinco a seis anos depois de terminar o doutorado. Só daí que eu percebi a diferença. Mas eu ressalto que é importante para um economista conhecer não somente a escola austríaca como também outras escolas. Aí é que ele vai sentir essa diferença.


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Boletim da Liberdade: O senhor já se considerou, durante os anos 80, como monetarista alinhado ao pensamento de Chicago de Friedman, tendo incorporado gradualmente a visão praxeológica de Mises e dos austríacos. O que teria motivado esse abandono das ideais monetaristas de Chicago?

Ubiratan Iorio: No meu caso foi bastante curioso. Um ex-professor meu, que na época era diretor do Instituto Liberal do Rio de Janeiro, o Og Leme, me emprestou o livro Ação Humana. Eu respeitava muito ele, tinha sido aluno, ele já tinha uma certa idade. Eu folheei o livro e daí pensei com os meus botões. Eu era um economista bem técnico, com formação matemática e econometria. “Puxa, isso aqui não pode ser um livro de teoria econômica, não tem nenhum gráfico e nenhuma equação”. Mas quando chegou pela página 50 e 60, eu já estava me interessando. “Legal, isso aqui é interessante”. Até na página 100 eu já tinha me convertido em um austríaco. Por quê? Porque ele aprofunda muitas coisas, não se limitando só no aspecto econômico. E não foi só isso.

A Escola Austríaca descreve a economia do mundo real. Porque ela usa uma metodologia teórica que é diferente da metodologia das outras escolas, que é muito técnica. Você não pode tratar ações humanas, as coisas que fazemos na nossa vida, por meio de equações matemáticas. Às vezes você não tem dinheiro e mesmo sem ter dinheiro você compra alguma coisa que você quer comprar porque quer e se endivida todo. Isso não é racional, mas como você vai explicar isso? A Escola Austríaca descreve a economia do mundo real como é. E acho que é isso que deve importar para um economista. Para que estudar economia? Para ficar dando aula em cursos de doutorado, fazendo um monte de regressões, estimativas e de modelos? Não, para melhorar a vida das pessoas.

A Escola Austríaca, é claro, não é perfeita. Tem muitas coisas que precisam ser aperfeiçoadas. Não podemos ficar presos somente a Mises e Hayek. Eles deram a contribuição deles, importantíssima, mas temos que seguir o nosso caminho. A Escola Austríaca não é perfeita, mas de todas as existentes, a meu ver, é a que melhor explica a realidade.

John Maynard Keynes, Friedrich Hayek (Escola Austríaca) e Milton Friedman (Chicago/Monetarista) (Foto: Reprodução / Verdade Estampada)

Boletim da Liberdade: Os ortodoxos também ressaltam a importância do tripé macroeconômico, implementado no governo FHC (1995-2002), como um dos principais fatores de estabilização econômica e monetária do Brasil nos anos 90 e 2000. Este tripé seria baseado em uma política econômica composta por câmbio flutuante, superávits primários e metas de inflação. Quais são os pontos em comum e divergentes entre os austríacos e os ortodoxos sobre o tripé macroeconômico?

Ubiratan Iorio: Em primeiro lugar, vamos falar das convergências. Quanto a esse tripé, não há discordâncias. O tripé fiscal é essencial. É a discussão que está hoje, sobre a previdência. Quanto ao monetário, também não há divergência. Embora a gente pode discordar do método, quanto ao sistema de metas de inflação. Logo, não há discordâncias em relação ao tripé. A discordância vem depois. O Plano Real foi de fato um plano muito bem feito de controle da inflação. Aquela ideia da URV e do superindexador foi brilhante. Mas os criadores do Plano Real não são e não eram economistas que possamos chamar de liberais.

A Escola Austríaca descreve a economia do mundo real como é. E acho que é isso que deve importar para um economista. Para que estudar economia? Para ficar dando aula em cursos de doutorado, fazendo um monte de regressões, estimativas e de modelos? Não, para melhorar a vida das pessoas.

Por que eu digo isso? Porque do tripé só duas pernas funcionaram. Uma foi a perna monetária, com a criação da moeda Real, e a cambial. A perna cambial consistiu, no início, no sistema cambial de bandas, quando Gustavo Franco foi presidente do Banco Central, durante o primeiro mandato de FHC. No segundo mandato passou a ser câmbio flutuante, mas nem tanto, com Armínio Fraga no Banco Central. Tanto Armínio quanto Franco foram economistas muito competentes. Mas o que furou tudo foi a terceira perna, a fiscal. Por que furou? Porque o partido PSDB não é um partido liberal. Fernando Henrique, quando foi eleito no primeiro mandato, tinha tudo para fazer as reformas. Isso que se está discutindo hoje, podia já ter resolvido naquela época, pois era muito mais fácil. Fernando Henrique era muito menos odiado do que o Jair Bolsonaro.

A esquerda, certa parte dela, morre de amores por FHC. Porque ele é de esquerda e sempre foi. Mas ele, ao invés de se concentrar em coisas como a privatização da Petrobras, dos Correios, e tocar a agenda liberal, preferiu investir metade do primeiro mandato para aprovar a emenda da reeleição. Aí a coisa se perdeu, a perna fiscal não funcionou, e de lá para cá se foi de remendo em remendo, no segundo mandato dele. Pega um pouquinho aí, faz meia sola ali, uma meia reforma. E quando entrou o PT, a coisa degringolou de vez. No início, o Lula com o Palocci, eles até se seguraram, para não assustar muito, pois as pessoas tinham medo dele. Mas depois, especialmente a partir da metade do segundo mandato do governo Lula e todo o período do governo Dilma Rousseff, o setor público só inchou. Até chegar no ponto que estamos aí. Deixaram a bomba para explodir. A bomba da inflação já tinha explodido. Mas essa bomba fiscal é para ser desarmada.

Ubiratan Iório (à esq.) responde perguntas da plateia mediadas pelo professor Adriano Paranaiba (à dir.) (Foto: Boletim da Liberdade)

Boletim da Liberdade:  O senhor já mencionou que foi no início muito hostilizado por pares no meio acadêmico, sendo as ideias austríacas tratadas como algo “exótico”, e até mesmo “pseudo-ciência”. Por que essa hostilidade na academia?

Ubiratan Iorio: O método que prevaleceu, pelo menos a partir dos anos 30 na academia, foi o método da economia positiva, como o Milton Friedman chamava. Uma economia matemática, baseada em modelos. E focada em montar o modelo e rodá-lo com os dados. E conforme o resultado dos modelos rodados, a gente diz o que é válido ou não. E a Escola Austríaca nunca fez isso. Ela acha que a Estatística, Econometria e a Matemática podem ajudar a entender o passado. Pode e deve usar os dados para explicar o passado, mas nunca para prever o futuro. E isso acabou prevalecendo na economia.

De três ramos até então existentes sobre economia, dois acabaram prevalecendo. Um ramo é o dos neoclássicos, que são os monetaristas e keynesianos, que usam essa abordagem matemática. E o outro é o dos marxistas, que não usam matemática, ou passaram a usar mais tarde de maneira comedida. O terceiro ramo, a Escola Austríaca, praticamente desapareceu da academia depois da Segunda Guerra. E o Hayek nessa época, quando foi dar aulas na Universidade de Chicago, foi colocado para lecionar na faculdade de Ciências Políticas. Diziam que não era uma escola de economia, pois não tinha matemática. Essa é a principal razão.

Então, na academia brasileira o que acabou por predominar foram essas duas escolas que prevaleceram. E nas federais públicas, você tem um domínio quase completo de marxistas e de mainstream, que são os não-monetaristas keynesianos e neokeynesianos. Os monetaristas são minoria nas universidades públicas. E, por incrível que pareça, os austríacos têm que apoiar essa minoria de monetaristas. Pelo menos eles estão propondo medidas que os austríacos acham corretas. Eu não cheguei a ser hostilizado, mas eu senti muitas vezes um certo desdém. “Isso não é ciência”. Porque o paradigma de ciência que ficou na cabeça dos economistas foi o Samuelson, do artigo dele de 1947. E do Friedman, do início dos anos 50, no seu artigo “Ensaios em Economia Positiva”. A economia mainstream diz que a Escola Austríaca não tem teoria econômica, sendo uma economia puramente intuitiva.

De três ramos até então existentes sobre economia, dois acabaram prevalecendo. Um ramo é o dos neoclássicos, que são os monetaristas e keynesianos, que usam essa abordagem matemática. E o outro é o dos marxistas, que não usam matemática, ou passaram a usar mais tarde de maneira comedida.

Boletim da Liberdade: Com a disseminação das obras de Mises e Hayek no Brasil, e as iniciativas acadêmicas recentes como a Revista Mises, você avalia que hoje há uma maior abertura ao pensamento austríaco?

Ubiratan Iorio: Sim. Está maior, mas ainda não chegou na universidade pública. Mas você tem muitos cursos oferecidos. Não só pelo Instituto Mises, mas grupos de estudo. Outro dia fiquei surpreso. Em Campos, no Rio de Janeiro, criaram um grupo de estudos e colocaram o meu nome. Creio que o próximo passo é entrar na universidade pública. Tem alguns professores, em algumas universidades públicas, que são austríacos. Mas ainda é uma gota no oceano. Uma formiga comparada com um elefante. Mas isso vai mudar. Esperamos que isso vá mudar, pois é um movimento muito forte.

Ubiratan em evento do Instituto Mises Brasil (Foto: Reprodução / Wikipedia)

Boletim da Liberdade: Nesta semana, o Boletim Focus do Banco Central revisou as projeções de crescimento do PIB pela décima vez seguida. Especialistas consideram que, se mantivermos crescimento baixo, o desemprego não deve retornar a um dígito antes dos anos 2020. Mesmo com a vitória de um candidato com viés liberal, com uma agenda econômica liberalizante, as incertezas e o pessimismo dos empresários sobre a economia continuam. De onde vem tanto pessimismo sobre a economia?

Ubiratan Iorio: Sem dúvidas por causa das resistências de natureza política à agenda do Paulo Guedes. Quanto mais se adiam as privatizações, a reforma da previdência e a reforma tributária, todas essas medidas liberalizantes, maior a incerteza. Muitos pensam “Será que ele vai conseguir fazer as reformas?” Ou então “ele vai conseguir atingir uma economia de R$1 trilhão com a reforma da previdência ou ficar só em R$600-700 bilhões? ” Isso cria uma incerteza tão grande que até um dos palestrantes explorou isso na Conferência, o Paulo Ghedini. São profecias autorrealizáveis, expectativas racionais. “Ih caramba, ele não vai conseguir”, daí eu não vou investir. Porque era preciso a proposta fosse muito clara desde o início, e que não houvesse essa resistência, que é até impatriótica. O sujeito lá dentro do Congresso pode ser de esquerda, e é até bom que tenha, de todas as matizes ideológicas. Mas é preciso ser patriota, tem que pensar no Brasil. E você não está vendo isso acontecer lá. Você está vendo pessoas pensando só em fazer oposição por fazer oposição, para o governo não ser bom e daqui a 4 anos eles voltarem. É triste você ver isso.

E por outro lado, também devemos fazer as críticas ao governo. Em termos de comunicação, o governo está deixando muito a desejar, no meu modo de ver. Eles deveriam estar explicando há muito tempo o que é essa reforma da previdência, e como vai ser. No Chile fizeram isso. No Chile o ministro ia todo dia para a televisão, para explicar como ia ser a reforma da previdência. E aqui você tem alguns sinais contraditórios, por parte do mesmo governo. Não estou falando da polêmica do Olavo de Carvalho com alguns militares. Estou falando de alguns ministros, como o Marcos Pontes, que disse há um tempo atrás ser contra a privatização dos Correios. Isso é um absurdo. Se fosse uma declaração feita por um ministro do PT e do PSDB, eu até entenderia. Mas é um ministro do governo Bolsonaro. Não podia ter falado isso. E nem é caso de ideologia, é matemática. Uma matemática que não é nem álgebra complexa, é aritmética. Tem que privatizar os Correios. Não dá para continuar.

Boletim da Liberdade: E para encerrar, o senhor recentemente se aposentou como professor da UERJ. Possui ainda algum plano e projeto de pesquisa e aulas?

Ubiratan Iorio: Eu tenho me dedicado exclusivamente ao Instituto Mises. Nós temos a nossa pós-graduação. E vamos lançar agora diversos cursos de duração menor, mas sempre com esse intuito de levar as pessoas a estudarem mais. E no futuro há um projeto, que é bastante ambicioso, que não é só meu, mas de toda a equipe do IMB e Hélio Beltrão. Esse projeto é, a exemplo da Universidade Mises nos Estados Unidos, fazer uma Universidade Mises Brasil. E é o sonho de todos nós. Fora isso, no meu ponto de vista, eu acabei de escrever um livro sobre a vida e obra do Mises. Deve sair pela editora É. E estou começando a pensar em escrever outro livro, que seja mais sobre as perspectivas futuras da teoria austríaca. E espero que até lá, pelo menos tenha metade dos professores com nossa linha nas universidades públicas.

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