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‘A gente precisa reinventar todo o ciclo policial, judiciário e criminal’, diz Roberto Motta, ativista em segurança, ao Boletim

Em entrevista exclusiva concedida ao Boletim da Liberdade, também disponível por vídeo, o engenheiro Roberto Motta fala sobre ideologia, política, suas experiências e soluções sobre segurança pública para o Brasil

- Publicado no dia
(Foto: Gabriel Menegale/Boletim da Liberdade)

Das muitas características marcantes de Roberto Motta, destacam-se a firmeza em suas colocações e o constante paralelo entre referências bibliográficas e a prática. Um dos fundadores do Partido Novo, do qual desligou-se em 2016, Motta é engenheiro de formação, mestre em gestão pela FGV e construiu sua vida na iniciativa privada. Nos últimos anos, porém, inverteu sua trajetória. Acabou se tornando um dos principais ativistas de segurança pública do ecossistema pró-liberdade, referência no assunto para o Movimento Brasil Livre, e também próximo aos movimentos Livres e Brasil 200. Recentemente, passou também a atuar como radialista.

No início de 2018, Motta recebeu a equipe do Boletim da Liberdade em seu apartamento no Arpoador, no Rio de Janeiro. Ali, falou durante aproximadamente uma hora sobre os mais variados assuntos, como política, moral, ideologia além, claro, de segurança pública. Uma verdadeira palestra. Autor do livro Ou ficar a pátria livre (2016), ele anuncia o lançamento nos próximos meses de Levanta e Anda, fala de suas experiências e revela projetos para 2018. A entrevista, totalmente transcrita, você confere abaixo – mas também está disponível em vídeo em quatro partes nessa mesma página ou em nosso canal no YouTube.

Boletim da Liberdade: Você inicia seu Ou ficar a Pátria Livre dizendo que seu interesse na temática política é um só: transformar o Brasil de um país pobre em um país rico e de uma sociedade refém do estado em uma sociedade independente e autoconfiante. Quais são os melhores caminhos para isso e em quanto tempo você acredita que seria possível ter uma transformação?

Roberto Motta: Eu comecei a pensar sobre isso quando voltei dos Estados Unidos. Eu morei cinco anos nos Estados Unidos e voltei sem nenhuma teoria na cabeça. Mas eu trouxe a prática. Eu vi como as coisas funcionavam lá e como elas não funcionavam aqui. Então, à medida que o tempo foi passando e que eu fui me educando, descobri o liberalismo. Eu não sabia o que era o liberalismo. Eu descobri o liberalismo, inclusive, depois que eu tive o começo do envolvimento na política. Depois que eu participei da criação do Partido Novo. Foi depois que o liberalismo surgiu na minha vida. E hoje eu tenho certeza que a resposta tem o nome de liberdade. No Brasil, a sua vida é pautada pelo o que a gente pode chamar de uma servidão ao estado.

Hoje, o cidadão brasileiro entrega 50% da renda dele para o estado. O sujeito que está vendendo a garrafa de água mineral no engarrafamento, que não possui nada, está entregando praticamente metade da renda dele ao estado. Esse é o segredo: a gente precisa libertar a sociedade brasileira da dependência econômica, psíquica e até moral do estado. O caminho é a liberdade.

O sujeito que está vendendo a garrafa de água mineral no engarrafamento, que não possui nada, está entregando praticamente metade da renda dele ao estado. Esse é o segredo: a gente precisa libertar a sociedade brasileira da dependência econômica, psíquica e até moral do estado.

Boletim da Liberdade: No livro, você dá muito destaque também à sua experiência nos Estados Unidos e às diferenças que percebeu entre aquela sociedade e a nossa. Em linhas gerais, que qualidades você enxerga na sociedade americana que poderiam inspirar os brasileiros?

Roberto Motta: A principal diferença que eu vejo entre a sociedade americana e a sociedade brasileira é uma coisa que eu nunca havia conseguido nomear, até que eu li um livro chamado “Dimensões Culturais” de um sociólogo holandês chamado Geert Hofstede, que ele chama de distância de poder.

Distância de poder numa sociedade é a diferença que separa um indivíduo que tem menos poder do indivíduo que tem mais poder na sociedade. No nosso caso, seria por exemplo do cara que está vendendo uma água mineral no sinal. O cara que talvez não tenha nem certidão de nascimento, não tem direito a nada, e o cara mais poderoso do Brasil. E aí eu deixo a você imaginar quem é.

Essa diferença no Brasil é gigantesca. Esse sujeito mais poderoso no Brasil pode se safar de tudo. Pode fazer praticamente tudo e nada vai acontecer com ele. Enquanto que o cara menos poderoso do Brasil não é nem considerado gente. Apesar de toda essa retórica politicamente correta que infesta o nosso dia a dia, essa realidade continua. O único efeito prático dessa retórica politicamente correta foi alçar algumas figuras do espectro esquerdista para a mesma posição de poder. Que era ocupada anteriormente por políticos tradicionais.

A outra coisa é a autossuficiência. A autonomia e a autossuficiência que caracterizam a vida do americano. Tem a ver com o processo de colonização, quando o cara colocava a mulher, os dois filhos e uma espingarda em uma carroça e ía para o oeste colonizar. É um passado diferente do nosso. E aí a gente vê características do americano, por exemplo do Do It Yourself. O americano típico conserta tudo na casa dele, ele faz tudo. Aqui no Brasil, a gente sempre contrata alguém para fazer. Então a autossuficiência para mim é uma diferença gigantesca.

Boletim da Liberdade: “Por que alguns países são ricos e outros são pobres” é título de um dos seus artigos contidos no livro. Qual a resposta mais sucinta para essa pergunta?

Roberto Motta: Alguns países, algumas nações, se organizaram, por diversas razões históricas, para criar riquezas e distribuir essa riqueza entre a população. Essas nações são tradicionalmente as nações do hemisfério norte, com herança protestante, colonizadas pela Inglaterra. Outras nações se organizaram para colocar um pequeno grupo no poder. E esse grupo, então, explora toda a população para gerar riquezas para o bolso desse pequeno grupo.

Essa é a diferença. Uma diferença que começou no período colonial. No caso da América Latina para a América do Norte. A América Latina teve origem no Império Espanhol e depois no Reino de Portugal, que eram organizadas dessa forma. Em comparação com a Inglaterra, que no ano de 1215, você já teve a Magna Carta, Bill of Rights. Toda uma tradição de liberdade que propiciou a revolução industrial, uma criação de riqueza, e mecanismos de checks and balances de distribuição de poder e de riquezas.

Em países como o Brasil, tem um pequeno grupo que explora a maioria em seu próprio benefício. E essa exploração, Lucas, tem vários nomes. Vários mecanismos que são apresentados como mecanismos justos, formais, legais. Então você tem funcionários, servidores, de um dos três poderes que não vou nomear aqui, ganhando 150, 180, 200 mil reais por mês. Essa é a explicação.


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Boletim da Liberdade: Você tem se dedicado intensamente ao longo dos últimos anos sobre o tema da segurança pública. Quais as maiores mentiras que os brasileiros escutam sobre a criminalidade e a segurança no país?

Roberto Motta: A maior mentira que todo brasileiro aprende desde cedo sobre segurança pública é que o criminoso é uma vítima, que não teve oportunidade. Que ele é um coitadinho. Se você for a uma favela, por exemplo, e a favela é usada como um exemplo de como a falta de oportunidade gera o crime. Mas você pode escolher qualquer favela. Você vai na Maré, por exemplo, que se eu não me engano tem 130 mil pessoas lá. E devem ter 500 criminosos.

Todas as outras pessoas, submetidas as mesmas condições de falta oportunidade, de pobreza, de falta de presença do estado, fizeram outras escolhas. Acordam cedo, como eu falei, botam a garrafinha de água mineral no isopor e vão vender no meio da rua. Para ganhar em um mês o que talvez um vapor do tráfico ganhe em uma manhã. São opções diferentes.

Então a primeira mentira deslavada é essa. A segunda mentira que o brasileiro escuta, e que prejudica muito o nosso combate ao crime, é que prender não adianta. Porque a prisão não recupera o bandido. A função não é beneficiar o bandido. A função da prisão é beneficiar a sociedade. Então por que você prende? Você prende para retirar da sociedade o indivíduo que é violento, que não tem barreiras morais, e que comete o crime de todo o tipo. Você isola esse indivíduo. E, acima de tudo, Lucas, você pune esse indivíduo. Ele paga o preço pelo ato que cometeu.

A função [da prisão] não é beneficiar o bandido. A função da prisão beneficiar a sociedade. Então por que você prende? Você prende para retirar da sociedade o indivíduo que é violento, que não tem barreiras morais, e que comete o crime de todo o tipo. Você isola esse indivíduo. E, acima de tudo, Lucas, você pune esse indivíduo.

E você dá um exemplo para a sociedade de que nós, como país, valorizamos a nossa vida, a nossa integridade física, a inocência dos nossos filhos. A prisão é para isso. Historicamente, já houve um tempo, que se acreditou que a prisão reabilitava. Mas, se você for olhar as estatísticas, mesmo nos países mais avançados, os melhores casos, mais da metade dos criminosos retornam ao crime. No Brasil, estima-se que essa taxa supere os 80%. Se você for a qualquer delegacia de polícia e esperar chegar um criminoso preso, você pode apostar um dinheiro grande de que ele já tem inúmeras passagens pela polícia.

O nosso Código Penal hoje não reflete a nossa realidade. Ele ainda subscreve essa visão ultrapassada do criminoso vítima que pode ser reabilitado. Então as nossas cadeias tem porta giratória e nós somos sempre agredidos, roubados e assassinados pelo mesmo grupo de bandidos.

Complexo do Alemão: um dos maiores conjuntos de favelas da América Latina e, até outro dia, QG do Comando Vermelho – principal organização criminosa do Rio de Janeiro. (Foto: Notícias ao Minuto)

Boletim da Liberdade: Os índices de homicídio e criminalidade no Brasil estão entre os maiores o mundo. A sensação de insegurança é imensa. Quais são as medidas práticas no nível estadual e nacional que poderiam realmente mudar o quadro da segurança pública?

Roberto Motta: A gente precisa reinventar todo o ciclo policial, judiciário e criminal. Você tem uma polícia ostensiva que fica na rua que impede um crime de acontecer. E que captura um criminoso quando ele comete um crime, uma captura em flagrante. Você tem uma outra polícia, que é a polícia civil, a polícia judiciária, que investiga os crimes e fornece informações para os inquéritos. Você tem o Ministério Público que pega os resultados da investigação e apresenta uma acusação ao Judiciário. E você tem o Judiciário que julga o criminoso, inocenta ou condena, e você tem o sistema prisional que tem que manter esse sujeito preso por tempo o suficiente. Nada disso funciona direito no Brasil. Nada, absolutamente nada.

Não é por culpa de nenhuma decisão individual das pessoas que participam dessas instituições. Pelo contrário: você tem pessoas abnegadíssimas nas polícias, no Ministério Público, no Judiciário. Mas a contaminação ideológica das instituições, a degradação das nossas leis penais e o descaso como a sociedade brasileira trata a questão do crime provocou essa crise que a gente está vivendo.

Então você pode dizer: “Pô, mas Roberto, como é que a sociedade brasileira trata com descaso a questão do crime, da segurança pública?” Eu pergunto para você: quantos amigos policiais você tem? O Policial é um cidadão sempre visto com desconfiança. As instituições policiais não têm o apoio da população. O que a gente pode fazer para resolver a crise de criminalidade?

A contaminação ideológica das instituições, a degradação das nossas leis penais e o descaso como a sociedade brasileira trata a questão do crime provocou essa crise que a gente está vivendo

Nós jamais vamos acabar com o crime. Essa é outra mentira que se fala no Brasil. Qualquer coisa que você tenta fazer em relação à segurança pública, aparece alguém para dizer: ‘Não, mas isso aí não vai resolver o problema do crime’. Não vai resolver mesmo. Crime existe em todo lugar. Mas vai resolver a crise de segurança pública.

De uma forma bem objetiva, nós temos três coisas que precisam ser feitas no curto, no médio e no longo prazo. No curto prazo, a gente precisa reinventar a nossa polícia. 92% dos homicídios no Brasil nunca são resolvidos. E são 60 mil homicídios por ano. No Rio de Janeiro, em 2 anos aconteceram 350 mil roubos. Estima-se que no Brasil inteiro por ano acontecem 1 milhão. Roubo é quando alguma coisa é subtraída de você com violência ou ameaça de violência. Então, por exemplo, o que a gente popularmente chama de assalto é um roubo.

Ativista em segurança pública, ele fundou o movimento Tolerância Zero (Foto: Reprodução/Facebook)

Desse 1 milhão, apenas 2% são solucionados. Então é urgente que a gente reinvente a nossa polícia, e o processo de investigação, de patrulhamento. Isso significa treinamento, isso significa uma remuneração mais adequada. Métodos de investigação. A nossa polícia não tem um treinamento adequado para investigar. E até mesmo para fazer um patrulhamento. São coisas que outros países já equacionaram há muito tempo. Mas que no Brasil qualquer coisa nesse sentido é taxada pela esquerda e por setores ideologicamente alinhados com a esquerda, de medidas repressivas. Então, primeira coisa, reinventar a polícia e tudo o que está em torno dela.

E a segunda coisa, que é de médio prazo, mudar a nossa legislação penal. Nós precisamos mudar o Código Penal, o Código de Processo Penal e a Lei de Execuções Penais. E tudo isso precisa ser quase que reescrito. Para você ter uma ideia, no Brasil, o sujeito te assalta com uma arma na cabeça, se ele for preso e condenado, ou seja, se ele estiver dentro daqueles 2% dos casos, ele é condenado a tipicamente a 5 anos e 4 meses de prisão. Uma pena de 4 anos pelo roubo e mais um terço pelo uso de arma. 5 anos e 4 meses de condenação vai fazer com que ele fique na cadeia 11 meses. Porque o criminoso brasileiro desfruta de um direito que é desconhecido na maior parte dos países, que é o de ficar atrás das grades apenas um sexto da pena ao qual ele foi condenado.

O criminoso brasileiro desfruta de um direito que é desconhecido na maior parte dos países, que é o de ficar atrás das grades apenas um sexto da pena ao qual ele foi condenado.

Então você tem esse absurdo. O outro absurdo é o ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é o estatuto de corrupção da criança e do adolescente. Por causa desse estatuto e da legislação associada, hoje no Rio de Janeiro o tempo médio de internação de um criminoso com menos de 18 anos que mata alguém é de oito meses. Então tudo isso precisa ser mudado urgentemente.

Essas são as medidas de médio prazo. E, de longo prazo, nós precisamos reajustar nossos conceitos morais. O brasileiro precisa reaprender o que é certo e o que é errado. Esse é um processo que nós começamos há pouco tempo com a Lava Jato e eu espero que não termine.

Porque não importa se você é operário, não importa se você é empreiteiro, não importa se você é juiz ou se você é banqueiro. O certo é certo e o errado é errado. Quem comete um crime merece ser punido. Tem que acabar com o foro especial. Tem que acabar com qualquer tipo de privilégio. E nós temos que implantar no Brasil a igualdade mais importante. Que não é, como a esquerda pensa, a igualdade de renda ou de patrimônio. A igualdade mais importante é a igualdade perante a lei. É a única igualdade que não existe no Brasil.

Boletim da Liberdade: Você frequentemente tece críticas à “Ideologia” e já debateu a questão moral no Brasil. O que você entende como “Ideologia”, como isso afeta o país e o que é, no seu entendimento, a batalha moral na política?

Roberto Motta: O que eu entendo por ideologia é uma cesta de ideias pré-montada, que você tem que levar para casa sem exercer o seu senso moral, seu julgamento. Você é obrigado a levar aquela cestinha e usar aquela cestinha toda. Então, para dar um exemplo, se você é uma pessoa de esquerda e você leva a cestinha de esquerda para casa, na cestinha de esquerda tem que você é a favor do aborto, né? Está lá na cestinha. Não tem opção. Mas na mesma cestinha tem que você é contra a pena de morte. Não faz sentido nenhum. Mas está na cestinha e você tem que comprar. Da mesma forma, as outras ideologias têm as suas cestinhas. Eu acho que isso é um constrangimento ao seu livre pensar que acrescenta muito pouco.

Nós temos que implantar no Brasil a igualdade mais importante. Que não é, como a esquerda pensa, a igualdade de renda ou de patrimônio. A igualdade mais importante é a igualdade perante a lei. É a única igualdade que não existe no Brasil.

Eu acho que tem algumas ideologias que são venenosas. É o que o biológo Richard Dawkins chama de memes, no sentido de ser uma ideia que se reproduz na mente das pessoas e que, às vezes, mata o hospedeiro. Como alguns vermes e alguns parasitas. Por exemplo, a ideia do socialismo, do comunismo, que é uma coisa monstruosamente errada e, por incrível que pareça, continua se reproduzindo. Porque oferece para você um sonho, ela te fisga com um sonho de um mundo melhor, onde não vai mais existir sofrimento, onde todos nós seremos irmãos. É a “liberdade, igualdade e fraternidade”, mas a gente sabe que logo a seguir vem a guilhotina, os campos de concentração e os gulags.

O Brasil hoje está numa fase de libertação da tirania da ideologia de esquerda. Vocês são muito sortudos [referindo-se aos editores do Boletim da Liberdade], porque quando eu tinha a sua idade, você não tinha opção no Brasil. Você só tinha um caminho: esquerda. Uma esquerda um pouquinho mais radical, uma esquerda um pouquinho mais light. Eu, por exemplo, minha cabeça só foi se abrir quando eu li em 1994 ou 1995 um livro do Olavo de Carvalho chamado O Imbecil Coletivo. É que eu entrei na livraria e achei o título legal: “Pô, imbecil coletivo? Cara, eu vou comprar esse livro só para saber do que que é.”. Aí eu li e falei: “Cara, você pode, é permitido escrever esse tipo de coisa? É permitido fazer esse tipo de questionamento?”.

Então aquilo, para mim, abriu a minha cabeça. Esse é um processo pelo qual o Brasil está passando junto comigo. Eu acabei de vir agora de uma reunião do [movimento] Livres e falei para eles: “O Livres é um exemplo disso”. Junto com o Livres, o trabalho que o MBL faz também, que o Vem Pra Rua faz. Virou bacana. Virou fashion você ser liberal. Virou uma coisa moderna.

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É por esse processo que o Brasil precisa passar. E eu acho que nisso não cabe ideologia. Tem pessoas que tem uma visão diferente da minha, que tem um apego maior a esse conjunto pré-fabricado de ideias. Mas eu não tenho. Eu realmente pego as minhas ideias de onde elas vierem com mais consistência. Talvez eu enfatize determinadas ideias porque eu ache que elas são mais urgentes. Mas eu não tenho nenhuma cestinha que eu carregue de um lado para o outro.

A questão da moral da política é uma questão complicada. Diversos autores, diversos filósofos e pensadores têm posições diferentes. Tem gente que define que a política é, fundamentalmente, uma arena de poder, que não cabem considerações morais. Eu tenho uma visão diferente. Acho que a consideração moral hoje no Brasil é o que faz a diferença entre as escolhas políticas. Tem escolhas políticas hoje no Brasil que são claramente imorais, que não têm nenhum outro objetivo a não ser promover aquela extração de riquezas a qual me referi. É tirar dinheiro lá da Dona Maria que mora lá em Varre-Sai para botar no bolso do governador que usa o helicóptero para mandar pegar o cachorrinho que ele esqueceu.

A ideia do socialismo, do comunismo, que é uma coisa monstruosamente errada e, por incrível que pareça, continua se reproduzindo. Porque oferece para você um sonho, ela te fisga com um sonho de um mundo melhor, onde não vai mais existir sofrimento, onde todos nós seremos irmãos.

É assim que funciona. O ICMS que as pessoas pagam, elas pagam para botar dinheiro no cofre do estado, que faz as maiores barbaridades com isso. Então isso é uma escolha moral. Quando você vai escolher em quem você vai votar, isso é uma ilusão que a gente tem. “Tem que olhar o programa do cara”. Ninguém, nas vésperas da votação, ou mesmo semanas antes, senta, abre os programas de governo de todos os candidatos, para ver lá direitinho e comparar, “a política monetária desse…”. A escolha que você faz é uma tentativa de escolha moral baseada muitas vezes em sinais que não significam muita coisa.

Porque você tem essa escolha intermediada pelos marqueteiros, pela mídia que está em grande parte aparelhada. Mas é uma escolha moral. Você não pode fugir disso. A pergunta que você tem que se fazer é: que mundo você quer para os seus filhos viverem? É o mundo onde todas as pessoas são tratadas de forma igual perante a lei ou o mundo onde algumas pessoas tem privilégios que o resto não tem? Não vamos entrar aqui na discussão de “esses privilégios foram concedidos porque essa pessoa passou num concurso público, ou esses privilégios foram concedidos porque a pessoa está num cargo que se ela não tiver esse privilégio, coisas graves podem acontecer com ela”.

Eu assisti há um tempo atrás uma palestra do Deltan Dallagnol em que ele dizia que essa questão de foro privilegiado era um absurdo a quantidade de gente que tem. Ele achava que ele mesmo não deveria ter foro privilegiado. E eu concordo com ele. Por que que alguém tem foro privilegiado? Por que que eu não posso ter foro privilegiado? Por que tem gente no Brasil que tem motorista, carro com motorista e segurança 24 horas pagos com os meus impostos? Que direito que essa pessoa tem de ter isso? Então a questão moral, Lucas, é a questão que está por trás disso. É a pergunta fundamental: “Isso que eu estou vendo, isso o que eu estou fazendo é certo ou é errado?”

Podem existir circunstâncias em que essa pergunta não é facilmente respondível. Mas essa tem que ser a exceção. Na maior parte das vezes, as pessoas sabem responder essa pergunta. Tanto sabem que às vezes se comportam na sua vida privada de uma forma e na sua vida pública de outra forma. Porque, quando entram na arena pública, elas subscrevem uma agenda que é puramente de poder. Eu acho que essa transição tem que acontecer no Brasil. A questão moral tem que estar na frente.

Boletim da Liberdade: Existe muita expectativa para as eleições de 2018. Para se ter uma mudança significativa, porém, quais comportamentos o brasileiro médio deveria mudar na hora de votar?

Roberto Motta: Essa é uma pergunta extremamente difícil e quase impossível de responder. Porque eu acho que parte da mudança não depende do comportamento do eleitor. O desafio que se coloca na frente do eleitor, e eu acho que em qualquer democracia republicana, mas especialmente no Brasil, é muito grande. Imagina na eleição desse ano: você vai escolher um presidente, um governador, dois senadores, um deputado estadual e um deputado federal. Para escolher esses políticos que você vai votar, quantos você vai ter que conhecer, entender quais são as ideias deles, entender o que eles já fizeram antes. É uma tarefa praticamente impossível. E esse é um dos desafios que se coloca hoje na frente das democracias ocidentais. Esse modelo democrático republicano onde cada pessoa tem um voto e o voto de uma pessoa bem informada, preparada, que ficou semanas estudando, tem o mesmo valor para o voto de um cara que acordou de manhã, ligou para a mãe e falou: “Mãe, voto em quem?”. É igualzinho.

Eu, por exemplo, minha cabeça só foi se abrir quando eu li em 1994 ou 1995 um livro do Olavo de Carvalho chamado O Imbecil Coletivo. É que eu entrei na livraria e achei o título legal: “Pô, imbecil coletivo? Cara, eu vou comprar esse livro só para saber do que que é.”

E porque a tarefa para o brasileiro é mais complicada? Porque a gente tem um sistema político meio enrolado. Quem entende o sistema de eleição proporcional? 99,9% dos brasileiros não sabem o que é um quociente eleitoral. Não sabem que elas vão lá votar o João e, na verdade, o voto é usado para eleger o José. Se você tiver um candidato que tem 40.000 votos e outro que tem 40.001, o que tem 40.001 pode entrar, e o que tem 40.000 não entra. Então, é muito difícil. A gente tem uma quantidade de partidos muito grandes, o que em si só não é um problema, se esses partidos oferecessem escolhas reais. Pela primeira vez nos últimos anos, a gente está vendo partidos que realmente oferecem uma diferença na forma de pensamento e uma visão diferente do Brasil.

Então, respondendo a sua pergunta, a única coisa que o brasileiro médio pode fazer é tentar se informar. O que é um desafio muito grande porque a missão da nossa mídia oficial é desinformar. Então qual é a recomendação que eu sou para as pessoas hoje: as melhores fontes de informação são a vida real – não deixe ninguém dizer para você que o principal problema do Brasil é a desigualdade se você sai na rua e você é assaltado e todo mundo que você conhece já foi assaltado. Então você sabe qual é o principal problema do Brasil. Segundo: use as novas mídias, as mídias sociais. E canais de comunicação como o Boletim da Liberdade. São veículos que estão furando o bloqueio da grande mídia, usando as possibilidades da tecnologia e estão abrindo uma janela de verdade.

A única coisa que o brasileiro médio pode fazer é tentar se informar. O que é um desafio muito grande porque a missão da nossa mídia oficial é desinformar.

Sem entrar em nenhum julgamento de mérito, temos fenômenos como o do Olavo de Carvalho. O que aconteceu comigo? Eu peguei esse livro do Olavo de Carvalho, li O Imbecil Coletivo, larguei na estante e esqueci isso. Aí o tempo passou, veio o Orkut, depois veio o Facebook, e aí um dia por acaso eu descubro que o Olavo de Carvalho está no Facebook. Eu descubro que o Olavo de Carvalho tem uma multidão de seguidores e que tem um curso online de filosofia que estava todo mundo fazendo. Era um mundo do qual eu não tinha nenhum conhecimento. Então eu acho que esse mundo, que ainda não é do conhecimento de muitos brasileiros, é o melhor caminho para que a gente informe as pessoas e para que elas saibam o que está acontecendo. Então desliga a televisão, não vê mais “Fantástico”, esquece a novela, usa esse tempo para entrar na internet, nas mídias sociais, pegar essa informação que hoje está disponível como nunca esteve antes.

Foto: Gabriel Menegale/Boletim da Liberdade

Boletim da Liberdade: Ao longo dos últimos anos, você tem participado de diversos movimentos políticos historicamente recentes no Brasil, como o processo de fundação do Partido Novo, o Movimento Brasil Livre e, mais recentemente, o Livres. Quais foram os maiores aprendizados seus ao longo dessas experiências e como você acredita que esses movimentos agregam à política brasileira?

Roberto Motta: Um dos aprendizados é deixar o ego em casa quando você se envolve em atividade política. Pela sua natureza, a atividade política expõe muito as pessoas. E essa exposição pode às vezes criar em você um falso sentimento de importância, que é uma coisa que eu vejo que é uma constante ameaça a todos esses movimentos. Eu já passei por situações muito curiosas. Eu comecei essa minha trajetória participando de um grupo que lidava com questões de segurança pública aqui no bairro onde eu moro.

Depois, eu passei por uma associação de moradores e aí pela fundação do NOVO. E esse aprendizado da humildade, de que você é parte de um processo que é muito maior, é uma coisa fundamental. A outra coisa que é muito importante é a valorização da comunicação. Não basta você ter as ideias corretas. Se você não souber transmitir essas ideias, você vai ser vencido pelo cara que tem as ideias erradas mas sabe transmiti-las.

Então tem dois livros muito bons que foram escritos por pessoas em lado opostos do espectro político. Um deles é a A Arte da Guerra Política, escrita por David Horowitz, e o outro é O Cérebro Político, ou The Political Brain, escrito por um cara chamado Drew Westen. O Drew Westen escreveu o livro para explicar aos democratas americanos o que eles não sabiam e o Horowitz para explicar aos republicanos. E o tema deles é basicamente o mesmo: como é que você mobiliza os eleitores e como é que você convence as pessoas a votarem em você. E eles dois dizem mais ou menos a mesma coisa: a escolha política é primariamente baseada em emoção.

Um dos aprendizados é deixar o ego em casa quando você se envolve em atividade política. Pela sua natureza, a atividade política expõe muito as pessoas. E essa exposição pode às vezes criar em você um falso sentimento de importância, que é uma coisa que eu vejo que é uma constante ameaça a todos esses movimentos.

Depois, você encontra uma forma de racionalizar aquilo ali e construir uma explicação elaborada. Mas é fundamentalmente baseada na emoção. E isso é uma coisa que eu vejo que às vezes falta nessas organizações, especialmente as organizações liberais, especialmente as organizações que eu gosto de chamar de não-esquerda. Porque eu acho que classificar as coisas de direita… a direita é um espectro muito amplo. Vai desde os movimentos autoritários aos anarcocapitalistas, libertários e enfim… Mas todo mundo que não é de esquerda tem dificuldade de usar a emoção. Procura mobilizar as pessoas baseado na racionalidade. Explicando como funciona a economia de livre mercado, um sistema de trocas voluntárias. Enquanto isso, o seu oponente está dizendo que precisa dar o que de comer a quem tem fome. Quem é você acha que vai ganhar o coração e as mentes dos eleitores?

Isso tem a ver com aquela pergunta que você me fez sobre a guerra moral. Os liberais, os libertários e os anarcapitalistas não podem fugir desse tema. Não podem esquecer que estão lidando com seres humanos. Que têm necessidades, que têm desejos, que têm frustrações. Eu estou acabando um artigo para o meu próximo livro, que vai se chamar Levanta e Anda, que é uma resenha do livro do Saul Alinsky, chamado de Regras para Radicais.

E uma das coisas que o Saul Alinsky fala – e eu espero que esse meu artigo seja muito lido, e o livro muito comprado pelos liberais, pelo pessoal da não-esquerda – é uma receita de sucesso para a prática política. E uma das coisas que ele diz, entre inúmeras coisas interessantes, mas pinçando só uma delas, ele fala da frustração que é a vida típica do cidadão de classe média nos países desenvolvidos.

É aquele cara que tem aquele emprego mais ou menos chato, aquela rotina, vive com medo de não ter dinheiro para se aposentar, de perder o emprego, é uma vida monótona, não é uma vida cheia de novidades. E o envolvimento político pode trazer para esse cara a novidade. Uma aventura, um senso de participação no mundo que, de outra forma, não existiria. Então você está usando um gancho profundamente emocional para trazer para o seu movimento um grupo que é essencial para qualquer ação que você queira fazer. É esse o caminho! A gente tem que descobrir o que que funciona e perceber que a gente não vai capturar as pessoas racionalmente, pelo cérebro, com explicações elaboradas sobre o funcionamento da economia. A gente tem que entender quais são os mecanismos que funcionam e entender que o envolvimento político passa muito pelo envolvimento emocional.

Roberto Motta entre vários ativistas em segurança pública: Bernardo Sampaio, Fernando Holiday, Arthur do Val, Kim Kataguiri e Renan Santos. (Foto: Reprodução/Facebook)

Boletim da Liberdade: Obrigado pela entrevista e, por fim, gostaríamos de saber quais são os seus projetos para o ano de 2018.

Roberto Motta: O meu projeto maior, Lucas, é dar uma contribuição sustentável e que faça diferença no campo da segurança pública. E eu faço isso por uma razão profundamente egoísta. Eu quero poder dormir tranquilo sabendo que os meus filhos estão bem na rua. Isso eu perdi. Eu não tenho mais. Eu não tenho a coragem de mandar o meu filho, em determinados dias, aqui no bairro onde eu moro, na esquina, no posto de gasolina da esquina, comprar alguma coisa porque eu temo da vida dele.

Aqui dessa janela onde você está sentado nos finais de semana eu escuto “pega ladrão, pega ladrão” toda hora. Eu sou um cidadão comum, sou leigo, minha formação é engenharia, mas eu tenho uma capacidade de aprender. Eu fiz o dever de casa. Por razões ligadas à minha atividade profissional, durante uma época eu viajei o Brasil inteiro. Do Rio Grande do Sul até o Ceará conversando com policiais, com promotores, com juízes. Eu tenho um entendimento bom de quais são as questões que estão envolvidas no problema da criminalidade. E eu tenho o direito que qualquer cidadão brasileiro tem. O cidadão não precisa ser promotor, não precisa ser juiz, não precisa ser policial.

A gente não vai capturar as pessoas racionalmente, pelo cérebro, com explicações elaboradas sobre o funcionamento da economia. A gente tem que entender quais são os mecanismos que funcionam e entender que o envolvimento político passa muito pelo envolvimento emocional.

Todos nós temos a experiência diária do medo, da insegurança. O meu projeto é contribuir nessa área. E, para isso, tem vários caminhos. Obviamente, desde que eu participei da fundação de um partido político, eu penso num cargo eletivo. Mas uma eleição é uma coisa complicada. Uma eleição não necessariamente é vencida pelas pessoas mais preparadas, ou que fizeram seu dever de casa. Eleição tem uma dinâmica completamente diferente. Eu nunca participei de nenhuma eleição, eu não tenho ideia do que vai acontecer. Nesse ano, o cenário político ainda está muito indefinido. A gente tem indefinição para presidente, indefinição para os cargos majoritários.

Muita gente que tradicionalmente tinha o domínio da atividade política ou está na cadeia, ou está impedido de participar. A gente tem uma massa grande de pessoas que nunca participaram da política entrando nesse jogo agora. Então eu vejo tudo isso com uma mistura de alegria e de satisfação de ver que o cenário está mudando, mas também com certa apreensão. Porque é uma atividade da qual eu nunca participei: uma campanha eleitoral. Resumindo: pode ser que eu me candidate a um cargo eletivo esse ano, mas de qualquer forma eu quero participar desse processo de mudança do Brasil, focado nessa questão de segurança pública, de combate ao crime. Isso para mim é a prioridade número um, número dois e número três.

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