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Publicado por engano, artigo do IMB gera polêmica: confira a íntegra

Horas após a publicação e com críticas nas redes sociais, o Instituto Mises Brasil decidiu remover o texto do ar, afirmando que foi publicado indevidamente e que não condiz com os “princípios e valores” da organização

- Publicado no dia
Logotipo do Instituto Mises Brasil. (Foto: Reprodução/Facebook)

O Instituto Mises Brasil divulgou nesta terça-feira (19) um artigo que debateu a relação entre igualdade, desenvolvimento e homogeneidade étnica-racial. O texto, porém, intitulado de Uma verdade politicamente incorreta sobre a desigualdade, de autoria de Guilherme Moreira, não foi bem recebido pelos internautas e gerou polêmica inclusive dentro do movimento liberal.

Com base em dados de nível de desigualdade e homogeneidade racial e cultural, o articulista comparou diversas cidades do sul do Brasil, de imigração marcantemente italiana e alemã, com o desenvolvimento de países nórdicos. Defendendo uma correlação entre esses indicadores, o texto ponderou que existe uma contradição quando progressistas defendem a redução das desigualdades mirando no exemplo daqueles países – afinal, esses mesmos progressistas costumeiramente se colocam como defensores da pluralidade étnico-racial.

Se a relação entre entre homogeneidade étnico-racial e o padrão de igualdade de uma sociedade foi um ponto discutido, algumas afirmações contidas no artigo deixaram indagações no ar. Entre elas, quando o articulista teria dado a entender que uma região mais homogênea entre sulistas poderia ter maior prosperidade do que uma região homogênea de nordestinos.


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Críticas

Com citações acadêmicas consideradas pobres e por ter sido escrito por um articulista que se rotula como “auto-didata” em economia, o texto foi duramente criticado por internautas. O estudante Pedro Menezes, membro do Conselho Executivo do Instituto Mercado Popular, foi um dos que se pronunciou a respeito, criticando o chamado “liberalismo do Alabama” – uma referência à localidade onde instala-se o Instituto Mises norte-americano, pioneiro e inspiração para o Instituto Mises Brasil.

“O liberalismo do Alabama tem certos traços pró-mercado em economia e até aceita liberdades civis, mas faz as duas coisas em espírito anticientífico e antiliberal. A defesa da economia de mercado não respeita evidências, seja sobre aquecimento global ou funcionamento dos mercados. Basta dizer que o mercado é perfeito, enquanto xinga a esquerda – parte central de qualquer assunto. A defesa das liberdades civis faz questão de negar qualquer empatia aos grupos que realmente sofrem com as violações de direitos. E, é claro, sempre com o tom de que todo o mal do mundo vem da esquerda”, comentou.

Apesar da crítica, Menezes afirmou que é amigo das pessoas que administram o IMB e observou que são pessoas “tolerantes, empáticas e progressistas”.


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IMB retira o texto do ar

Após algumas horas de repercussão, o Instituto Mises Brasil tirou o artigo do ar e soltou uma nota a respeito, afirmando que o texto foi “publicado indevidamente” e desculpando-se pela falha. “O referido texto não foi aprovado pelo Comitê Editorial e não condiz com os princípios e valores do Instituto Mises Brasil”, afirmou a nota.

Confira abaixo a íntegra do artigo de Guilherme Moreira que gerou polêmica:

Pergunte a um progressista qual o modelo de sociedade que ele defende e a resposta invariavelmente sempre será a mesma: “Defendo o modelo escandinavo, que é a sociedade com o mais baixo grau de desigualdade social!”.

Até aí, beleza.

No entanto, se você perguntar a ele que tipo de composição social ele defende, a resposta também será sempre a mesma: “Defendo uma sociedade miscigenada, multicultural, racialmente diversa e formada por todas as etnias possíveis”.

E ele jurará não ver aí qualquer tipo de contradição.

Eis o fato: é simplesmente impossível querer que uma sociedade multicultural e com ampla mistura de raças, culturas e etnias apresente, ao mesmo tempo, baixa desigualdade social.

A desigualdade nos países nórdicos é baixa simplesmente porque sua população sempre foi homogênea. Historicamente, nunca houve nenhum “caldeirão cultural” nos países nórdicos. Nunca houve uma grande diversidade racial e cultural por lá. Todos os nórdicos tiveram o mesmo passado étnico, cultural, religioso e racial. Em termos históricos, ao longo de seu desenvolvimento, o multiculturalismo e a miscigenação nos países nórdicos sempre foi irrisório.

Já a desigualdade em países como EUA e Brasil é alta simplesmente porque sempre houve uma enorme mistura cultural, étnica e racial nestes países — o exato oposto do que ocorre nos países nórdicos.

Querer, como pretendem os progressistas, que haja uma sociedade miscigenada e multicultural, e que, ao mesmo tempo, ela apresente uma igualdade nórdica, é querer a quadratura do círculo. E isso é empiricamente comprovado.

No Brasil

Se você ainda não está convencido desta teoria, passemos à prática. Se é verdade que a desigualdade é influenciada pela miscigenação e pela cultura, então é necessário provar que, no Brasil, as localidades mais cultural e racialmente homogêneas são as mais igualitárias.

Abaixo, a lista das 15 cidades mais igualitárias do Brasil e seus respectivos índices de Gini, o mais famoso indicador para medir distribuição de renda (quanto menor, mais igualitária é a sociedade). Para se ter uma ideia, o índice de Gini da Dinamarca é 0,28.

AS CIDADES MAIS IGUALITÁRIAS DO BRASIL

1. São José do Hortêncio (RS) 0,28

2. Botuverá (SC) 0,28

3. Alto Feliz (RS) 0,29

4. Vale Real (RS) 0,29

5. Santa Maria do Herval (RS) 0,30

6. Campestre da Serra (RS) 0,31

7. Tupandi (RS) 0,31

8. Morro Reuter (RS) 0,32

9. Nova Pádua (RS) 0,32

10. Picada Café (RS) 0,32

11. Presidente Lucena (RS) 0,32

12. Vila Flores (RS) 0,32

13. Santa Rosa de Lima (SC) 0,32

14. Nossa Senhora das Graças (PR) 0,33

15. Pitangueiras (PR) 0,33

Observe que a cidade com a renda mais bem distribuída do país, São José do Hortêncio, no Rio Grande do Sul, tem um índice de Gini idêntico ao da Dinamarca. Mas não houve ali, e nem em nenhuma das outras 14 cidades, nenhuma política pública voltada especificamente para reduzir a desigualdade. Muito menos houve algum tipo de imposto sobre grandes fortunas ou mesmo uma maior tributação sobre os mais ricos. Com efeito, estas cidades estão submetidas às mesmas políticas públicas que valem para o resto do país.

Qual o motivo da grande igualdade destas cidades? Exato, a semelhança entre os cidadãos. Falando mais explicitamente: a semelhança entre os moradores explica os índices nórdicos de igualdade.

E quem diz isso é ninguém menos que o próprio IPEA. Segundo Rafael Osório, técnico do Ipea especialista em estudos de distribuição de renda: “As cidades do Sul são menos desiguais em parte porque a população costuma ser mais educada, a desigualdade educacional costuma ser menor. São populações mais homogêneas“.

Vale enfatizar: das quinze cidades mais igualitárias do Brasil, onze são gaúchas de origem alemã.

E qual o papel da religião neste cenário? Enorme. Nestas cidades, além de quase todos terem a mesma origem cultural, muitos têm origem luterana — como os nórdicos e alemães —, o que historicamente contribuiu para a igualdade. O economista Edward Glaeser é o grande defensor desta tese. Segundo ele, comunidades protestantes sempre se esforçaram para alfabetizar as pessoas de seu entorno para que elas pudessem ler a Bíblia. Isso não só aumentou o nível educacional, como também diminuiu sua variação.

Ou seja, o fato de a igualdade ser maior onde a população é mais homogênea não implica que a riqueza necessariamente também será maior. É perfeitamente possível ser homogeneamente pobre. O Cazaquistão, com um Gini de 0,26, o Afeganistão, com um Gini de 0,28, e o Iraque, com um Gini de 0,29, estão entre os países mais igualitários do mundo, junto com Noruega (0,27), Finlândia (0,27), Suécia (0,27), Dinamarca (0,28) e Holanda (0,28).

Em comum, todos esses países têm a mesma homogeneidade entre suas respectivas populações, completamente diferente do Brasil.

Conclusão

Se o Brasil fosse inteiramente formado por uma população como a do interior do Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina, a desigualdade seria tão baixa quanto a dos nórdicos. Igualmente, se fosse inteiramente formado por uma população como a do interior do Maranhão ou do Piauí, também seria baixa. E bem mais pobre.

Por isso, a esquerda progressista que vive tecendo elogios ao multiculturalismo, à miscigenação racial, e à mistura de raças e cores incorre em uma fragorosa incoerência ao apontar as sociedades nórdicas como o modelo a ser seguido. A dicotomia não poderia ser mais explícita: os progressistas defendem todos os tipos de misturas étnicas, raciais e culturais, mas, quando perguntados sobre o modelo de sociedade ideal, prontamente recorrem às sociedades mais homogêneas e puras que existem, que são as nórdicas.

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