“Não é necessariamente antiético participar da política”, diz Raphäel Lima, do canal do YouTube ‘Ideias Radicais’

Com quase 250 mil inscritos no YouTube, o jovem Raphäel Lima, de 26 anos, chega a publicar até 20 vídeos semanais com análises políticas por um viés libertário; confira outra entrevista exclusiva do Boletim

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Foto: Reprodução / Youtube
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Com uma câmera no tripé e “ideias radicais” na cabeça, Raphäel Lima encontrou um caminho próprio para difundir as ideias da liberdade: o YouTube. No auge de seus 26 anos, Raphäel dedica seu tempo para gravar, editar e publicar cerca de 15 à 20 vídeos semanais em seu canal com análises libertárias sobre diversos temas da sociedade. O resultado desse esforço já rendeu mais de 30 milhões de visualizações de vídeos e aproximadamente 240 mil inscritos.

Em entrevista exclusiva ao Boletim, Raphäel Lima fala, sem rodeios, sobre política, o recuo ideológico de muitos ícones libertários que passaram a adotar posicionamentos mais moderados e até sobre o porque decidiu explorar o YouTube.  Segundo ele, projetos mais formais não alcançavam um “público que não tinha paciência de ler […] e que achava mais confortável e fácil ver vídeos, […] sem terno, sem palavras bonitas, só um discurso simples e uma ideia passada de maneira direta”.

Raphäel também opina que estratégias ofensivas, por vezes comuns no movimento libertário, não necessariamente são efetivas. Para converter as pessoas ao libertarianismo, ele apostou no caminho da educação e da calma: “Seria muito bom se elas desejassem ter uma pessoa como eu, um anarcocapitalista, como vizinho”.

Autor do livro “Voto Ofensivo”, editado pelo Instituto Mises Brasil, Raphäel não despreza totalmente o caminho da política. Sobre ser ele próprio candidato em 2018, porém, desconversa:  “a não ser que algum grande evento bizarro venha a acontecer”. Confira a entrevista completa abaixo:

Boletim da Liberdade: Com mais de 230 mil inscritos e centenas de vídeos publicados, o seu canal no Youtube é uma das iniciativas mais bem-sucedidas de liberais e libertários nessa mídia. A que você credita esse sucesso e como a ideia – inclusive o nome do canal – foi concebida?

Raphäel Lima: A ideia nasceu de experiências passadas que eu já tinha produzindo conteúdo para o YouTube e perceber que embora existam veículos de muita qualidade como Spotniks ou o Instituto Mises Brasil, eles não pegavam o público que não tinha paciência de ler, que não se interessava por artigos e que achava mais confortável e fácil ver vídeos, além de ter uma postura menos formal, sem terno, sem palavras bonitas, só um discurso simples e uma ideia passada de maneira direta, com um espaço para humor.

Além disso, praticamente ninguém acorda de manhã pensando “Nossa, hoje quero saber sobre juros!” ou “como será que a ética pode afetar meu dia a dia?”. A maioria pensa nos problemas práticos do dia-a-dia e quer ver como eles poderiam ser resolvidos, e pego por aí tentando responder isso de uma maneira libertária, e colocando entre esses vídeos outros conteúdos mais formais e fundamentais. A mistura pelo jeito deu certo.

Boletim da Liberdade: Quando e de que maneira você começou a se identificar como um libertário? Por que meios você acredita que o pensamento anarcocapitalista, em termos gerais e especificamente no Brasil, consegue formar um público novo, conquistando mais pessoas?

Raphäel Lima: Da mesma maneira que trabalho hoje, pelo YouTube. Comecei vendo vídeos do Stephan Molyneaux e vídeos antigos do Milton Friedman e Thomas Sowell. Só depois de muito tempo fui realmente ler as obras e artigos, mas nesse ponto eu já tinha uma boa noção do que falavam, foi mais um aprofundamento mesmo. Bem por isso que escolhi ir para o YouTube divulgar, afinal se funcionou pra mim deve funcionar para muitos outros.

Os meios são todos os que forem possíveis. Estamos vendendo uma ideia, que é a liberdade, e o melhor jeito de atender o cliente é o livre mercado e a competição, portanto precisamos de uma enorme variedade de meios e de pessoas tentando veículos diferentes. Nenhum deve ser subestimado.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Boletim da Liberdade: Em seu livro “Voto Ofensivo”, editado pelo Instituto Mises Brasil, você versa sobre a importância de uma boa comunicação para que os libertários consigam ser bem-sucedidos em seus embates políticos. Que estratégias de comunicação você acredita que efetivamente funcionam para semear um pensamento político e que podem ser úteis para os libertários, e quais aquelas que você considera que são infelizes?

Raphäel Lima: Tenho uma ideia pessoal de que se quero convencer as pessoas a abandonar o estado, seria muito bom se elas desejassem ter uma pessoa como eu, um anarcocapitalista, como vizinho. Por isso tento ser educado e calmo na medida do possível, e não acho que estratégias ofensivas sejam efetivas, mas posso bem estar errado. Como disse antes, não subestimo nenhum meio que seja ético.

Boletim da Liberdade: Ainda sobre o seu livro, você salienta que os candidatos libertários não devem ter medo ou vergonha em defender o objetivo de “fechar o estado completa e eternamente”, ou mesmo afirmar que “imposto é roubo”. Você também critica o discurso que defende um “estado eficiente”. Nesse sentido, qual é a sua avaliação sobre as candidaturas que aconteceram em 2016? Alguma lhe chamou atenção positivamente?

Raphäel Lima: Este ponto do livro é na verdade um argumento já antigo de Rothbard, que costumava dizer algo como: “se os libertários não vão defender o fim do estado, quem vai?”. E já que as pessoas tendem a cair numa posição “meio termo” é melhor já defender a posição extrema, assim o meio termo ficará mais próximo daquilo que desejamos.

As candidaturas que mais me chamaram a atenção foram: Rodrigo Saraiva Marinho (PSL), Fábio Ostermann (PSL) e Bruno Souza. (PSB). Os três são libertários, mas só o Bruno foi eleito. O Saraiva fez um ótimo trabalho e ficou a poucos votos da vitória, e isso defendendo pautas bem libertárias. O Ostermann foi o primeiro candidato a prefeito e teve um bom desempenho, considerando que sofreu muito com o voto útil que veio do medo de que o PSOL ou o PT fossem para o segundo turno. O Bruno conseguiu se eleger vereador como o sexto mais votado da cidade, e isso gastando pouco, apenas defendendo ideias simples de mais liberdade e menos gasto estatal. Seus votos e iniciativas já retiraram centenas de milhões de reais das presas dos políticos, o que é uma excelente vitória.

Infelizmente ainda existe muito medo de se dizer abertamente que imposto é roubo e que o estado não tem lugar algum na sociedade, mas penso que esse medo deve se dissipar ao longo das próximas campanhas.

Tenho uma ideia pessoal de que se quero convencer as pessoas a abandonar o estado, seria muito bom se elas desejassem ter uma pessoa como eu, um anarcocapitalista, como vizinho. Por isso tento ser educado e calmo na medida do possível, e não acho que estratégias ofensivas sejam efetivas

Boletim da Liberdade: Desde o “renascimento” do movimento liberal brasileiro, nos idos dos anos 2000, pelo menos três agremiações partidárias passaram a ser vistas como potenciais legendas que poderiam abrigar, parcialmente ou totalmente, os interesses dos libertários nas eleições: o Partido Libertários (LIBER), cujo projeto chegou inclusive a iniciar o recolhimento de assinaturas mas foi depois descontinuado; o Partido NOVO, que foi aprovado para disputar eleições apenas em 2015; e, mais recentemente, o Partido Social Liberal (PSL), em franca renovação pela corrente “Livres”. Como você avalia esses três projetos, e como você enxerga que um libertário, mais precisamente um anarcocapitalista, deve se portar durante as eleições?

Raphäel Lima: O LIBER infelizmente acabou desaparecendo por problemas práticos e pela dificuldade de formar um partido do zero sem amplo financiamento, como foi o caso do NOVO. Mas seus membros hoje estão em peso dentro do Livres (PSL). O NOVO tem uma perspectiva mais eficientista, mas tem vários libertários dentro e muita coisa boa pode sair de lá. O grande caso é o Livres, que de fato tem uma corrente realmente libertária. Ambos devem ter resultados muito bons em 2018, pelo que dá para ver por agora.

A minha posição, como defendida no meu livro, é que não é necessariamente antiético participar da política se sua ação for apenas e tão somente para atrapalhar o estado. De que o voto não significa absolutamente nada e não passa de um ritual sem sentido, diferente da posição de que ele de alguma forma legitima a organização criminosa estatal, e de que devemos enxergar as eleições como uma brecha de ataque contra o estado, usando isso para enfraquecê-lo o máximo possível, mesmo que isso provavelmente não venha acabar com ele completamente.

Não é necessariamente antiético participar da política se sua ação for apenas e tão somente para atrapalhar o estado. […] Devemos enxergar as eleições como uma brecha de ataque contra o estado, usando isso para enfraquecê-lo o máximo possível.

Boletim da Liberdade: Muitas personalidades influentes que, no início, se identificavam como libertárias e pareciam ser mais intransigentes na defesa de “ideias radicais”, parecem ter amenizado o discurso ao longo do tempo, ou mesmo focando sua atuação em correntes específicas do pensamento liberal, como o chamado “libertarianismo de esquerda” ou o “liberalismo conservador”. Como você enxerga esse movimento de “desradicalização” e essas subcorrentes internas do pensamento liberal?

Raphäel Lima: Conheço pouquíssimas pessoas que recuaram da posição libertária e nenhuma que a fez na direção da esquerda, e até hoje nenhuma por boa razão. Penso que isso vem de uma explicação incorreta ou insuficiente da posição libertária e isso deve se resolver com o tempo.

Esse recuo é uma enorme ameaça porque já sabemos que o liberalismo clássico é uma ideologia falida, justamente porque tolerou o estado como uma instituição a ser aceita pela sociedade e passou séculos tentando enquadrar o círculo com enormes remendos ad-hoc sobre onde e quando é permissível invadir os direitos individuais, enquanto tentava defender os direitos individuais.

Essa salada argumentativa que no fim das contas não passava de utilitarismo intelectualmente preguiçoso levou ao atual declínio que vemos na Europa, EUA e tantas outras nações que acharam que eleições e tribunais estatais seriam capazes de conter a sanha estatal. Olhando para trás é difícil imaginar como imaginaram que isso poderia funcionar.

A única posição coerente com os direitos naturais e com a escassez é o Anarcocapitalismo, e isso não pode ser negociado. Enquanto utópicos liberais clássicos insistirem que alguma forma de governo é necessária, ou pior, desejável, e que a praticidade deve triunfar sobre a ética, passarão infinitos séculos debatendo socialistas sobre por que a descentralização é mais eficiente do que o planejamento central, e quando fraquejarem nesse debate, carnificinas gigantescas ocorrerão.

O liberalismo clássico é uma ideologia falida, justamente porque tolerou o estado como uma instituição a ser aceita pela sociedade. […] Enquanto utópicos liberais clássicos insistirem que alguma forma de governo é necessária […] passarão infinitos séculos debatendo socialistas

Boletim da Liberdade: Você gravou depoimentos à série de documentários “Brasil Paralelo”, ao lado de várias figuras que, declaradamente, possuem pensamentos diferentes do seu. Um trabalho em conjunto com figuras de diferentes visões realmente agrega algo?

Raphäel Lima: Também publico vídeos no YouTube, onde a maioria dos outros produtores de conteúdo tem pensamentos diferentes, e isso não é um problema e sim uma vantagem. É importante “pregar para os convertidos” justamente para evitar o problema da questão anterior, porém é preciso entrar em novos espaços para alcançar novas pessoas, e estar ao lado de ideias diferentes não significa apoio a elas.

Boletim da Liberdade: Com o crescimento do ecossistema liberal no Brasil, multiplicaram-se as organizações e grupos pelo país. São think tanks, websites, movimentos populares, projetos específicos, por aí vai. Nesse sentido, quais organizações que você considera que têm feito um trabalho mais relevante e original?

Raphäel Lima: É uma avaliação quase impossível porque quase todos operam sozinhos em seu nicho. Não é justo comparar um site de editorial mais popular como o Spotniks com o Instituto Mises Brasil, ou com um projeto de grupo de estudo em uma universidade do interior. O que é importante e que me deixa otimista é ver o quanto o ecossistema como um todo cresceu e se aprofundou, e em quão pouco tempo isso aconteceu.

Boletim da Liberdade: Agradecemos pela entrevista e finalizamos perguntando quais são os seus projetos e metas para os próximos meses, e se você pretende ser candidato a algum cargo político em 2018.

Raphäel Lima: Nos próximos meses estou focado em terminar o já famoso projeto do canal, a mega-aula sobre a crise de 1929. Depois várias outras pautas maiores surgirão: educação domiciliar, Bitcoin, empreendedorismo, e por aí vamos.

E não serei candidato em 2018, a não ser que algum grande evento bizarro venha a acontecer. Uma coisa que aprendi com o canal é nunca tratar em absolutos nesses tipos de previsões e expectativas, mas não faço a primeira menor ideia do que poderia acontecer para mudar essa situação. Duvido seriamente que eu um dia me candidate a qualquer cargo. Não acho que isso seria eficiente. Enquanto posso produzir quase vinte vídeos por semana e impactar milhões de pessoas por mês, caso eleito meu trabalho se reduziria muito e se localizaria muito. Me parece ser muito mais eficiente a divisão do trabalho: continuo promovendo o libertarianismo e usando o canal para promover quem quiser entrar na trincheira.

Duvido seriamente que eu um dia me candidate a qualquer cargo. Não acho que isso seria eficiente. Enquanto posso produzir quase vinte vídeos por semana e impactar milhões de pessoas por mês, caso eleito meu trabalho se reduziria muito e se localizaria muito

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