O sentimentalismo cordial do brasileiro: “Linkedin não é Tinder” - Colunas - Boletim da Liberdade

O sentimentalismo cordial do brasileiro: “Linkedin não é Tinder”

03.05.2019 10:21

Vivemos em uma sociedade da retórica e não podemos imaginar uma sociedade livre sem a retórica. Esse é o principal ponto da economista Deirdre McCloskey para justificar a tese de que retórica é sinônimo de liberdade.

McCloskey considera que, sem a persuasão, não existiria a economia de mercado, com o seu complexo sistema de vendas e canais de marketing . Também não existiria o processo eleitoral do voto democrático. São portanto a retórica e a liberdade de expressão, segundo McCloskey, algumas das grandes causas do progresso e desenvolvimento humano, seja em seus aspectos econômicos, sociais ou políticos.

Contudo, o que McCloskey parece ignorar é que esta mesma retórica sobre a qual uma sociedade livre se assenta depende de padrões culturais estabelecidos. Uma sociedade com valores culturais viciados e puramente sentimentais tende a ser persuadida e facilmente manipulada por demagogos, sendo conduzida ao colapso e destruição. Em outras palavras, uma sociedade que emprega a retórica de forma sadia depende de um uso adequado da retórica segundo critérios culturais sadios, racionais e objetivos.

Que critérios culturais sadios e objetivos são esses? Os liberais modernos talvez me estranhem diante de afirmação tão dogmática. Mas devemos reconhecer o fato de que sociedades capitalistas liberais, fundadas na concorrência de mercado e no contínuo aperfeiçoamento produtivo, para que consigam avançar, necessitam de um ambiente cultural baseado na supressão de sentimentos subjetivos em nome do que é racionalmente útil ou produtivo. Compro esta roupa porque é barata e de qualidade e não porque eu tenho pena do vendedor. Contrato este trabalhador porque é produtivo e não porque eu tenho por este sentimentos afetivos de ordem pessoal e familiar. Todas essas decisões e escolhas econômicas, mais do que meras decisões individuais de cálculo e maximização de utilidade, dependem de questões morais delimitadas pela formação cultural.

Foi justamente essa cultura de supressão emocional de paixões pessoais que permitiu o desenvolvimento do capitalismo liberal no Ocidente, com a sua respectiva superação das antigas relações sociais baseadas em laços tribais e feudais. Antigas relações feudais que foram, por sua vez, substituídas pelas modernas relações individualistas e impessoais de mercado, protegidas e garantidas por um estado racional, que aplica leis de forma igual a todos os indivíduos.

Em resumo, toda ordem capitalista e liberal democrática subsiste em valores racionais, impessoais e objetivos. manifestadas seja no meio econômico, judiciário e político. Porém, quando uma ordem social carece de razão, impessoalidade e objetividade, caímos no caso brasileiro.

Em resumo, toda ordem capitalista e liberal democrática subsiste em valores racionais, impessoais e objetivos. manifestadas seja no meio econômico, judiciário e político. Porém, quando uma ordem social carece de razão, impessoalidade e objetividade, caímos no caso brasileiro.

Notamos como o Brasil apresenta uma grande dificuldade de delimitar esfera pública e pessoal, objetivo e subjetivo. E essa é justamente a grande ideia por trás da figura do homem cordial, definido pelo sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda.

Um exemplo claro. Notamos constantes reclamações no meio corporativo sobre o uso inadequado de alguns usuários do Linkedin para fins afetivos e não-profissionais, o célebre “Linkedin não é Tinder”.

Não se trata aqui somente de “machismo estrutural”, como o movimento feminista contemporâneo gosta de acusar, mas sim a ponta do iceberg, um vício cultural muito mais profundo, que se faz presente de forma indiscriminada em todos os gêneros e etnias. A sociedade de tipo capitalista, racional e burocrática exige um nível de controle emocional e de tratamento impessoal de indivíduos que colide com a nossa tradicional cordialidade.

A cordialidade do brasileiro também explica o nosso grande apreço por debates corporativistas, ao estilo de torcidas organizadas, como os encontrados nos debates da previdência e na discussão do corte das verbas públicas das universidades.

O sentimentalismo cordial parece ser no Brasil o motor de nossas decisões e escolhas políticas, morais e econômicas. E ele tem efeitos nefastos sobre a sociedade, desmoralizando todo o nosso sistema político e econômico, ao abrir caminho para a exploração abusiva dos meios publicitários e jornalísticos. Matérias jornalísticas de conteúdo sensacionalista, como o caso Constância do Estadão, produtos de propaganda enganosa, ao estilo Bettina. Todos de conteúdo claramente apelativo, que visam a promover e despertar uma reação incondicionada, automática e irrefletida dos instintos passionais pelo público, sem nenhum critério objetivo baseado na lógica e nos fatos.

O agente persuasivo cordial, nesse sentido, age como um mágico, e a sua persuasão é uma hipnose. Não há preocupação da conformação do objeto de persuasão com critérios objetivos de resultados, qualidade e custo. É a demagogia por excelência que corrói todas as liberdades conquistadas.

Sociedades livres dependem da retórica para se desenvolverem, mas o contrário nem sempre é verdadeiro. E o caso brasileiro é um grande exemplo que demonstra ser possível que a liberdade entre em descrédito através de uma cultura tolerante e promotora de práticas viciosas de persuasão ao público. Uma persuasão fundada em uma retórica irresponsável e demagógica não promove progresso, mas perpetua o estado de degeneração cultural, política e econômica no qual estamos imersos e de que dificilmente sairemos se não mudarmos.

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