Cisnes Negros e as enchentes do Rio - Colunas - Boletim da Liberdade

Cisnes Negros e as enchentes do Rio

12.04.2019 07:55

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Crivella, decretou nesta última quinta-feira (11) estado de calamidade pública para a cidade, em função das fortes chuvas e enchentes ocorridas ao longo da semana.  Ao todo, a chuva, mencionada pelo prefeito como “completamente atípica”, é a maior chuva registrada em 22 anos na história da cidade. É também mais um capítulo da série de catástrofes ocorridas no país desde o início de 2019, entre as quais as chuvas de fevereiro também ocorridas no Rio, que vitimaram 6 pessoas,  e o rompimento da barragem de Brumadinho em Minas Gerais, com 223 mortos.

A postura do prefeito em face à catástrofe natural da semana, que em declaração à imprensa culpou o aquecimento global, as restrições fiscais do município e a União que não transfere recursos, foi alvo de fortes críticas. Desta declaração dada pelo prefeito, devemos de fato levar em consideração as dificuldades fiscais enfrentadas hoje por entes federativos, decorrentes de um sistema federalista injusto, como já abordado anteriormente em um artigo. Porém, não podemos deixar de concordar que essa postura de um chefe de governo em prestar contas perante o público foi no geral chocante, e que infelizmente reflete uma tendência muito comum e disseminada  em nossos hábitos de brasileiro. Esta tendência é o fatalismo cultural.

O fatalismo cultural é um dos temas mais recorrentes e bem documentados por escritores brasileiros. Imortalizado em obras como Vidas Secas de Graciliano Ramos, o Cortiço de Aluísio Azevedo, e o clássico Jeca Tatu de Monteiro Lobato, o fatalismo consiste na crença pessimista de que o homem é um ser passivo em face à natureza. Uma natureza diante da qual o homem não possui poder e nem controle algum, cabendo a este a única alternativa de aceitar inerte todas as suas adversidades e culpar forças cósmicas que escapam ao seu entendimento. Não há espaço para a responsabilidade individual, livre iniciativa e nem controle de riscos em um mundo trágico. É assim, sempre foi, cabe a nós aceitarmos o destino como ele é.  Pau que nasce torto, morre torto.

É esse fatalismo cultural passivo que nos torna incapazes de prever e se antecipar a adversidades, não somente adversidades puramente naturais como as enchentes do Rio, como também humanas como a fome e miséria. Diante de um mundo fatalista dominado pelo terror cósmico, é como se o brasileiro vivesse a realidade de forma plenamente imediatista e não possuísse capacidade imaginativa de pensar em cenários acidentais que destoem do aqui e o agora. E por não possuirmos esta capacidade imaginativa do acidental, não abstraimos planos e estratégias de ação para contornar e minimizar os seus efeitos. O que fazer em caso de doenças, desemprego e envelhecimento? Somos imediatistas e impacientes demais para se preparar a isso. A taxa de poupanca das famílias é uma das mais baixas do mundo. E se começar a época de chuvas? Não preparamos gastos de prevenção de enchentes e preferimos culpar a restrição fiscal do orçamento do município.

Diante de um mundo fatalista dominado pelo terror cósmico, é como se o brasileiro vivesse a realidade de forma plenamente imediatista e não possuísse capacidade imaginativa de pensar em cenários acidentais que destoem do aqui e o agora.

Além do imediatismo e incapacidade abstrativa, o fatalismo cultural também está associado ao comodismo com a realidade. A realidade para o fatalista é baseado inteiramente em impressões de dados momentâneos e habituais de que o agora está tudo bem, e sobre a qual cenários de intempéries e desastres são suposições remotas demais a serem consideradas. Mas, como dizia David Hume, os hábitos de se ver sempre hoje cisnes brancos podem promover crenças e suposições falsas de que todo cisne é branco. Habituados e acomodados nas impressões do momento, deixa-se de considerar a possibilidade de aparecer um dia um cisne negros. Neste sentido, o fatalista comodista mantém falsas crenças sobre a realidade, como se a segurança do presente e agora sempre se repetisse ad infinitum e nunca houvesse cisne negros.

O crescimento econômico e progresso civilizacional do mundo consistiu precisamente na superação do fatalismo e no aprendizado com cisnes negros, permitindo a adaptação e antecipação a crises e tragédias. Foi a construção de diques para prevenções de enchentes no Egito Antigo. Foi o aperfeiçoamento de sistemas de plantio e estocagem de alimentos para prevenções de períodos de secas em civilizações antigas. Foi o aperfeiçoamento de mecanismos institucionais de direitos legais para prevenções de desvios autoritários de governantes, grandes inovações da Magna Carta dos ingleses e da Constituição dos americanos. É a busca constante de aperfeiçoamento de técnicas mais eficientes de produção e reduções de custos para um empresário não sucumbir aos seus competidores.

Adaptabilidade humana ao acidental e circunstancial, com a busca constante de aprender com o que é trágico e superá-lo por tentativa e erro, um dos motes centrais dos pensadores iluministas da Escola Escocesa, é a substância central do processo histórico civilizacional, e o parâmetro fundamental sobre o qual uma sociedade pode ser chamada de mais ou menos desenvolvida.

Os cisne negros fornecem excelentes oportunidades para a adaptação e aperfeiçoamento civilizacional. Oportunidades estas que podem ser desperdiçadas por uma postura passiva e fatalista frente as adversidades. Não aprender com os erros passados, e manter as mesmas crenças de sempre, pode ser desastroso e grande fonte de fracasso como projeto de país. A grande questão a ser levantada agora após as sucessivos desastres de 2019 é: o que fazer para evitá-los novamente?

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