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Liberdade religiosa promove valores morais – entenda por quê

01.03.2019 02:30

Segundo dados de opinião do World Values Surveys (2005-08), 4% dos noruegueses e suecos, 16% dos espanhóis e 8% dos alemães vão à missa pelo menos uma vez por semana, em comparação com 36% dos norte-americanos e 48% dos brasileiros. Deus é “muito importante” para apenas um em cada dez alemães e holandeses, enquanto 58% dos norte-americanos afirmam que Deus é “muito importante” para suas vidas.

No geral, países europeus fogem do padrão internacional em termos de religiosidade. O que explica essa excepcionalidade? Além de explicações típicas de secularização da sociedade ocidental moderna, um fator histórico adicional pode contribuir, que é a intervenção estatal na esfera religiosa e a presença de igrejas oficiais de estado.

Aplicando analogia com a economia de mercado, na religião, assim como nos negócios, monopólios estatais são ineficientes. A pluralidade e competição entre grupos religiosos em um mercado de ideias e crenças encoraja inovações, fomentando a experiência de culto e de filiação à igreja. Paralelamente, a existência de igrejas oficiais monopolizadas promove o engessamento burocrático da vida religiosa e a sua perda de vitalidade espiritual, ainda que sustentada por volumosos subsídios públicos.

No geral, países europeus sempre foram altamente reguladores da vida espiritual, seja através da instituição de religiões oficiais de estado, (como na Inglaterra, Holanda e países escandinavos) seja através de restrições ao proselitismo público (como na França). Como consequência, estes detêm hoje grau de participação religiosa inferiores ao de países fundados na separação total entre estado e religião, como os EUA.

Um outro exemplo ilustrativo dos efeitos nocivos que estatismo religioso pode promover foi a atuação da Igreja Católica no Império brasileiro. O catolicismo brasileiro do século XIX, sob tutela financeira do imperador em meio o regime de padroado, assistiu a uma franca crise no número de vocações, bem como o fechamento de conventos e dioceses.

Este impedimento no desenvolvimento das igrejas se refletia na negligência com a expansão de dioceses, que não acompanhavam o mesmo ritmo de crescimento da população do país. Esta negligência levaria a profundas consequências no século XX. O país detinha, em 1933, uma média de um padre para 12.000 habitantes, enquanto a proporção tradicional da Europa era de um padre para 1000 fiéis¹. Somente com a proclamação da República, e a instituição da separação entre estado e igreja, que este processo foi parcialmente revertido, com uma retomada no número de igrejas estabelecidas e ordenações eclesiásticas.

A liberdade religiosa republicana dinamizou a sociedade brasileira. Enquanto a Igreja Católica do Brasil atual assiste a um sucessivo declínio do número de fiéis, em meio ao crescente aparelhamento ideológico marxista pela Teologia da Libertação, o movimento pentecostal e neopentecostal surge com força de equilíbrio, disseminando a mensagem cristã para comunidades outrora ignoradas por católicos. Caso não houvesse liberdade religiosa, e estivesse o catolicismo instituído como religião oficial tal qual no período monárquico, não verificaríamos o atual ressurgimento da base liberal conservadora na política brasileira.

Dificilmente também haveria a recente ascensão dos valores empreendedores nas periferias, muito impactado pela da teologia da prosperidade de igrejas neopentecostais. Provavelmente o Brasil, sem a liberdade religiosa e o avanço dos protestantes, não teria reagido tão fortemente ao patrimonialismo de estado, como reagiram nas manifestações anticorrupção que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A regulação do estado sobre o mercado de religiões pode ter efeitos adversos sobre a vida cultural e moral de um país.

Esta analogia entre igrejas e mercado competitivo é também recorrentemente explorada pela teoria econômica, em especial pela economia da religião. Economista e professor em Harvard, Robert Barro, em seu artigo seminal da área, Religion and Economic Growth, é um dos que abordam esta relação. O artigo utiliza uma base de comparação de mais de 100 países, composta de dados de informações individuais coletados por seis pesquisas internacionais de opinião entre 1981 e 1999.

Tendo estes dados, Barro aponta para duas evidências importantes. A primeira evidência é que a variável de disseminação social de crenças como a vida após a morte, a existência de Deus e o céu e inferno, tendem a exercer efeitos positivos sobre o nível de PIB per capita. Barro sugere que estas crenças religiosas impactam na economia ao influenciarem condutas éticas e hábitos individuais como trabalho, poupança e confiança, tendo assim efeitos favoráveis sobre a produtividade. A segunda evidência está no artigo comprovar uma ausência de relação entre interferência estatal na religião e religiosidade. Barro mostra que países com a presença de religiões oficiais de estado apresentam menor grau de religiosidade em relação a países com maior grau de separação entre estado e religião.

Em resumo, o artigo de Barro comprova não somente que um ambiente de plena atuação das forças competitivas do mercado religioso tende a ser mais espiritualizado, como também mais próspero economicamente. Críticas e controvérsias podem ser levantadas a esta tese. Mas de fato, o caso emblemático americano, fundada na coexistência pacífica de pentecostais, batistas, metodistas, judeus, presbiterianos e católicos, comprova como um mercado de religiões dinâmico e competitivo pode contribuir para o aparecimento de comunidades profundamente espiritualizadas e moralizadas, engajadas politicamente e economicamente.


[1] Leonard, É. G. (1951). O Protestantismo Brasileiro. Estudo de eclesiologia e de história social.

Foto: Igreja de Notre Dame, em Paris. (Reprodução/Dicas Paris)

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