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Bandeirantes e Pioneiros: Por que o Brasil não é os Estados Unidos?

22.02.2019 03:21

É 1928. Henry Ford buscava uma solução para o problema de suprimento de borracha para sua próspera indústria automobilística. Em meio aos elevados preços impostos por produtores ingleses do Ceilão e holandeses em Java, uma ideia lhe apareceu, que foi de fundar uma colônia produtora de borracha em escala industrial na Amazônia, a Fordlândia. Recrutando mais de três mil trabalhadores caboclos dos seringais a salários muito acima do cobrado por coronéis locais, Ford ergueu no meio da selva amazônica uma cidade dotada de complexa infraestrutura: casas, hospitais, cafeterias, farmácias, serrarias e quadras de tênis. Havia Frigorífico para a conservação de alimentos durante seis meses para mais de duas mil pessoas, e um hospital de primeira linha em eficiência e conforto.

O projeto tudo tinha para alcançar êxito, Mas houve um imprevisto: os próprios trabalhadores brasileiros. Um motim se instalava em torno das cafeterias. Os trabalhadores caboclos, armados de varapaus, bradavam aos gritos de: “Abaixo o espinafre! Abaixo o espinafre!”. Os caboclos não aceitavam restrições ao consumo de cachaça, e queriam como parte da alimentação uma boa feijoada com parati. Com o tempo, outros episódios similares fizeram com que dirigentes da Ford aprendessem grandes lições de sociologia. Os caboclos não aceitavam a maneira puritana de viver, baseada na alimentação vitaminada e na disciplina de eficiência do trabalho. Ford abandonaria a Amazônia em 1946.

Haverá diferenças culturais intransponíveis entre o trabalhador brasileiro e o americano? Quão relevante é a cultura na formação econômica e social de nosso país? Bandeirantes e Pioneiros, de Viana Moog, levanta essa questão, ao realizar um estudo comparado entre a formação cultural do Brasil e dos Estados Unidos. A obra, publicada em 1954, se tornaria um dos grandes clássicos de interpretação do Brasil. Moog, ao invés de pensar o Brasil como produto passivo e determinístico de grandes agregados e instituições sociais, realiza uma abordagem de viés culturalista e a nível individual, que une os campos da economia, antropologia, literatura e da psicologia.

Moog descreve dois principais tipos ideais que norteiam o imaginário e as aspirações individuais de conduta no Brasil e Estados Unidos: o tipo do bandeirante, para o brasileiro, e o tipo do pioneiro, para o americano. Ambos se assemelham no aspecto heroico, desbravador de fronteiras e definidores do gigantismo territorial que hoje existe para ambos os países. Contudo, tais semelhanças começam a divergir em outros aspectos morais e psicológicos.

Para Moog, o bandeirante é um aventureiro voltado para o curto prazo e para a busca desenfreada por enriquecimento rápido e imediato. O sonho idílico da busca do El Dorado norteia suas ações. Nota-se neste um perfil predatório e extrativo de riquezas, pouco afeito à regularidade do trabalho fixo e permanente. Já o pioneiro americano, influenciado pela ética protestante calvinista, valoriza amplamente as virtudes econômicas do trabalho, da busca de sucesso e accomplishment, um termo inexistente no português.

O bandeirante, para Moog, é dotado de um nomadismo econômico transitório que lhe confere um desejo de retorno ao país de origem de onde saiu. Apresenta assim, grande idolatria à Europa, e a todos os símbolos ornamentais por ela representado. Uma cultura de verniz, pouco autêntica e alheia às necessidades concretas da vida local. O bandeirante é desprovido de qualquer senso de apego patriótico à terra que explora e emigra. Já pioneiro rompeu com o passado europeu e emigra para ficar, tornando a América como a terra prometida de um povo liberto do cativeiro tirânico do Velho Mundo absolutista. Enquanto o sonho do bandeirante é se tornar europeu, o sonho do pioneiro é deixar de ser europeu e se tornar americano.

Ainda em Moog, o Bandeirante verifica um desenraizamento espiritual e moral de sua comunidade de origem, entregue a impulsos sexuais, sem considerações de natureza ética, envolvido na captura e escravização de indígenas. Por outro lado, esse individualismo e desenraizamento permitiu amplo espaço para a miscigenação, livre das censuras sociais comunitárias de envolvimento com não-europeus. Já o pioneiro emigra junto com sua família, transplantando as instituições comunitárias do país de origem à colônia. Apresenta-se com isso grande grau de integração da comunidade na resolução de problemas, favorecendo o autogoverno e um poder estatal fraco. Por outro lado, o pioneiro se torna alvo de ampla repressão sexual do meio social, apresentando dificuldades à integração com grupos sociais estranhos e à miscigenação.

Bandeirantes e Pioneiros revela duas sociedades de culturas antagônicas. Estados Unidos sendo o gigante desperto e o Brasil o gigante adormecido. Miscigenação, individualismo, apego ornamental a tradições europeias, rejeição ao trabalho para os traços característicos do homem caboclo brasileiro. Valorização das virtudes econômicas, patriotismo, comunitarismo local, autogoverno e protecionismo étnico para o self-made man americano.  Que o Brasil incorpore as melhores virtudes do Gigante Acordado, e desperte de sua longa letargia histórica, sem abandonar os seus próprios acertos enquanto civilização.


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