Crônicas de um Brasil despedaçado: Eduardo reencontra Mônica - Colunas - Boletim da Liberdade

Crônicas de um Brasil despedaçado: Eduardo reencontra Mônica

15.02.2019 11:58

12:30, horário de chegada do vôo. Mônica desembarca do aeroporto do Galeão, retornando dos seis meses de intercâmbio em economia na New School de Nova York. Eduardo, seu namorado, a recebe no saguão e chama um táxi. Os dois discutem os acontecimentos dos últimos seis meses do Brasil.

– Honey, não consigo acreditar nisso. Como vocês conseguiram eleger um apologista de Holocausto e do extermínio de gays e mulheres? Porque esta bancada neopentecostal, neoliberal, neoconservadora, está acabando com tudo.

– Amor, é simples. O PT governou esse país por 13 anos.

– E eu fiquei acompanhando de lá essa tragédia de Brumadinho. Oh god! A Vale precisa ser reestatizada. Não é possível que uma empresa lucre tanto às custas da miséria de milhares. As grandes corporações ainda destruirão a humanidade

– Desastre de Chernobyl, derramamento de petróleo da Petrobras em 2000, só para listar alguns desastres ambientais conduzidos por empresas estatais. Se existe algum sistema que mais destruiu a humanidade, foi o socialismo.

– Honey, hello? O mundo está mudando, saia dessa lógica de Guerra Fria.

– Certo, mas o socialismo dá certo desde quando?

– Eu não disse nenhum absurdo também. Eu fiquei 6 meses em Nova York, e o que mais vejo lá é gente discutindo sobre socialismo. Essa geração Millennium está quebrada pelo sistema financeiro. O capitalismo está perto de seu limite. Tem até uma deputada americana, recentemente tem lançado a bandeira do Green New Deal. Não se pode pensar em um sistema econômico livre sem um estado que garanta um mínimo de justiça social e igualdade de oportunidades…

– E esse conceito de justiça social? Acho que é importante entender uma coisa. Economistas com Nobel, como F. Hayek, declaram que isso é incompatível com a própria ideia de liberdade individual. Quando se faz justiça para se perseguir resultados sociais equitativos, é preciso tratar indivíduos desigualmente, o que é injusto em si. Indivíduos que se esforçam mais são punidos, enquanto indivíduos que se esforçam menos são premiados.

– Não necessariamente, Eduardo.

– Veja esse caso das ações afirmativas e cotas para concursos. É justo que um indivíduo precise estudar menos para o Enem do que o outro, só por motivos de pertencimento a um grupo étnico? Tem que haver sim, acesso dos mais pobres a educação de qualidade. Mas nunca ferrar com os mais educados para premiar os menos educados, em nome de resultados iguais.

– Não é só um problema de educação. É discriminação também. Mulheres são tão bem educadas quanto os homens, mas recebem menos que eles e não ocupam cargos de chefia nas empresas. Isso é o que mais está sendo discutido nos Estados Unidos também.

– Por quem? Só se for por gente de esquerda.

– Todas as empresas do Vale do Silício, altos executivos, etc. Empresas como a Google, que têm buscado promover um ambiente de trabalho diversitário e Gender Neutral. Livre de masculinidade tóxica e microagressões. Não tem desculpa para isso, Eduardo. E é papel do estado gerar justiça social, intervindo no mercado quando há discriminação de gênero. Não podemos ficar à mercê da discriminação e da lógica do lucro de algumas empresas machistas e sexistas.

– E quanto à desigualdade de salário de mulheres, primeiro, se as mulheres ganhassem salários baixos só por serem mulheres, por que raios essas empresas machistas não trocam todos os homens por mulheres, sendo a mulher uma mão-de-obra comparativamente mais barata no mercado de trabalho? Não é a lógica do lucro que fala mais alto? Segundo, existem estudos sérios que comprovam que grande parte desta desigualdade salarial é ocasionada não por discriminação, mas por menor tempo de exposição destas ao mercado de trabalho.

– Tem que ser muito reacionário para pensar assim.

– Ué? Vou dar um exemplo, uma mulher talentosa e bem sucedida em uma empresa, que interrompe a carreira para cuidar dos filhos, passando a trabalhar por meio período. Isso faz com que muitas mulheres tenham sim perspectivas de ganhos salariais ao longo de sua carreira, porém não de maneira tão acelerada quanto os homens. Elas interrompem a carreira em certos períodos, por decisão própria e não por preconceito.

– É porque os homens não dividem as tarefas, é porque a sociedade ainda trata as mulheres como escravas do lar!

– Hum.., qual a alternativa a isso?

– Se houvesse igualdade de gênero verdadeira, as mulheres não precisariam cuidar dos filhos, estariam trabalhando mais e ganhando tanto quanto os homens. O estado tem que investir em creches, tem que dar licença paternidade compulsória aos homens. Não é justo isso! Não acredito que você tenha passado a pensar assim.

– E se elas quisessem cuidar dos filhos e ficar em casa? O estado tem que forçá-las a trabalhar em nome dessa igualdade abstrata de gênero?

– Elas cuidam dos filhos porque essa sociedade judaico-cristã patriarcal impõe isso a ela! Mulher é uma construção social. Ninguém nasce mulher. Assim como ninguém nasce homem.

– Então você discorda da proposta de idade mínima da reforma da Previdência, lançada pelo Guedes, de que as mulheres devem se aposentar com 62 e os homens com 65 anos. Já que somos iguais, não é?

– Claro que concordo! Você está distorcendo o que eu disse! É claro que mulheres devem se aposentar mais cedo, porque elas são mais frágeis fisicamente.

– Isso é você que acha, ou que a sociedade te impôs a acreditar?

– Chega Eduardo. O que houve contigo? É assim que você me recebe, me atacando e fazendo mansplaining?

– Eu tenho parado de jogar futebol de botão, e passei a ler alguns livros. Deixa eu te contar um segredo

Eduardo sussurra no ouvido de Mônica – Olavo tem razão.

– Você não me ama mais! – Seus olhos começam a lacrimejar de dor e ódio.

– Bem que eu desconfiei que você não me procurava mais no Skype. Você fazia o curso do Olavo! – Eduardo é arrancado do Táxi.

– Nunca mais fale comigo, seu fascista!


Foto: Pixabay

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