Liberal, até chegar no meu quintal - Colunas - Boletim da Liberdade

Liberal, até chegar no meu quintal

14.05.2019 01:23

Pensei muito se deveria abordar um assunto tão espinhoso logo na estreia de minha coluna. Polêmico demais, arriscado demais, e muita gente pode se ofender. Teoricamente, uma péssima ideia para quem tem alguma pretensão política, mas falei sobre esse tema na Conferência Estadual do Students For Liberty (SFL) deste ano e ninguém saiu de lá me odiando. Claro que o público lá era muito mais homogêneo e ideológico, o que tornava mais fáceis discussões desse tipo, mas vou arriscar por aqui também. Afinal, preciso fazer jus ao nome da minha coluna, não é mesmo?

Sem mais delongas, precisamos falar sobre os “sou liberal, mas…”. Se alguém precisa se utilizar da expressão anterior para explicar sua posição sobre algum tema, é porque já deveria ter tido sua carteirinha de liberal cassada. “Esse caso é diferente”, “não pode ser tão radical”, “veja bem…”. As variações da frase são muitas, mas o significado é o mesmo. O maior teste para um liberal é continuar defendendo o liberalismo, mesmo em casos onde tem algum interesse contrariado. A verdade é que todo mundo se sente especial demais para seguir as mesmas regras dos demais, e é por isso que chegamos à nossa Constituição gigantesca, cheia de especificidades e exceções. Vamos aos exemplos.

Se alguém precisa se utilizar da expressão anterior para explicar sua posição sobre algum tema, é porque já deveria ter tido sua carteirinha de liberal cassada. “Esse caso é diferente”, “não pode ser tão radical”, “veja bem…”. As variações da frase são muitas, mas o significado é o mesmo. O maior teste para um liberal é continuar defendendo o liberalismo, mesmo em casos onde tem algum interesse contrariado.

Você já deve ter ouvido funcionários públicos se queixando da Reforma da Previdência (e talvez você até seja um deles) e colocando a culpa nos pobres. Afinal, soa muito mais bonito demonstrar preocupação com os desfavorecidos do que assumir que está chateado porque vai perder a aposentadoria integral ou porque não vai mais poder se aposentar aos 50 e passar mais 30 anos recebendo o benefício (expectativa de sobrevida, segundo o IBGE). A verdade é que para os pobres não vai mudar muita coisa e os mais afetados com a reforma serão os que ganham mais de R$ 10 mil e não podem virar PJ (leia-se, servidores públicos de médio e alto escalões). Então sejamos honestos, né? Lute por seus privilégios, se quiser, mas não diga que é pelos pobres, porque não é.

E o que dizer dos empresários que não vivem sem um empréstimo subsidiado dos bancos de fomento (BNDES, BNB, etc)? A desculpa: “Esses bancos têm um papel fundamental no desenvolvimento econômico do país. Sem eles, quantos empregos deixariam de ser gerados? O Brasil perderia importância no cenário econômico mundial”. Só que a realidade bate à porta e o próprio criador do BNDES (Roberto Campos) morreu amargamente arrependido da criatura que colocou no mundo. Basicamente, o governo toma dinheiro de toda a população e o entrega aos empresários amigos, aqueles que possuem o melhor lobby com os políticos. Como se não bastasse o mau uso do dinheiro público (os campeões nacionais estão todos encrencados na Lava Jato), a prática ainda distorce o mercado. Afinal, como disputar preços com uma empresa que possui tamanha vantagem competitiva? Se o dinheiro ficasse com a sociedade, os empregos seriam gerados de qualquer forma, mas não em setores/ empresas escolhidos pelo governo e é isso que esses empresários não querem.

Cheguei agora na categoria mais espinhosa, mas vamos lá: médicos que defendem a proibição de novos cursos de Medicina. A justificativa parece muito nobre: evitar que maus médicos vitimem a população mais desassistida, afinal, tem faculdades de Medicina muito ruins por aí. Tem mesmo, só que os médicos “liberais” que defendem isso esquecem de uma importante lei de mercado: quanto mais concorrência, melhores ficam os produtos e serviços, pois eles precisam se esforçar mais para se destacarem e conquistarem os “clientes”. Coloquei entre aspas porque há um tabu sobre tratar a Saúde como mercadoria. Tabu que vou ignorar, pois a construção de hospitais não é de graça, os equipamentos e remédios muito menos, e os médicos e enfermeiros não costumam trabalhar de graça. A Saúde é um mercado sim – por mais que isso choque os mais sensíveis – e, como tal, obedece às mesmas regras de oferta e demanda que os outros produtos e serviços. E a realidade é que não há nenhum exemplo no mundo de produto ou serviço que tenha melhorado por proibir a entrada de concorrentes. Suspeito que o real motivo da reivindicação tenha a ver com outra importante regra de mercado: a concorrência faz os preços baixarem, e isso inclui salários.

E já que criei atrito com boa parte da população brasileira, porque não tratar agora de uma categoria muito mais abrangente? Todos nós estamos sujeitos ao que vou chamar de relativização ideológica. Esse fenômeno acontece quando defendemos a liberdade apenas daqueles com quem a gente concorda. É defender a liberdade de expressão de Danilo Gentili, mas pedir a prisão de Gregório Duvivier (que falou absurdos sobre Sérgio Moro), ou vice-versa. Ou defender que os pais decidam se a criança pode ou não tocar homem pelado no museu, mas fazer um escarcéu se os pais puderem decidir se os filhos podem fazer curso de tiro. Será que você está caindo nessa armadilha?

Se não nessa, seguramente está caindo em alguma outra: obrigatoriedade de diploma para jornalista, meia-entrada no cinema, barreiras alfandegárias para produtos importados, congelamento de preços do Diesel… quais desses você defende? Como isso afeta a sua vida?

“Todos querem viver às custas do Estado e se esquecem que o Estado vive às custas de todos” – Frédéric Bastiat

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