Carta a uma afegã – Colunas – Boletim da Liberdade

Carta a uma afegã

20.08.2021 10:59

Disclaimer: o texto de hoje é escrito pela Laura. A Laura mulher. É importante enfatizar antes de qualquer questionamento.

Diante dos últimos acontecimentos no Oriente Médio, eu não poderia ficar em silêncio. Sei que não tem sido fácil desde que você se conhece por gente; tampouco foi para mim. Em qualquer lugar do mundo, todas nós, em algum momento da vida, compartilhamos inseguranças semelhantes. A diferença está nos gatilhos que geram a sensação de não pertencimento a um mundo gerado e nutrido por mulheres, mas dominado pelos homens.

Sei qual é a sensação de ter de fechar as pernas ao sentar, afinal “é falta de educação” uma mulher crescer confortável com a exposição da própria intimidade. Também aprendi a escolher as roupas visando a manutenção da minha integridade física ao sair em público, e dentre o apanhado de padrões comportamentais que reforçamos diariamente, a maioria consiste em reduzir nossa feminilidade, sempre para que o “sexo forte” não caia em tentação. No entanto, no dia de hoje, todas essas pequenas torturas não me incomodam tanto quanto cogitar passar pelo o que vocês, mulheres do Oriente, passam.

Apesar dos pesares, dizem que tenho direitos por aqui e posso decidir o rumo da minha vida sem precisar da autorização de terceiros, o que não é o seu caso. Certa vez, uma tal de Ayn Rand, disse que o maior propósito moral do indivíduo é alcançar sua própria felicidade. Desafortunadamente, “Felicidade” não é uma preocupação do atual governo afegão. Como uma mulher pode alcançar realização sem poder estudar, votar, sendo estuprada e forçada a se casar? Eles dizem que não farão de novo, mas nós já somos peritas em ouvir promessas que serão quebradas, não é?

Não espere pelos movimentos que “lutam” pelos nossos direitos. Estão preocupados apenas com pronomes de tratamento, exaltando características masculinas e reforçando implicitamente que a beleza e a feminilidade são fraquezas, ainda que o corpo de uma mulher seja tão forte a ponto de suportar as terríveis dores do parto, as quais um dia ainda quero experimentar. Portanto, se você está se sentindo sozinha com toda essa situação, medite em SER. A diversidade importa sim, e sua própria identidade como mulher não pode morrer.

Peço que se olhe no espelho antes de sair de casa. Observe cada traço que querem esconder embaixo dos panos. A tentativa deles de te reduzir ao ponto da não existência vai doer muito, mas é preciso que você se lembre do próprio rosto para não enlouquecer, dominando pontos estratégicos dessa guerra silenciosa. Durante a jornada diária, não haverão espelhos nos banheiros públicos, pois o batom não precisa ser retocado ou o delineador borrado. Ao procurar semblantes femininos, cópias suas estarão acompanhadas de seus algozes vagando em um mundo bruto, feio, e sem vida. Sua opinião não é considerada ou questionada; contudo, preserve-a, mesmo que pareça não importar. Por aqui, também seguiremos resistindo, apenas pelo fato de existir.

Foto: Mobile Mini Circus for Children