La Casa de Papel: uma ode à liberdade - Laura Ferraz - Boletim da Liberdade
PUBLICIDADE

La Casa de Papel: uma ode à liberdade

02.05.2020 07:57

Sempre me pergunto o que faria uma pessoa ler um artigo escrito por mim. Seria o título? A introdução do tema? A forma como tento passar veracidade no contato com o leitor? É uma incógnita. As temáticas centrais da minha coluna aqui no Boletim da Liberdade são política, mercado financeiro e cultura pop. Já falei sobre as duas primeiras, mas faltou peito para introduzir a última.

Minha paixão pelas artes – sobretudo a sétima – é antiga, nascendo junto ao meu interesse por política. É inegável que a produção cultural reflete nossa organização como sociedade e pode (e deve) ter uma análise dos pontos de vista político, social e econômico. A coragem de inovar que me faltava foi potencializada ao assistir em apenas uma semana as quatro temporadas de La Casa de Papel. Sim, eu sou um dos ETs que não havia assistido, pois gosto tanto da cena europeia (em especial a espanhola) que fiquei com medo de um seriado blockbuster me decepcionar. Já adianto que estava errada.


PUBLICIDADE


Esse texto será um pouco longo e contém spoilers, mas não o suficiente para comprometer quem sairá dele convencido a assistir El Fenómeno.

Madri, 2017: o roteirista Álex Pina escreve mais uma de suas séries para a emissora espanhola Antena 3. Em um país com passado marcado por uma ditadura, falta de oportunidades, xenofobia, machismo e intervenções estatais escancaradas à economia e liberdades individuais, é inconcebível a ideia de que La Casa de Papel tenha afundado em audiência já em sua segunda temporada.

Como descendente de Catalães, creio ter licença poética para tocar na ferida e afirmar que não foi interessante ao público espanhol assistir um retrato irretocável da sociedade local. Machuca ter verdades expostas em rede nacional de uma forma tão lúcida. Lucidez que chamou a atenção da Netflix, comprando os direitos da série. Integrando o catálogo mundial, não demorou muito para assinantes de países com hábitos mais descontraídos sobre seus próprios erros estruturais se identificarem e tornar LCDP em um fenômeno. Convenhamos, nós, latino americanos, temos maior facilidade em fazer piada das nossas desgraças.

Após a crise de 2008, no ano de 2011, o Banco Central Europeu criou 171 bilhões de euros, 185 bilhões em 2012 e 145 bilhões em 2013

O plot se passa em torno de um assalto a Casa de la Moneda y Timbre da Espanha. Caso você não saiba, é o local em que se fabrica dinheiro. Aqui no Brasil, essa tarefa é realizada pela Casa da Moeda, mas as decisões sobre quanto dinheiro será impresso são tomadas pelo BACEN (Banco Central). Após a crise de 2008, no ano de 2011, o Banco Central Europeu criou 171 bilhões de euros, 185 bilhões em 2012 e 145 bilhões em 2013, sustentando os bancos que emprestaram dinheiro a população. Assim, com a ajuda do Estado, os mais ricos repassam dinheiro aos mais pobres criando um falso aumento de liquidez na economia.

Se você se complicou com este vocabulário, não se preocupe que já irei explicar: maior liquidez significa mais dinheiro rodando. No entanto, continuamos tendo os mesmos produtos e serviços sendo ofertados. Aumentando artificialmente a demanda, os preços sobem, gerando maior endividamento da população, aumento dos juros e, por óbvio, da arrecadação Estatal.

Um homem de meia idade, nerd e com pitadas de Asperger na personalidade percebe tudo que fora mencionado acima, reunindo oito assaltantes com habilidades diversas para executar seu plano perfeito. Chamado de El Professor, Sergio Marquina é interpretado pelo brilhante Álvaro Morte, ator a quem já havia assistido em Durante la tormenta, dirigido por Oriol Paulo, e seria facilmente subestimado em seu potencial se não fosse por este grande papel. O professor é um humanista revoltado com o sistema. Percebe-se desde o início que não é pobre e o que lhe motiva nessa empreitada é criar o caos dentro do governo, expondo sua hipocrisia e falta de comprometimento com o famoso “bem público”. Ele e os demais atracadores ficam durante 5 meses estudando o plano e os protocolos de negociação da polícia na região metropolitana de Madri, em Toledo.

A polícia e a negociação ficam a cargo da Inspetora Raquel Murillo vivida por Itziar Ituño, uma mulher forte, mãe, com histórico de agressões pelo ex marido, mas acima disso, uma profissional respeitada e competente. Murillo passa a primeiro temporada atrás do professor, tendo todas suas atitudes de comando questionadas por liderar em um ambiente majoritariamente masculino. Em todos os momentos a vemos ser desacatada pelos próprios colegas de forma velada.

Raquel e Sergio são a representação de bem e mau que, em determinado momento, se confunde. Ela é uma pessoa como eu e você, acredita estar entre os mocinhos, e não nota que representa uma corporação que visa os interesses do governo e pouco se importa com os demais reféns, preocupada apenas com uma refém no assalto: Alison Parker, filha do embaixador do Reino Unido. Durante as negociações, todas as ações da polícia são baseadas apenas em Parker, havendo um momento em que o professor oferece libertar 8 reféns ou a menina.

Foi nesta sequência que tive o desejo de escrever sobre a série. O Estado e a polícia são, teoricamente, instituições mantidas com os impostos pagos pelos cidadãos sob a prerrogativa de manutenção da segurança na sociedade. O que acontece na série não é apenas ficção. Em qualquer lugar do mundo, o Estado toma como prioridade interesses individuais para a manutenção da própria existência. Nesse ínterim, a inspetora é forçada pelo serviço de inteligência a escolher a opção que manteria os laços diplomáticos entre Espanha e Reino Unido estáveis.

Durante o assalto, outros personagens assumem posições de destaque por serem o veículo de comunicação entre as ideias do roteirista e o público:

– Berlim é machista e egocêntrico, vê as mulheres como seres que só servem para ser fecundados e dar prazer aos homens;
– Denver e Nairóbi são fugitivos por terem relações com o tráfico, evidenciando a ineficiência da guerra às drogas;
– Helsinque é um sérvio grandalhão que foi para a guerra. Em meio ao caos, se mostra simpático e revela ser gay, rompendo com os estereótipos do homem forte heterossexual;
– Tóquio é utilizada por Álex Pina como força motriz das mudanças na história. É egocêntrica como Berlim, impulsiva, brigona, atrevida e odeia regras, criando confusão o tempo todo (seu nome poderia ser Laura).

Para não me estender na descrição dos personagens, cito Arturo (presidente da Casa de Papel) Tamayo, Sierra e Gandía. Para quem é liberal ou libertário, são os personagens a serem odiados.

– Arturo engravida a própria secretária, tenta comprometer outros reféns e se coloca acima de todos por ter um cargo público. Vira coach após o assalto e celebridade na Espanha (confesso que adorei a crítica aos coachs de ocasião);
– Já Alicia Sierra é uma negociadora grávida e cínica que substitui Raquel Murillo nas temporadas 3 e 4. Promove tortura como forma de obter informações sobre os assaltantes em nome da Segurança Nacional, mas apenas quer exercer o poder que o distintivo e seu chefe, Tamayo, lhe concedem;
– Este último se autodenomina A Lei quando diz “Eles devem respeitar as leis. A lei sou EU” e dá sinal verde ao chefe da segurança Gandía para promover uma chacina dentro do Banco da Espanha;
– Gandía é movido pelo ódio e seu grande objetivo é sair como herói nacional ao executar uma mestiça (Nairóbi) e a “bicha”, como se refere a Palermo.

É possível identificar as temáticas abordadas na série descrevendo o comportamento de cada personagem. O cinema vem utilizando o arquétipo do anti-herói desde Alexander De Large em Laranja Mecânica ou V, em V de Vingança. Sabemos que há o genuíno interesse em lutar por causas e representar as mais diversas camadas da sociedade. Inclusive, alguns atores de La Casa de Papel são envolvidos em causas muito pertinentes. A dúvida que prevalece na mente de diversos entusiastas da liberdade e fãs da cultura pop é:

Como estes artistas são, na maioria das vezes, a favor do coletivismo e de mais Estado?

Prefiro acreditar que o Estado não deve possuir o monopólio da força (polícias e exército) para coerção individual ou o poder de criar mais ou menos moeda em nome do bem comum, pois já está claro que o bem desejado por aqueles que estão no poder é apenas o próprio. A série é exitosa ao criticar o sistema político vigente, ao exaltar a auto organização da sociedade, em sua fotografia estupenda com paletas escuras contrastadas pelo vermelho dos uniformes sugerindo desespero e a máscara de Dalí. Também reviveu uma canção icônica (Bella Ciao) que motivou a luta contra o fascismo durante a segunda guerra mundial. Por um mundo livre, estou como o Professor “Algumas vezes o politicamente incorreto é a única opção”.

La Casa de Papel está no catálogo da Netflix. Assista e comente abaixo o que achou!

Foto: Reprodução


PUBLICIDADE