A universidade no ritmo de Anitta – Colunas – Boletim da Liberdade
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A universidade no ritmo de Anitta

17.06.2022 08:08

Quais os requisitos para lecionar? Até pouco tempo, imaginava que uma boa dose de conhecimento adquirido ao longo de anos de esforço metódico fosse indispensável à caracterização de um docente. Não me refiro a títulos vazios de valor intrínseco, mas ao saber, obtido pela absorção das lições consagradas em uma certa área.

Contudo, a realidade insiste em contradizer a ingenuidade das minhas crenças. Segundo notícias recentes, a estrela pop Anitta lançou um curso de empreendedorismo e marketing em uma universidade privada, tendo sido até alçada a garota-propaganda do estabelecimento. Por contraditório que pareça, uma figura alheia ao mundo dos estudos é transformada em símbolo publicitário de uma instituição destinada à transmissão de conhecimento. 

Acompanhamos a rota trilhada por Anitta que, de anônima carioca, só chegou ao estrelato por meio de canções cujas letras, marcadas pela sexualização grosseira, são quase que filmes pornôs em versos. Aliás, a funkeira se empenha em atrelar seu trabalho ao erotismo incessante, seja pela exposição de suas partes íntimas, seja por declarações invariavelmente ligadas à sexualidade, como quando afirmou a um canal estrangeiro que “no Brasil, todo mundo quer se divertir e transar”. 

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A nudez tem sido objeto das manifestações artísticas de todas as civilizações, pois as proporções dos nossos corpos e a harmonia dos contornos físicos nos fascinam desde a antiguidade clássica. Basta pensar, por exemplo, no David de Michelangelo, onde o rei de Israel é retratado desnudo, pouco antes de vivenciar um evento crucial para sua trajetória, que seria o embate contra o gigante Golias. Com mestria, o escultor renascentista exprime as emoções daquele jovem exposto a uma clara tensão, exibindo uma mão crispada, as veias salientes, o semblante irritado e o olhar fixamente determinado. Na obra, o hebreu nos seduz pela virilidade no heroísmo, e não pelo falo em si.

O David não foi concebido para consumo imediato, mas para despertar nos espectadores sensações tão intensas a ponto de fazê-los desejar rever a obra. E, se gerações vieram a nutrir admiração crescente pela escultura, vê-se que ela transcendeu as preocupações comezinhas dos contemporâneos do autor, sendo capaz de afetar cada um de nós, tantos séculos depois. Pelas mãos de um artista, a pedra adquiriu um significado permanente. Já Anitta, pura impermanência em seu rebolado frenético, possivelmente cairá no esquecimento em poucos anos.

O cerne desse artigo tem sido debatido por pensadores da contemporaneidade como Mário Vargas Llosa que, em A Civilização do Espetáculo, investigou a metamorfose vivida pelo que se entendia como cultura em seus anos de juventude até a atual “matéria heteróclita” que a substituiu. Um dos aspectos estudados pelo escritor foi a mudança nos parâmetros de sexualidade que, embora tenha refletido uma salutar quebra de tabus, veio a desaguar na banalização do ato sexual, enxergado, sobretudo pelos mais jovens, como um esporte ou passatempo.

Segundo Vargas Llosa, tamanha “frivolização” do sexo levou ao desaparecimento do próprio erotismo, que sendo, por definição, um contraponto à norma, exige sigilo, clandestinidade, e que, uma vez banalizado, não realiza a humanização artística outrora possibilitada, dando ensejo apenas à pornografia barata e canalha. Dito de outra forma, o ato sexual, insinuado sob uma roupagem quase ritualística e fiel a elevados padrões estéticos, pode, pela via da arte, passar de um comportamento meramente cotidiano a uma fonte de beleza e contemplação; do contrário, continua sendo mera satisfação ao instinto animal de cada um de nós, cujo interesse não ultrapassa a intimidade de quatro paredes.

O país onde Anitta possui voz também na academia aniquila a beleza da arte e a do saber. No ritmo de uma massa sedenta por prazeres insaciáveis e incapaz de contemplar a permanência do belo, qual será o porvir do nosso já combalido cenário artístico? 

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil